O empresário catarinense Luiz Fernando Furlan, presidente do Lide – Grupo de Líderes Empresariais -, ex-ministro do Desenvolvimento e conselheiro da BRF, normalmente costuma ser mais otimista do que a média quando o assunto é economia. Agora, apesar do momento ser muito difícil, com base em informações dos associados do Lide no Brasil ele vê um copo não tão vazio. Diz que 70% das empresas estão com atividade e das que estão na bolsa, 75% se prepararam para essa crise.
Sobre o desabafo do governador de Santa Catarina, Carlos Moisés, durante live nacional do Lide dia 8 deste mês, com relação a investigações da compra de respiradores e atuação da mídia, Furlan diz que ficou chateado com a repercussão e que a intenção do governador não foi recomendar o cerceamento à imprensa. Segundo ele, o presidente do Lide Santa Catarina, Wilfredo Gomes, que acompanhou o evento, tem opinião semelhante sobre o assunto.
Ao falar sobre cenários para as agroindústrias de carnes, Furlan avaliou que os mercados estão favoráveis, mas mostrou apreensão com algumas decisões isoladas de instituições públicas do país de fechar frigoríficos em função de casos de empregados com Covid-19. Lembrou da complexidade de paradas nessa cadeia produtiva citando que só a BRF – dona da Sadia, Perdigão e Qualy – produz 7 milhões de pintinhos por dia.
Confira a entrevista a seguir:
O governo de Jair Bolsonaro tem tido várias crises políticas em meio à pandemia, algumas envolvendo o Congresso Nacional e o STF. Qual é a sua avaliação sobre esse cenário?
A última vez que nós falamos, você me perguntou isso e eu respondi que ele foi eleito para quebrar cristais, não foi isso?
Foi isso, sim.
Então, ele continua quebrando cristais. E surpreendentemente para alguns, a taxa dos seus aliados continua razoavelmente estável. As pessoas pensam diferente do que nós, é uma democracia. Eu não vejo com pessimismo a situação. Uma pesquisa que eu tive acesso recentemente mostra que mais de 70% das empresas estão tendo algum nível de atividade.
Há um movimento que eu apoio de um grande número de empresas que se comprometeram a não demitir. Saiu publicado também uma pesquisa que das empresas que têm ações na bolsa de valores, quase 75% tomaram precaução de engordar o caixa para esse período de provação, ou seja, vão aguentar a turbulência até o final do ano.
Ao mesmo tempo, com exceção do Rio Grande do Sul e Oeste de Santa Catarina, que enfrentam estiagem, nós estamos sendo abençoados este ano no Brasil com uma supersafra agrícola, o que quer dizer que alimentação não vai ser o nó da questão durante a crise do coronavírus. Além disso, abril foi o melhor mês para as exportações dos últimos seis ou sete anos.
Quando se fala em informações pessimistas e otimistas, eu costumo contar a história da queda de um acidente aéreo. Caiu um avião com 90 passageiros, 87 sobreviveram e três morreram, sabe qual foi a manchete? Três morrem em acidente de avião. Eu sempre convivi bem com a imprensa, mas ontem (quinta) fiquei feliz quando o William Bonner falou que iam tirar aquele fundo do Jornal Nacional com o coronavírus. Quer algo mais deprimente que aquele vírus indicando: ‘vou te pegar…’ Ontem ele tirou, felizmente! Imagem assim induz a população ao negativismo.
O secretário da Fazenda de Santa Catarina, Paulo Eli, disse que a economia do Estado vai ‘voar’ de pois da crise do coronavírus. O senhor acredita que temos diferenciais para acelerar assim?
Eu acredito. Como dizia a minha avó, é preciso dar o desconto porque eu sou catarinense, concordiense. Se eu vou ser pessimista, quem vai ser otimista no Brasil? Se os indicadores confirmam essa curva de abrandamento da doença, que localmente começa a ter uma flexibilização da economia, poderemos crescer mais. Para você ter ideia, lá em Concórdia estamos até desinfetando o asfalto em frente da fábrica para que as pessoas que chegam no estacionamento não pisem em foco do vírus. Isso, de alguma forma, dá uma reciprocidade. Acho que as exportações também vão ajudar.
Como avalia a saída de mais um ministro da Saúde?
Esperada. Um médico reconhecido que assumiu a missão para ajudar o Brasil, saiu constrangido. Acho que a solução, lá, deve ser colocar alguém alinhado com o presidente. Enquanto não for, não vai dar certo. Paciência!
Mas com um ministro mais alinhado ao presidente Jair Bolsonaro, que não recomenda isolamento social, não poderia resultar em maior número de doentes?
Nós somos uma federação. Autoridades como governadores e prefeitos muitas vezes não seguem uma orientação superior. Veja aqui em São Paulo. Foi estabelecido um rodízio de 50% dos carros e o prefeito colocou mais ônibus para o transporte público. Isso não tem nada a ver com o governo federal, com orientação do Ministério da Saúde. É uma orientação local.
Ouvi falar que em Florianópolis também é assim. Parece que o prefeito e o governador não tocam na mesma banda. Não sei bem. Isso acontece em muitos lugares. O que eu sigo mesmo, diariamente, e acabei de receber uma boa notícia é Concórdia, minha terra. Hoje, o aviãozinho do Corpo de Bombeiros levou quatro respiradores para o Hospital São Francisco. Espero que ninguém queira inaugurar os respiradores.
A live do Lide com o governador de Santa Catarina, Carlos Moisés, dia 8 de maio, para empresários de todo o país, teve uma declaração polêmica do governador sobre a imprensa, que atraiu críticas. O senhor estava coordenando as perguntas junto com o diretor executivo do Lide, João Dória Neto. Como analisa aquela fala do governador e a repercussão?
Ele fez um grande e inesperado desabafo no final. O pessoal gostou muito da live porque ele mostrou que está usando instrumentos modernos, usando tecnologia de informação, dados e projeções. Informou também a formação de um comitê de crise composto por pessoas preparadas para isso, o que impressionou os empresários. Na semana anterior, tivemos a participação do governador Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, que também foi bem. Antes, ouvimos o governador de Minas Gerais, Romeu Zema. Cada um tem uma característica.
O governador de Santa Catarina mostrou que é uma pessoa acostumada ao comando. Ele comanda uma equipe, consegue delegar. Até brinquei com ele: ‘um coronel do Corpo de Bombeiros deve saber comandar e apagar incêndios. O senhor é um governador que está no lugar certo e na hora certa. Tem alguns que não sabem comandar e apagar incêndios’.
No final, por uma circunstância local, ele falou sobre importação de respiradores. Numa situação de emergência você não vai ensinar natação para a pessoa. Você vai jogar uma boia, um pedaço de madeira ou se joga na água para poder ajudar (o governador disse que a pressão era tamanha que compraria até respiradores sem ver antes). Dias depois, senti que ele estava chateado com o que saiu na imprensa após a nossa live.
Se você olhar, este problema envolvendo respiradores está bastante horizontal no Brasil. Outro dia o governador do Rio falou: ‘a gente compra, pedem pagamento adiantado e na hora “H” eles mandam para outro cliente’. Há produto que não funciona. Então, não acredito que ele tivesse intenção de dizer que é para controlar a imprensa.
E também saiu aí numa publicação de um site que o Lide é presidido pelo governador de São Paulo, João Dória Junior. Esqueceram de ver o que é a realidade. O João Dória Neto, de 25 anos, vem sendo treinado no Lide como diretor executivo porque, familiarmente, ficou responsável pelas atividades. Há mais de quatro anos, desde que se licenciou do Lide, João Dória Junior, o governador de São Paulo, me pediu que assumisse a presidência.
Cada um de nós, de vez em quando, dá uma tropicada (tropeçada). E o governador Carlos Moisés, num desabafo, falou: ‘olha, vocês empresários precisam dialogar com a imprensa, mostrar essas coisas que estou fazendo’. Como eu fui corresponsável por essa live – o Wilfredo Gomes, presidente do Lide Santa Catarina, ficou só como ouvinte – eu realmente fiquei chateado. Achei que foi uma injustiça com o governador, sem entrar no mérito das questões. Ele fez um desabafo inesperado, mas nada como pressão, como saiu na imprensa.
A BRF, empresa que o senhor já presidiu e da qual hoje é conselheiro e acionista, está doando R$ 50 milhões para ajuda em função da pandemia. Como foi essa decisão?
Eu não sou porta-voz da BRF. Não conheço todas iniciativas. O que decidimos lá atrás é que uma empresa, sendo relevante para cerca de 300 municípios brasileiros – não considero só onde temos plantas, mas nas microrregiões que têm trabalhadores e integrados – que nós devemos estar presentes, voluntariar para ajudar a minorar os problemas. Isso vem acontecendo.
