A definição de quem vai governar o Brasil nos próximos quatro anos pela eleição deste domingo (25) vai impactar o dia a dia de muitos brasileiros em função da política econômica a ser adotada. Em entrevista à NSC, o economista-chefe da empresa de investimentos EQI, Stephan Kautz, explica impactos do déficit público para as pessoas e mais cenários para a economia.
O que o mercado espera da gestão econômica do vencedor da eleição presidencial deste domingo?
– O mercado está olhando mais para a questão do ajuste fiscal, que é o mais importante hoje. Isso porque a dívida continua subindo, o país tem um déficit público significativo. Há mais de 10 anos, a dívida está em uma trajetória de alta.
Por que a redução do déficit público é importante para o dia a dia das pessoas?
– Porque o ajuste fiscal vai levar a uma taxa de juros mais baixa. E isso vai afetar os investidores. A pessoa que quer comprar um imóvel, quer comprar algum bem, que o custo de financiamento desse produto, desse bem, vai ficar mais barato se você tiver um ajuste fiscal.
E hoje entendemos que no cenário de eleição do candidato Flávio Bolsonaro deveremos ter um ajuste fiscal mais rápido do que em mais um governo Lula. No governo Lula, não que ele (o ajuste) não deva acontecer, mas, provavelmente, será muito mais lento e esse benefício dos juros mais baixos não vai acontecer no curto prazo.
Então, nesse sentido, a população em geral tenderia a sentir o resultado da eleição basicamente por um custo de financiamento, um custo de empréstimo mais baixo caso o Flávio venha a ser eleito. Considerando a pessoa física, esse é o principal ponto hoje que a gente vê de diferença.
Na prática, como isso pode impactar mais na atividade econômica?
– A perspectiva é de que o consumidor poderá comprar mais bens e isso acaba girando a economia. Se adquirir imóvel, vai ter que mobiliar. As vendas de veículos podem subir. Tudo isso deve fazer com que a economia gire mais rápido daqui para frente. O ponto é como o ajuste fiscal será feito no curto prazo.
No ano que vem a gente vai ter que entender qual será a intensidade do ajuste fiscal e qual será a intensidade da queda de juros para ver qual vai ser a alta do Produto Interno Bruto (PIB) no ano.
Quais são as expectativas para a inflação nos próximos meses?
– No curto prazo, a inflação ainda vai vir alta independente do resultado eleitoral. Temos o El Niño acontecendo. A previsão é de que será o mais forte El Niño da história. É um fenômeno que começou a ser medido há 80 anos e nunca teve uma previsão tão forte como agora. Acreditamos que vai afetar muito a produção agrícola do Brasil.
A previsão é de muita chuva no Sul e Sudeste e vai ter muita seca no Norte e Nordeste do Brasil. Isso vai afetar a produção agrícola e o custo de transporte. Por isso, achamos que até março do ano que vem a inflação deverá ficar numa tendência de alta por conta desse fenômeno. Isso não tem nada a ver com a eleição em si.
Depois de passar esse efeito, se realmente você tiver um ajuste fiscal e tiver uma estratégia de governo para reduzir o tamanho do Estado na economia, isso deve ajudar a inflação a desacelerar de maneira mais constante, mais para próximo da meta, que é de 3%.
Como o senhor vê o cenário para os juros básicos no Brasil?
– O Banco Central deve fazer mais um corte agora, daqui a duas semanas. Se a inflação subir como a gente espera, talvez ele pare essa alta, mas será no ano que vem.
A dívida pública está em 82% do PIB. É importante termos uma dívida pública menor porque o custo de capital no Brasil é muito alto. Os Estados Unidos, por exemplo, hoje têm uma dívida de 123% do PIB, mas os juros básicos deles estão em 4% a 5%. O nosso juro está em quase 14%, em 13,75%. Então, mesmo que a gente tenha uma dívida menor, o custo de rolar essa dívida, de continuar financiando-a, ele é muito mais alto.
Então a velocidade de crescimento da nossa dívida ao longo do tempo, provavelmente, será mais rápida do que a dívida americana. E o segundo ponto é que, como no Brasil a gente tem uma moeda de país emergente, que é mais volátil do que os países desenvolvidos, qualquer choque que aconteça na economia global pode levar a uma depreciação do câmbio aqui.
Se isso acontecer, o Banco Central tem que voltar a subir juros. E, de novo, atrapalha ainda mais a perspectiva de crescimento da dívida, de ajuste da dívida. Então, em geral, acho que é importante a gente controlar a nossa dívida e fazer ela cair, porque não só gera juros mais baixos, mas porque a dinâmica ao longo do tempo, apesar de ser mais baixa que a dos países desenvolvidos, a trajetória dela é pior.
Comparando com outros emergentes, que são os outros países que têm o mesmo rating que o nosso, a mesma classificação de risco, o Brasil, hoje, é o que tem a maior dívida pública de todos. Então, o risco, na verdade, se a gente continuar com essa dívida subindo, é de que a gente tenha uma redução do nosso rating, da nossa nota de crédito.
Quais as oportunidades e desafios que devem ficar no radar dos investidores?
– O que vemos é que, se os juros realmente caírem, abre espaços para os investimentos em renda variável (ações na bolsa) e nos fundos imobiliários, que são ativos que os brasileiros deixaram de investir nos últimos anos, por motivos óbvios. A taxa de juros estava muito alta e o investidor procurou muito a renda fixa, porque estava uma rentabilidade muito alta com menos volatilidade.
Mas avaliamos que, hoje, existem diversas oportunidades de investimentos na renda variável, na Bolsa, e na parte de fundos imobiliários que devem se beneficiar muito daqui para frente.
Apesar de o mercado já ter apreciado ou subido depois do primeiro turno, acreditamos que ainda tem prêmio, que ainda existe possibilidade de altas contínuas desses dois mercados daqui para frente.
E eu acho que também, em termos econômicos, que as oportunidades dos empresários devem se abrir também de maneira clara.
O Brasil teve muitas recuperações judiciais nos últimos dois anos. Foi recorde. Na hora em que o juro cai, eu acho que o próprio empresário começa a perceber um ambiente mais favorável para fazer mais investimentos e tentar expandir empresas.
