A venda da multinacional Embraco, de Joinville, por US$ 1,08 bilhão (pouco mais de R$ 4 bilhões) para o grupo japonês Nidec, pode ser assinada ainda no primeiro trimestre deste ano. Até agora, as avaliações dos órgãos de concorrência de 17 países, onde as empresas atuam, evolui dentro do esperado, informa a vice-presidente global da companhia, a executiva Ursula Angeli, natural de Florianópolis.
A Embraco, controlada pela americana Whirlpool, é um dos ícones industriais no Brasil. Produz soluções para refrigeração, especialmente compressores, tem fábricas em Joinville, China, Eslováquia e México, oferece cerca de 10 mil empregos diretos (5 mil em SC) e é referência em inovação com 1,2 mil patentes vigentes.
Executiva graduada em Administração na Esag-Udesc com MBA pela FGV/SP, Ursula trabalhou um pouco na empresa da família e depois foi para o mercado. Atuou na Ambev, com Marcel Telles e Carlos Brito, e na Telemar antes de entrar na área de RH da Whirlpool há 22 anos. Há seis anos a manezinha é vice-presidente de Recursos Humanos, Comunicação, Sustentabilidade e Relações Institucionais da Embraco. Nesta entrevista, ela mostra confiança no futuro da empresa, mesmo com a provável troca de controlador.
O que falta ainda para ser assinada a venda da Embraco para a japonesa Nidec?
Ursula Angeli – A gente está no processo. Como a Embraco está presente em vários países e a Nidec, que é a compradora, também está, a gente precisa que os órgãos reguladores deem o seu Ok. No Brasil o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) já aprovou e a gente está esperando os demais países. Cada um tem o seu processo de avaliação. A gente já tem Estados Unidos, Brasil e Colômbia que aprovaram, mas há vários outros ainda na lista. Desde quando a gente anunciou lá em abril essa intenção de compra por parte da Nidec, a expectativa é de que no primeiro trimestre de 2019 poderemos ter novidade sobre a venda da Embraco.
Todos países em que as empresas atuam precisam aprovar o negócio?
Ursula Angeli – Sim. São 17 países. É um processo longo porque são muitas instituições envolvidas em diversos países. Pode ser até mais rápido, ou mais prolongado, mas a gente estima que a venda seja no primeiro trimestre. Nesses países, a Embraco está presente produzindo e vendendo compressores ou só vendendo porque esses órgãos regulam a concorrência em defesa do consumidor. Nosso produto é um B2B, não é para consumidor final, mas tem impacto grande no preço final, por isso é necessária essa avaliação. A empresa compradora, a Nidec, também tem negócio de compressor por isso tem que passar pelos órgãos reguladores.
Vocês já têm informação sobre o que vai mudar na Embraco com a troca de dono?
Ursula Angeli – A gente não pode ter essas conversas porque somos competidores. Enquanto esse processo não se finalizar, temos que continuar atuando no mercado como concorrentes, como se nada estivesse acontecendo. A gente não pode conversar sobre essas coisas com o lado de lá. O que temos de informação é o que é público. Por isso que na Embraco a gente continua fazendo negócios como se “nada” estivesse acontecendo. As diretrizes de longo prazo, tudo o que a gente imagina lá para frente continua de vento em popa porque entendemos que é assim que o negócio precisa ser gerido. Ele precisa ser saudável, precisa ser competitivo, queremos que a Embraco continue com um bom patamar de negócios como ela sempre teve, por isso a gente não pode se descuidar em nenhum momento, nem do curto prazo, nem do longo prazo.
A Embraco sempre foi destaque mundial em inovação. O que vocês estão fazendo nessa área?
Ursula Angeli – As diretrizes estão sendo seguidas. Continuamos investindo em inovação. Eu diria que inovação é o DNA da Embraco. A gente tem um corpo profissional muito interessante, muitas pessoas competentes, com excelente formação, com uma cabeça muito diferente. Mas só olhar para dentro de casa não garante mais nada. Então as parcerias são fundamentais. Por isso fomentamos a inovação não só com o time interno, mas trazendo o que acontece no mundo, trazendo gente que desde a hora que entra na universidade está com a cabeça focada em novas soluções. A inovação na Embraco é uma combinação de várias disciplinas. Necessita de conhecimento moderno em materiais, ruídos e tecnologias que oferecem outras possibilidades. Por isso se posiciona como empresa de soluções em refrigeração.
Quanto a empresa investe em P&D?
Ursula Angeli – Em pesquisa e desenvolvimento (P&D) a Embraco continua investindo de 3% a 4% do faturamento. Apesar dos ciclos econômicos, a gente continua fiel a esses percentuais porque estar lá na frente é fundamental. Somos líderes mundiais em tecnologia. Quando participamos de feiras no exterior fica claro que continuamos numa posição muito interessante no mercado. Apesar do avanço de concorrentes, nós apontamos tendências. Estar na frente em tecnologia é importante.
A empresa assinou uma parceria com o Senai/SC. Qual é o objetivo?
Ursula Angeli – O Senai sabe da relevância da inovação para a Embraco e já é parceiro. Ele quer saber o que buscamos para indústria 4.0, internet das coisas, com o mundo da universidade que é muito vasto. A gente se coloca como laboratório para isso. Eu tenho 22 anos de trajetória em recursos humanos. Já vi várias empresas tentando fazer parcerias com universidades. Mas, honestamente, como a gente tem, eu não vi. Para a Embraco, o estudante experimenta, faz desenvolvimento. A gente entrega projetos e pede que testem. Daí já saiu muita coisa. Isso é futuro. Um exemplo é o wisemotion, um motor de refrigerador que não usa óleo. É uma ruptura de paradigma. Temos um grande orgulho de gerar esse conhecimento. O investimento com o Senai será de R$ 5 milhões em 5 anos. Envolverá pesquisadores do Senai para gerar novas oportunidades e parcerias com universidades.
A Embraco e o laboratório Polo, da UFSC, têm a parceria mais antiga do mundo entre uma universidade e uma empresa. Como está atualmente?
Ursula Angeli – São 36 anos ininterruptos. Por isso que eu falo que já vi muita empresa com intenção e projetos maravilhosos com universidades, mas nunca vi nenhum que na prática dê certo por tanto tempo e gerando tanto conhecimento. Muita coisa que a gente tem na Embraco hoje a gente deve à pesquisa e ao desenvolvimento feito pela UFSC. Dá para dar muitos exemplos de projetos desenvolvidos e pessoas boas que vieram para a Embraco através dessa parceria. Alguns se aposentaram, outras estão com a gente, outros estão em outros lugares do mundo (o ex-presidente da empresa, Roberto Holthausen Campos, natural de SC, é vice-presidente global da Whirlpool e atua nos EUA). Economia de energia e conservação de alimentos são prioridades nessas pesquisas.
Como a companhia avançou no programa de zero resíduos?
Ursula Angeli – Esse é um longo processo. Dá para investir em equipamentos, mas resulta mais de uma cultura ampla. Há alguns anos a gente aderiu a um programa mundial que começou na Fiat, o World Class Manufacturing (WCM). É uma metodologia originada no Japão que visa qualidade reduzindo fontes de perdas seguindo o conceito zero: zero defeitos, zero acidentes, zero quebras, zero estoque etc…. Começamos a implantar isso investimento em maquinário e nas pessoas. Quanto mais um operador sabe por que ele está fazendo daquele jeito, mais êxito terá o programa. Adotamos o WCM em todas as plantas.