Quem busca nova oportunidade de trabalho nestes tempos difíceis pode encontrar, mais facilmente, colocação no setor de tecnologia em Santa Catarina. São mais de mil vagas que ficam abertas quase que permanentemente por falta de profissionais qualificados, informa o novo presidente da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate), Iomani Engelmann, que assumiu o cargo segunda-feira (01/06) para mandato de dois anos. O setor também é opção para uma segunda carreira, sugere ele.
Mas, no momento, o principal desafio de diversas empresas de tecnologia do Estado é conseguir crédito para enfrentar o período da pandemia.Em entrevista à coluna, Iomani Engelmann fala também dos segmentos de TI mais aquecidos nesta fase da crise do novo coronavírus e da estratégia da Acate de fortalecimento do setor, incluindo mais projeção nacional e internacional
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Graduado em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o empresário é cofundador e diretor da Pixeon Medical Systems, empresa que fornece softwares ao setor de saúde. Ela integrou a incubadora Miditec, da Acate, e foi investida pela Intel e o fundo Riverwood Capital, ambos dos EUA. Leia a seguir:
Estamos em meio à pandemia. A Acate fez um programa estratégico para apoiar o setor nesse período. Como avalia este trabalho até aqui e o que vocês vão dar mais atenção a partir de agora?
Os pilares que nós criamos foram focados em questões trabalhistas, financeiras e de infraestrutura. No caso trabalhista surgiram muitas dúvidas porque uma coisa é você trabalhar com a equipe na empresa. Outra, com a equipe remota. Não menos importante foi o pilar de bem-estar porque muitas pessoas que estão no nosso mercado de trabalho pela primeira vez passam por uma crise tão aguda.
Eu falo que as pessoas que nasceram depois de 1990, em 1994 – jovens que estão com idade entre 25 e 30 anos – viveram numa realidade de Brasil macroeconomicamente muito mais estável. Tivemos pequenas crises, uma em 2008, mas esta é a primeira crise sistêmica que enfrentam. Então, a questão de bem-estar, boas práticas, foi importante para isso.
Também conseguimos muito êxito na área financeira. Tínhamos um fundo garantidor e diversas empresas puderam usá-lo para alavancar dinheiro em instituições financeiras.
Foi muito importante essa ação para o nosso ecossistema. