Pela primeira vez em 76 anos, a Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (Facisc), entidade voluntária que representa as economias dos municípios e regiões do estado, será presidida por uma mulher. A empresária Rita Cássia Conti, de Brusque, foi eleita quinta-feira (29) para liderar a entidade nos próximos três anos – de 2027 a 2029 – sucedendo o empresário Elson Otto, de Palmitos. A Facisc é integrada por 149 associações empresariais que têm mais de 52 mil empresas associadas.
Em entrevista exclusiva à coluna, a empresária, que terá posse festiva dia 26 de novembro em Balneário Camboriú e assume em 1º de janeiro, defendeu a união do setor empresarial para buscar soluções que a economia de SC necessita para ser ainda melhor. Numa comparação peculiar, a empresária diz que Santa Catarina é um “Boeing”, mas se tivesse a infraestrutura necessária seria um “supersônico”, isto é um avião que voa acima da velocidade do som.
Veja imagens de momentos importantes da trajetória de Rita Conti:
Rita Conti reconhece que a sua eleição é um fato histórico para a representação das lideranças femininas na área econômica em Santa Catarina. Um destaque da nova diretoria da Facisc é o equilíbrio de gênero. Dos 33 cargos da nova diretoria da Facisc, 16 são ocupados por mulheres, que são empresárias de renome, líderes de empresas relevantes para o estado e o Brasil.
Rita Conti tem sólida atuação na indústria e no comércio. É fundadora e diretora do Grupo RC Conti Indústria e Comércio de Brusque, empresa com mais de 25 anos que é fabricante de pijamas da marca Mensageiro dos Sonhos. Casada, dois filhos, é graduada em Publicidade e Propaganda pela PUC/RS e pós-graduada em Marketing pela Unisinos/USP.
A presidente eleita da Facisc foi a primeira mulher a presidir a Associação Empresarial de Brusque, Guabiruba e Botuverá (Acibr) e a primeira integrante da mesa diretora da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc). Também integra conselhos de entidades nacionais. Saiba mais sobre a futura gestão da Facisc e sobre o que pensa a empresária na entrevista a seguir:
A Facisc é uma entidade de ampla representação empresarial no estado e você foi eleita em candidatura de consenso. O que a nova diretoria vai priorizar do que já está sendo feito?
– AFacisc é uma grande rede de voluntários. É importante destacar isso. Temos cerca de 52 mil empresas associadas reunidas em 149 associações empresariais. Estamos presentes em todo o estado. Essa capilaridade nos permite ouvir muitos empresários, principalmente nas plenárias regionais que realizamos neste período.
Reunimos as associações e seus presidentes em cada região, como Norte, Alto Vale e Vale do Itajaí, para fazer um balanço e ouvir as demandas. Temos vice-presidentes regionais e uma diretoria bastante completa, que nos permite ter um mapa de todo o estado e contemplar todas as regiões. Representamos pequenos, médios e grandes empresários de diferentes setores.
É uma atuação muito abrangente. Nesse contato com a base, sentimos que a união precisa ser uma das principais diretrizes da gestão. Mais do que nunca, precisamos estar unidos para ter mais protagonismo no diálogo com o poder público e na discussão de políticas públicas. Precisamos olhar para Santa Catarina como um estado de todos.
Como transformar essa união em uma atuação mais forte da entidade?
– Precisamos desenvolver lideranças para conduzir esse movimento e dar continuidade ao trabalho. A Facisc tem números excelentes, é uma federação próspera, que evolui e amadurece em várias áreas. Temos soluções muito boas para os empresários. Como a entidade precisa se sustentar com recursos próprios e não recebe recursos governamentais, essas soluções também contribuem para a sua manutenção e o seu desenvolvimento.
Além de dar continuidade ao trabalho desenvolvido, uma palavra que surgiu com muita força e que pretendo trabalhar bastante é representatividade. Temos um papel fundamental diante das polarizações e de tudo o que acontece na economia e na geopolítica, nas Américas e no mundo. Precisamos ter esse olhar mais amplo, desenvolver lideranças, participar do desenvolvimento do estado e colocar em discussão pautas estruturantes importantes.
Muitas pessoas não conhecem os serviços da Facisc. Como a federação e as associações participam do dia a dia das empresas?
– A Facisc oferece mais de 42 soluções. É um leque amplo de serviços que facilitam o dia a dia do empresário. São soluções pensadas e desenvolvidas a partir das necessidades da base, por isso têm muito retorno. Na parte institucional, temos os núcleos setoriais, que fazem um trabalho muito importante dentro das associações. Na minha região, em Brusque, e também em Blumenau, por exemplo, há muitos núcleos em atividade.
União que fortalece negócios
Pode dar um exemplo de como esses núcleos ajudam os empresários?
– As associações empresariais de Blumenau e de Brusque promovem muitas ações por meio dos núcleos. Na Fenarreco, por exemplo, houve uma área gastronômica organizada com a participação do núcleo de gastronomia da associação. O trabalho envolveu o Sebrae, as padarias locais e os empresários daquele segmento. A iniciativa bateu recordes de público e de arrecadação. Isso acontece porque o empresário local participa, desenvolve suas habilidades e competências e passa a olhar para o próprio negócio de outra forma. Ao participar de uma grande festa, ele percebe a sua capacidade. Em Blumenau também há exemplos desse trabalho.
A partir disso surgem missões empresariais e intercâmbios com grupos que visitam outros países para trocar experiências. Também temos soluções muito práticas, como a conciliação dos pagamentos com cartões de crédito. Pense no dono de um pequeno mercado. Muitas vezes, ele trabalha sozinho: atende no caixa, cuida do estoque e de todas as outras tarefas. Hoje, com tantos pagamentos em cartão e Pix, precisa conferir as movimentações bancárias, mas nem sempre consegue fazer isso. Temos uma solução que o ajuda nesse controle e facilita muito a vida dele.
E como funcionam os cartões oferecidos pela Facisc?
– Essa é uma área muito forte para nós. Temos uma longa trajetória com os cartões e evoluímos nessa oferta. É uma ferramenta própria, desenvolvida aqui e bastante utilizada. Ela gera recursos para a associação e, principalmente, movimenta a economia local, porque o dinheiro permanece no município. É um cartão desenvolvido em Santa Catarina. Quando é utilizado em uma cidade, aquele valor circula no comércio local. Isso cria um círculo virtuoso, porque os recursos retornam ao comércio e continuam movimentando a economia.
Que outras iniciativas vocês desenvolvem para os empresários?
– Temos o programa Geração Empreendedora, iniciativas voltadas às mulheres empresárias e às jovens lideranças, além de núcleos estaduais, como o das oficinas mecânicas. Também temos núcleos de inovação. É um conjunto de iniciativas que contribui para o desenvolvimento dos pequenos, médios e grandes empresários, amplia a rede de contatos e ajuda no dia a dia dos negócios.
Para ter acesso a esses serviços, a empresa precisa se associar à entidade empresarial da sua cidade?
– Sim. Ao se associar, a empresa passa a ter acesso aos serviços e também pode participar dos núcleos. Percebemos que esse trabalho funciona muito bem quando a associação está organizada, com os executivos e a diretoria atuando em conjunto. A associação cresce e gera recursos para manter suas atividades.
Ao mesmo tempo, as empresas permanecem associadas porque utilizam os benefícios oferecidos pelo sistema Facisc. Isso ajuda a explicar o crescimento da nossa base, que reúne cerca de 52 mil empresas. Esses serviços se tornam importantes para o dia a dia dos negócios. Por isso, as empresas passam a priorizar a participação na associação, e essa relação se fortalece. Também temos soluções voltadas diretamente à gestão das empresas.
Quais são essas soluções? Vocês oferecem plano de saúde?
– Plano de saúde, não. Temos cartão para gestão de benefícios, plano odontológico, consultas a informações cadastrais, certificado de origem e certificado digital. São soluções oferecidas por meio das associações. Esses serviços são voltados à gestão da empresa, para facilitar o seu dia a dia.
Você falou em ampliar a representatividade institucional da Facisc e fortalecer a união entre os empresários. Como será esse trabalho?
– Santa Catarina é um estado de excelência, com organização e competência. Vocês, que circulam entre as federações, conhecem essa realidade. Embora existam indicadores negativos, a maioria dos nossos números é muito positiva. Somos um exemplo para o país, ainda que isso nem sempre seja reconhecido. Mesmo quando comparamos Santa Catarina com outros países, temos resultados expressivos. Nesse contexto, entendemos que um dos principais gargalos do estado é a infraestrutura, especialmente a rodoviária.
Vamos trabalhar com pautas estruturantes, principalmente portos, aeroportos e rodovias. A habitação também é uma preocupação que já estamos discutindo há algum tempo. Precisamos de mão de obra mais qualificada e enfrentamos aluguéis muito altos.
Existem programas nacionais de habitação que, às vezes, não conhecemos profundamente e, por isso, deixamos de aproveitar. Já estamos realizando esse trabalho, e a habitação será uma das nossas pautas estruturantes. Outra é a energia. Evoluímos muito tecnologicamente, mas, quando percorremos o estado, ainda encontramos cidades com problemas de transmissão e quedas frequentes no fornecimento.
Federação cria novas diretorias
A nova diretoria terá pessoas dedicadas a essas pautas?
– Sim. Vamos trabalhar a questão da energia porque entendemos que ela é fundamental para o desenvolvimento. Também temos pautas como inovação e exportação. Nossa gestão é formada por 33 lideranças. Tivemos a possibilidade de ampliar essa estrutura com diretorias previstas no estatuto, incluindo áreas que ainda não tinham uma atuação específica.
Na gestão anterior, o presidente Elson Otto criou a diretoria de Relações Internacionais, que já realiza um trabalho muito importante em parceria com outras federações e com a Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil, a CACB, principalmente na abertura de mercados.
Quais outras áreas terão diretorias específicas?
Teremos uma diretoria de Negócios, com um olhar voltado às soluções da Facisc. Além da representatividade institucional, precisamos cuidar dos negócios e melhorar o ambiente para os empreendedores e as associações empresariais. Também teremos uma diretoria de Segurança Pública. Algumas cidades catarinenses já são referência nessa área. Podemos compartilhar essas experiências e nos unir para tornar o estado cada vez mais seguro.
Essa diretoria não existia e vai trabalhar questões específicas. Teremos ainda uma diretoria de Habitação e Logística, focada nessas demandas, nas parcerias público-privadas e no acesso a programas federais, para compreendermos melhor essas oportunidades e avançarmos. Outra área será o agronegócio. Entendemos a força dessa cadeia, sua importância para a balança comercial brasileira e a projeção de Santa Catarina no mercado internacional.
Como essas diretorias vão se articular com os representantes regionais?
– Além dessas áreas, temos diretores setoriais que vão trabalhar em conjunto com as diretorias. Contamos também com 12 vice-presidentes regionais, que representam todo o estado. Eles são indicados pelas associações, precisam ter sido presidentes de uma entidade e ter uma atuação consistente. Podem permanecer por dois mandatos, ou seja, seis anos.
Agora houve uma renovação grande: dos 12 vice-presidentes, dez foram substituídos. Quando olho para eles e para a diretoria, até brinco que formamos um “paredão da infraestrutura”. Temos empresários muito competentes nessas áreas, com experiência em portos e aeroportos, do Sul ao Oeste e ao Norte do estado. São pessoas muito capacitadas. Vamos alinhar cada vez mais esse grupo para fortalecer as pautas estruturantes.