Foi criado um comitê, temos a participação de um infectologista muito reconhecido, de São Paulo (o médico Esper Kallás), que visitou unidades da empresa e prefeituras. Essa nossa parceria já está ajudando comunidades, hospitais e profissionais de saúde nas regiões onde a empresa tem operações.
Em função do avanço da Covid-19, algumas instituições, especialmente o Ministério Público, estão fechando temporariamente unidades de abate quando há casos de trabalhadores com a doença. Como o setor analisa esse tipo de iniciativa?
No Rio Grande do Sul já houve abate sanitário de frango em função do fechamento de frigorífico por causa da Covid. Imagina um produtor integrado com um lote de 10 mil frangos prontos para abate e a empresa diz que não pode receber porque está proibida de abater. E amanhã? A empresa também não pode receber. O que o produtor faz? Tem que fazer um abate sanitário. Mas as aves estão limpas, o que dá para fazer? Mata, joga numa vala e enterra. Imagina num país como o nosso, nesse momento.
Eu fico muito preocupado porque até esse momento só houve uma correria aos supermercados. Foi aquela no início do isolamento social. Imagina se começa a divulgar que fábricas produtoras de alimentos estão sendo fechadas. Aí você vai provocar uma corrida para compra de alimentos e, provavelmente, uma oportunidade para intermediação desonesta, que vai custar caro.
E não precisa acontecer isso. Quem já teve oportunidade de visitar um frigorífico, um da Sadia ou da BRF, por exemplo. Tem que colocar umas cinco peças esterilizadas, incluindo uma touca e uma máscara. Diariamente as roupas são esterilizadas. Nós (BRF) esterilizamos 70 mil kits de uniformes por dia, lavados e esterilizados em autoclave. E de repente aparece uma luz amarela.
Não estou falando em causa própria, mas genericamente, o setor de alimentos, principalmente os refrigerados, está convivendo agora com essa ameaça que tira o sono. Imagina plantas com milhares de pessoas, com integrados, esteio da arrecadação local em vários municípios. Os prefeitos também estão ficando preocupados em Lajeado e Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, também estão preocupados.
Os ministérios responsáveis pelas questões sanitárias e agrícolas têm protocolo que prevê o afastamento dos trabalhadores doentes…
Não quero polemizar, mas vou lembrar uma coisa. O seu Attílio Fontana, fundador da Sadia, quando contratou o médico Zoé Silveira D’Ávilla para ser o diretor de produção, ele disse a ele: Zoé, a partir de agora eu quero que as nossas fábricas sejam mais limpas do que o hospital onde você trabalha. A partir de então, nós temos as melhores plantas do mundo. Já visitei muitas empresas, em vários lugares. Isso aconteceu nos anos de 1960. O Doutor Zoé vai fazer na próxima semana 99 anos.
Então, a maioria das pessoas não têm ideia da retaguarda de um produto que está na gôndola de um supermercado. Você cuida da genética, da produção, matrizes, incubatórios… Você sabe o que é produzir 7 milhões de pintinhos por dia? Todo dia nasce. É o que estamos produzindo na BRF atualmente.
Por isso temos a preocupação de cuidar de todas as etapas para ter total garantia da qualidade. O setor tem diálogo com todas as autoridades, mas fica essa preocupação. No caso da BRF, foram contratados 2 mil trabalhadores para substituir as pessoas de risco e quem fica doente.
Como o senhor vê o cenário para a agroindústria de carnes, apesar da pandemia?
O que nós temos notado no mercado externo é que a demanda continua firme. Havia uma preocupação de que alguns mercados poderiam reduzir pedidos porque teriam dificuldades. Mas o que a gente viu foram alguns países tentando reforçar estoques. Lá atrás, a China parou de receber cargueiros e os navios foram encaminhados para outros portos. Imagina se isso começar a acontecer, países que dependem da importação de alimentação terão problemas. O front internacional está razoavelmente bem.
Na parte nacional, houve uma queda no chamado food service, que inclui restaurantes. Em compensação, o varejo teve aumento de demanda porque as pessoas estão se alimentando me casa. Há uma certa compensação aí, pelo que está no relatório da BRF. A teleconferência dos resultados da empresa foi sexta-feira e depois as ações subiram 10%. A minha mãe é a única remanescente dos 22 que assinaram a ata de fundação da Sadia, em 7 de junho de 1944. Ela é acionista até hoje e vê pelo iPhone as cotações da bolsa. Quando sobe ela não fala, mas quando cai ela pergunta o que está acontecendo.
