Entre as poucas novidades para a eleição deste ano está o Partido Novo, criado com ideias para imprimir um modelo de gestão mais eficiente ao país. O pré-candidato à presidência pela legenda, o empresário carioca João Amoêdo, 55 anos, engenheiro e administrador, ex-presidente dos conselhos da construtora João Fortes Engenharia e do Unibanco, esteve em Florianópolis sexta-feira para fazer palestra no Fórum Liberdade & Democracia. E no sábado participou do encontro estadual do partido e falou com a imprensa sobre propostas para economia, educação e saúde. Eu participei da entrevista coletiva. Confira os principais trechos:
Origem do partido e prioridades
— A ideia do Novo começou em 2009 e 2010. Éramos um grupo de pessoas que nunca tinha participado da política, mas muito indignado com a forma com a política vinha, a qualidade dos serviços públicos prestados, a quantidade de impostos. Em 2010 a gente sentou e concluiu que gostara de fazer alguma coisa para melhorar o país, e a melhor forma de fazer isso é pela política. O objetivo é melhorar a vida das pessoas, especialmente as que mais precisam, melhorar os serviços públicos e deixar um país para as próximas gerações. A gente não se identificava com nenhum dos 27 ou 28 partidos. Aí foram 181 fundadores no início de 2011, pessoas de 35 profissões diferentes, com idades de 16 anos a 80 anos. Quando começamos o partido, tínhamos certeza de que teríamos que fazer tudo diferente, porque os partidos são mal vistos pela população.
Candidaturas
— Conseguimos o registro do partido no final de 2015, participamos da eleição de 2016 e elegemos quatro vereadores. Para 2018, com todos os problemas com a Lava-Jato e outros, entendemos que se abriu uma janela maior para o partido. Então nosso foco vai ser o Congresso Nacional, porque precisamos fazer uma mudança desse modelo de Estado que a gente tem e que não para em pé porque temos uma carga tributária enorme, serviços ruins e, mesmo assim, as contas não fecham. Alguma coisa está errada nessa dinâmica. Vamos lançar mais de 350 candidatos para a Câmara federal, alguns poucos ao Senado, candidatura à Presidência da República e algumas a governadores. Teremos candidato a governador em São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul e Distrito Federal,e eventualmente para o Rio de Janeiro. A gente quer chegar ao poder pela aceitação das nossas ideias, não simplesmente para ter o poder.
Propostas econômicas
— Quando começamos o partido, a gente não se colocava como liberal, porque a proposta inicial era basicamente trazer o cidadão para participar da política e melhorar a eficiência da gestão pública. Com o tempo, à medida que a gente foi se aprofundando, entendemos que o desenho liberal é o que funciona melhor em todos os lugares do mundo. Os países que têm mais liberdade econômica são os que oferecem melhor qualidade de vida e maior renda per capita, então, concluímos que as bandeiras liberais fazem mais sentido. Na parte fiscal, há uma série de coisas. A primeira, que não dá para fugir, é o ajuste da Previdência. A gente já vê de cara que há uma grande distorção porque do rombo todo, dois terços, vêm de mais de 30 milhões de pessoas (da área privada), e um terço de apenas 1 milhão, que são os funcionários públicos. É preciso fazer um ajuste da Previdência com o que está aí e, num segundo momento, eventualmente podemos partir para um modelo de capitalização individual. Um segundo ponto fundamental é o gasto público. A gente precisa dar exemplo dentro de casa. Os vereadores eleitos pelo Novo cortaram 70% a quantidade de assessores e pelo menos 50% das verbas de gabinete. Quando a gente vê que os congressistas custam R$ 29 milhões por dia do nosso bolso e a Presidência da República custa R$ 560 milhões por ano, concluímos que precisamos fazer cortes até para ter um discurso com relação aos aposentados, que estamos mudando (com a proposta de reforma). Também queremos privatizar todas as empresas estatais. Só para lembrar, as 149 empresas estatais consumiram nos últimos dois anos mais de R$ 40 bilhões dos cofres públicos com buracos devido à má gestão. Até brinco com o caso dos Correios, que deve ser caso único do mundo de uma empresa com monopólio dando prejuízo. Então, as principais medidas são a reforma da Previdência, corte de gastos públicos e privatização de todas as estatais, incluindo a Petrobras. Também precisamos fazer uma reforma tributária, porque a complexidade do sistema tributário é tão grande que é difícil para as empresas fazerem todos os recolhimentos corretos.