Além da infraestrutura, em que mais a gestão pretende trabalhar?
Em conexões, representatividade e pessoas. Vamos trabalhar muito com as pessoas, considerando a transformação tecnológica e as mudanças no mundo do trabalho. Precisamos ajudá-las a compreender essas transformações e, ao mesmo tempo, fortalecer os vínculos pessoais. Esses vínculos geram conexões e ampliam a representatividade.
Queremos movimentar a entidade, trazer pessoas que nos inspirem, conversar mais e manter um diálogo frequente. Também pretendemos estar mais presentes em Brasília e assumir o protagonismo das nossas pautas. Muitas delas chegam por meio do Voz Única, um programa que nos oferece um retrato das demandas de todo o estado.
Comparação de SC com aviões
Essa presença em Brasília inclui o diálogo com o governo federal e o Legislativo?
– Sim. Vamos trabalhar para estar presentes com essas pautas. Terei uma agenda voltada à representatividade de todo o estado, para nos fazermos presentes e atuarmos juntos. A federação tem valores e princípios que precisam ser respeitados.
O Voz Única nos dá subsídios para defender essas pautas estruturantes. Mesmo em um cenário político mais incerto, precisamos estar unidos para dizer: “Estamos aqui e precisamos dessas melhorias”. Independentemente das adversidades, elas são necessárias.
Quanto Santa Catarina poderia avançar com uma infraestrutura melhor?
– Sempre digo que Santa Catarina é um Boeing. Mas, se tivéssemos toda a infraestrutura necessária, seríamos um supersônico (avião que trafega em velocidade acima da do som) de uma nova era, com inteligência artificial, que ninguém conseguiria segurar. Quando falo em estradas, não me refiro apenas à BR-101, mas também às BRs 470, 282, 280 e a tantas outras. Acompanhei o presidente Elson em viagens por todo o estado e vimos quanto uma estrada boa contribui para o desenvolvimento. Houve avanços, mas ainda há muito a fazer. Nas rodovias federais, precisamos ter voz e cobrar melhorias.
A logística seria determinante para esse salto?
– Muito determinante. Quando falamos em logística, falamos em ferrovias, rodovias e na estruturação dos portos, que já está acontecendo. Mas não basta ampliar um porto: como vamos chegar até ele? Tive uma agenda em São Francisco do Sul e me orientaram a sair com quatro ou cinco horas de antecedência para conseguir chegar. Há dias, como terças e quintas-feiras, em que o movimento de cargas torna o acesso mais difícil.
E o que mais seria necessário para colocar esse “supersônico” no ar?
Precisamos melhorar a logística e avançar nas outras pautas estruturantes que mencionei. Também há um trabalho importante de desenvolvimento das pessoas e de aprimoramento da gestão das empresas. É um conjunto de ações.
Ser a primeira presidente da Facisc
Você é a primeira mulher a assumir a presidência da Facisc. O que isso representa para você, para o meio empresarial e para as mulheres?
– Fico muito feliz. Também temos iniciativas como a campanha Aqui Não, desenvolvida com o poder público e as associações empresariais, que está avançando. Inclusive, o embaixador da campanha é um diretor, um homem. Acho importante ter uma figura masculina levando esse tema adiante, porque, às vezes, falamos apenas com as mulheres sobre uma questão tão dolorosa. Nosso embaixador é o César Smieleviski, que faz um trabalho muito bacana.
Mas o que gostaria de ressaltar é a importância de termos mulheres na liderança, independentemente de ser eu ou outra pessoa. Isso demonstra que podemos ocupar esses espaços e avançar. Conversei recentemente com as integrantes do Conselho da Mulher Empresária, na posse delas, e levamos justamente essa discussão.
Precisamos falar das questões estruturantes, da escala 6 por 1 e da reforma tributária. A capacitação é importante, mas precisamos ampliar essa pauta, elevar a régua e participar das discussões em igualdade de condições como lideranças.
E quais características você considera fundamentais para exercer essa liderança?
– Ética, transparência e bom senso. Essas qualidades independem do gênero. Com essa postura, podemos chegar longe. Procuro sempre agir assim: com ética, transparência, bom senso e disposição para ouvir. Também é preciso ter eficiência. São características importantes para qualquer pessoa que lidera uma empresa e desenvolve uma trajetória empreendedora.
Fico muito feliz por ser a primeira mulher na presidência da Facisc, mas, independentemente de quem ocupe o cargo, esses princípios são fundamentais. Ter mulheres nessas posições também traz bons exemplos. Infelizmente, ainda convivemos com situações muito graves no estado, como o feminicídio e outras formas de violência contra as mulheres. Quando vemos outras mulheres assumindo posições de liderança, com essa visão, isso nos fortalece e eleva a régua.
Que conselho você daria a uma mulher que quer chegar a uma posição de liderança? Como ela pode construir esse caminho?
– Tenho meu empreendimento e sou ligada ao associativismo há cerca de 20, 25 anos. Nesse percurso, compreendi que enfrentamos muitas dificuldades, independentemente de sermos mulheres, embora, às vezes, isso pese mais para nós. Sozinhas, podemos apresentar nossas demandas, mas ficamos mais expostas, e os resultados demoram mais. Quando estamos no coletivo, com pessoas que enfrentam as mesmas dificuldades, avançamos muito mais.
Dentro de uma associação empresarial, de um sindicato patronal ou de outra entidade do setor, encontramos empreendedores com problemas semelhantes aos nossos. Assim, conseguimos trabalhar juntos para enfrentar questões como os impostos elevados. É muito difícil empreender no Brasil.
Como essa participação fez diferença na sua trajetória?
– Sempre digo que empreender é para os fortes. Mas, para lutar por mudanças, como a redução da carga tributária, precisamos atuar coletivamente. Minha trajetória foi construída assim. Mesmo cansada, depois de um dia de trabalho e de cuidar de várias operações ao mesmo tempo, compreendi que fazia diferença sair da minha zona de conforto e sentar à mesa com outras mulheres e outros homens para discutir os problemas dos nossos setores.
Por isso, meu conselho às mulheres é: saiam da zona de conforto, participem das associações e das federações e ouçam outras experiências. Assim, começamos a perceber que o nosso negócio pode melhorar, se desenvolver e ampliar sua rede de contatos. Foi dessa forma que construí minha caminhada. Também fui a primeira mulher a presidir a associação empresarial de Brusque em 86 anos de história. Exerci dois mandatos e enfrentei a pandemia nesse período. Em relação ao fato de ser mulher, minha experiência foi muito tranquila e positiva. Agora, chego à presidência da Facisc.
Você também foi a primeira mulher na mesa diretiva da Fiesc?
– Sim, fui a primeira mulher na mesa diretiva, ao lado do presidente Mário Aguiar. A Fiesc tem outras mulheres importantes na diretoria. Ainda somos um número menor, mas há mulheres com uma atuação relevante. Sempre cito a Maitê Bustamante e outras colegas. Na mesa diretiva, porém, fui a primeira e, naquele momento, a única mulher.
Conte um pouco sobre a sua empresa. Em que setor ela atua?
Tenho uma indústria e 14 lojas próprias no setor têxtil, em Brusque, que fazem parte do Grupo RC Conti. A nossa marca é Mensageiro dos Sonhos. Isso me permite acompanhar tanto a realidade industrial quanto a do varejo.
O setor enfrenta muitas dificuldades. Sentimos bastante os efeitos da concorrência das pequenas encomendas internacionais, tema que ficou conhecido como “taxa das blusinhas”, uma expressão que prefiro não usar. Prefiro ‘pequenas encomendas’. Também percebemos uma retração mais geral do mercado, que associo às incertezas e ao período eleitoral. Toda a cadeia sentiu esse movimento.
