Na série de declarações inconsequentes de autoridades do governo federal nesta terça-feira, duas vieram do ministro da Economia, Paulo Guedes. Ele falou que o país corre o risco de voltar a ter hiperinflação e que o governo ainda não conseguiu privatizar empresas. Além de exageros, faltou apontar de quem é a culpa.
O Brasil travou uma longa luta contra a inflação alta e até hiperinflação nos anos de 1980 e 1990. Na década de 80, todos aplicavam o dinheiro no overnight, com rendimento diário para não perder o valor frente às desvalorizações diárias. Em março de 1990, o então governo de Fernando Collor fez o confisco da poupança gerando um caos na economia. Naquele mês, a inflação subiu 80%. O grande problema era a dívida pública descontrolada, que afetou principalmente os mais pobres, que não tinham conta bancária para aproveitar os reajustes diários. A crise foi controlada a partir de 1994, com o Plano Real.
Arrecadação de SC tem a maior alta da história com retomada pós-pandemia
Agora, com as metas de inflação e a taxa básica de juros, o risco de descontrole de preços é muito menor. Hoje, em função do crescimento do consumo na pandemia, taxa básica de juros no menor patamar da história – 2% ao ano –, mais a alta do dólar em função de instabilidades políticas no país e no mundo, cerca de 70% dos preços estão em alta. É um típico quadro inflacionário, mas a maior parte deverá recuar em função das leis de mercado.
O alerta de Guedes sobre hiperinflação foi sobre o risco de o Banco Central não poder elevar a taxa básica Selic para conter os preços porque teria que praticar juros mais baixos para não estourar as contas públicas. Mas esse problema precisa ser prevenido pelo próprio Ministério da Economia. A pasta deve gastar o que pode e, se não consegue aumentar a arrecadação, deve aprovar medidas no Congresso Nacional que reduzam despesas. Entre as alternativas possíveis estão aquelas da reforma administrativa, como a suspensão de promoções automáticas para servidores com altos salários. Até porque, enquanto trabalhadores do setor privado perderam emprego ou tiveram salários reduzidos, os servidores do setor público de alta renda não deram nenhuma contribuição.
Sobre a venda de estatais, algumas foram realizadas no atual governo, mesmo com planejamento anterior. Um exemplo é o da Transportadora Associada de Gás (TAG), da Petrobras, adquirida em abril de 2019 pela Engie e a canadense CDPQ por R$ 33 bilhões. A demora das privatizações também resulta de falta de articulação do governo. No mesmo dia das crítidas de Paulo Guedes, o Ministério da Infraestrutura divulgou estudo sobre a privatização de portos no segundo semestre de 2022, prevendo para o futuro leilão o Porto de Itajaí, um dos terminais que mais cresceram no país este ano em movimentação de cargas de exportação e importação.
O fato é que, tanto o risco do estouro das contas públicas e de hiperinflação, quanto o atraso das privatizações são problemas que resultam da falta de articulação do governo. Ao invés de negociar com o Congresso a aprovação das medidas necessárias, prioriza fazer campanha antecipada para reeleição. O pleito está longe, enquanto a maioria das necessidades dos brasileiros segue sem atendimento.