Abertura ao exterior
— O Brasil é um país muito fechado (a negócios com o exterior), até na comparação com países da América Latina. O pior é que está crescendo. Nossa participação é menos de 1% do comércio mundial. Isso é ruim para inovação e geração de empregos, a conta para o consumidor fica muito cara. O Novo depende uma abertura muito grande da economia. Mas vejo que no Brasil a gente cria um problema e, ao invés de atacar esse problema, cria uma outra solução para atacar o problema. O Brasil tem uma carga tributária elevada, complexa, relações trabalhistas bastante complicadas e uma taxa de juros bastante alta. Então fazer negócios no Brasil é extremamente complicado. Aí a forma de viabilizar as empresas, ao invés de resolver esses problemas, é criar uma barreira protecionista. É preciso resolver os problemas e tirar barreiras protecionistas. Conceitualmente, a gente é totalmente a favor de uma grande abertura da economia.
Universidades públicas
— O sistema de educação no Brasil é perverso porque 60% da verba para educação vai para as escolas de nível superior, e o problema é que temos educação básica, fundamental, de péssima qualidade. A maioria que consegue entrar no sistema público de ensino superior teve escola privada. Então você tem o pobre transferindo recurso para o rico e aumentando a concentração de renda, o que a gente deveria reduzir naturalmente. Uma ideia que a gente pensa, o que foi até uma sugestão do próprio Banco Mundial, é que na faculdade pública, quem puder pagar, deveria pagar para a gente poder melhorar o ensino fundamental.
Ensino fundamental
— Cada vez que a gente se aprofunda mais na avaliação do setor público, vê que os incentivos são muito ruins. Então, se a gente puder transferir recursos para o cidadão e dar a ele liberdade de escolha, seria muito melhor. Uma das coisas que a gente gostaria de testar é um vale educação. Dar recursos ao cidadão e dar a ele a opção para colocar o filho numa escola privada. Aí eu gosto de citar o exemplo do Bolsa Família. O governo foi resolver um problema de fome da população com um cartão com recursos, e essas pessoas foram comprar na área privada. Foi um processo mais barato, mais eficaz, com menos corrupção do que se ele tivesse que fazer uma rede de supermercados. Se isso funcionou no caso de alimentação, será que de fato o Estado precisa contratar professor e fazer escolas ou bastaria que ele desse o dinheiro para as pessoas e elas ficassem livres para decidir isso? E quando a gente olha a quantidade de recursos que o Brasil investiu em educação, foi crescente nos últimos anos. Mas quando se olha a nota dos alunos no teste de Pisa, elas foram decrescentes. Às vezes, não necessariamente mais recursos significam melhor qualidade. O Estado pode prover e não precisa administrar os recursos.
Saúde pública
— Nós ainda vamos detalhar nossos programas. Mas pretendemos usar mais a tecnologia. Se cada brasileiro tiver um prontuário online, isso faria uma diferença enorme. E a gente também gostaria de testar um pouco esse modelo de vale saúde, que a pessoa recebe um recurso e procura um serviço privado. Isso tem funcionado bem em alguns países como a Alemanha, Holanda e Cingapura. Quantas clínicas populares têm avançado no Brasil justamente pela ineficiência do setor público? A pessoa prefere pagar uma consulta de R$ 40 ou R$ 60 do que ir ao SUS e não ser atendida.