O que mais pesa nessa concorrência com os produtos importados?
– Competimos com países asiáticos que têm outra realidade de produção e tributação. Há produtos que chegam com condições tributárias muito diferentes das nossas e, em alguns casos, com frete grátis. Enquanto isso, uma indústria do meu porte tem uma carga de impostos na faixa de 37%. Isso dá a esses produtos uma grande vantagem competitiva. Na minha avaliação, o ideal seria reduzir os nossos impostos, para termos condições mais equilibradas de concorrência e um ambiente melhor para trabalhar.
Além de atuar no setor, sou conselheira da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, a Abit, e acompanho essas discussões nacionalmente. O que percebo, inclusive em outros setores, é um processo de desindustrialização e uma mudança nas relações de trabalho.
Tenho questionado como os indicadores de emprego refletem essa realidade. Em Santa Catarina, ainda temos regiões com pleno emprego, embora também percebamos uma retração. Um economista me disse que o trabalho por aplicativos entra nas estatísticas de ocupação. Quero checar melhor essa informação e entender como ela é contabilizada. Minha dúvida é como esses números retratam as mudanças no mercado de trabalho, especialmente quando alguém deixa um emprego na indústria e passa a trabalhar por aplicativo.
Você se refere, por exemplo, a quem faz entregas ou trabalha com transporte por aplicativo?
– Sim, a quem trabalha com plataformas como iFood, Uber, 99 e outras. Minha preocupação é entender como essas diferentes formas de trabalho aparecem nos indicadores. Ao mesmo tempo, recebemos informações sobre perdas de vagas na indústria. Segundo os dados que tenho, o setor têxtil nacional perdeu 33 mil postos de trabalho neste ano, até agosto.
A questão que esse economista levantou é que uma pessoa pode sair da indústria e, poucos dias depois, começar a fazer trabalhos por aplicativo com o próprio carro, por exemplo, passando a ser contabilizada como ocupada. Por isso, quero compreender melhor a leitura desses indicadores. Também está ocorrendo uma transformação no mundo do trabalho, e veremos outras mudanças com a inteligência artificial. É uma preocupação que temos.
De que forma as empresas podem enfrentar esse cenário?
– Nosso negócio é sempre desafiador, assim como acontece em vários setores. Precisamos nos diferenciar e agregar valor aos produtos. Esse é mais um motivo para participar das federações e das associações: compreender melhor essas mudanças, aprimorar o negócio e encontrar novas oportunidades.
Como reverter a desindustrialização
Você falou sobre a desindustrialização do Brasil. Como podemos reverter esse processo?
– Precisamos de políticas públicas nacionais, com uma visão de futuro e uma definição sobre o caminho que queremos seguir. Isso exige um conjunto de ações do governo federal, em diálogo com as confederações, para fortalecer a indústria. Há indústrias com máquinas defasadas. Não é o nosso caso, mas percebemos essa situação. Ao mesmo tempo, nós, industriais, compramos equipamentos fora do Brasil porque encontramos tecnologias mais avançadas e produtos de maior qualidade. Também vemos grandes redes varejistas, com 200 ou 300 lojas, trazendo muitos produtos de fora. Isso enfraquece a produção nacional. São produtos que antes eram feitos no Brasil agora são fabricados no exterior.
Que tipo de medida poderia estimular a produção nacional?
– Estamos trabalhando bastante nessa discussão. Precisaríamos de uma política pública voltada à industrialização. O Trump, por exemplo, adotou tarifas com esse objetivo. Não vou avaliar se foi da forma correta, porque não sou especialista no assunto. Ele também enfrenta outras questões, como a disponibilidade de mão de obra, agravada pela retirada de trabalhadores do país. Não defendo necessariamente uma taxação, mas algum equilíbrio. Poderíamos pensar, por exemplo, em manter 30% da produção no Brasil e 70% fora. Hoje, vemos muitos produtos vindo do exterior. No médio e no longo prazo, isso é ruim, porque o trabalhador da indústria também sustenta o comércio e movimenta outros setores. Claro que o país vai se organizando por outros caminhos.
Como as mudanças tecnológicas entram nesse cenário?
– Temos setores fortes, como mineração, petróleo, combustíveis, agronegócio e tecnologia. Há muitas coisas boas acontecendo. Ao mesmo tempo, a indústria busca mais automação, o que também transforma o perfil do trabalhador. Precisamos acompanhar essas mudanças. Mas, nas indústrias mais tradicionais, que fazem parte do nosso dia a dia, sentimos o impacto das grandes redes que compram no exterior. Elas trazem muitos produtos de fora.
E como você está acompanhando a implantação da reforma tributária?
– A reforma teve uma discussão ampla, com muitos fóruns, mas ainda não compreendemos totalmente como será sua aplicação. Acredito que seja necessária, embora talvez não nos moldes atuais. Foram acrescentados muitos pontos ao texto, o que chamo de “penduricalhos”. A ideia era unificar, desburocratizar e reduzir a carga tributária, mas ainda não chegamos a esse resultado. Será mais um ano desafiador para os empreendedores. As federações precisam dar todo o apoio aos empresários.
Impactos do fim da escala 6X1
Como acompanha a mudança da jornada de trabalho que vai entrar em vigor em dezembro?
– Teremos de atuar nessa mudança. A proposta tem um aspecto social muito positivo, mas, na nossa avaliação, faltou amadurecer a discussão com o setor produtivo. O processo foi conduzido muito a toque de caixa. Ainda há pontos pouco claros e possíveis impactos no dia a dia do comércio, dos serviços e da indústria.
As empresas poderão precisar contratar mais trabalhadores. Nem sempre temos profissionais qualificados disponíveis no prazo necessário. Falta preparação para essa mudança. Entendemos que deveria haver uma discussão mais aprofundada e um prazo de adaptação mais adequado.
Como deveria ser essa transição?
– Há exemplos de países desenvolvidos que levaram quatro ou cinco anos para fazer uma transição. Esse período permite amadurecer as regras e discutir os impactos com mais profundidade. Agora, por exemplo, estamos falando de uma mudança para 42 horas semanais. No comércio, há uma preocupação com a adaptação prevista para 16 de dezembro, em pleno período de vendas de fim de ano. Muitas trabalhadoras recebem comissões, e a organização das folgas interfere nisso.
Também existe o limite de duas horas extras por dia. Não basta recorrer às horas extras. É preciso organizar as folgas. Se a folga cair no sábado, por exemplo, pode coincidir com o principal dia de vendas daquela trabalhadora. Outras alternativas envolvem domingo e segunda-feira. Nos shoppings, ainda há os horários de abertura e fechamento que precisam ser cumpridos. Como contratar e treinar alguém para cobrir essas horas? Tudo isso precisa ser discutido.
Por exemplo. A indústria também tem suas particularidades. Recebemos muitas ligações de empresas que trabalham com terceiro turno, têm caldeiras que não podem parar ou processos tecnológicos que exigem a presença de trabalhadores.
Que alternativas poderiam ajudar a conciliar mais descanso com as necessidades das empresas?
– Quando visitamos as empresas, vemos avanços: capacitação, treinamento, refeitórios, cartões de alimentação e uma série de benefícios. Podemos aprimorar essas condições e discutir, por exemplo, uma redução da carga tributária que ajude a viabilizar mais tempo de descanso. Poderíamos discutir uma redução desses encargos para ajudar nessa reorganização da jornada. O custo da mudança ficou mais concentrado no empreendedor, que é quem gera os empregos. Isso pode provocar dificuldades de adaptação e aumento de custos, com possíveis reflexos nos preços.





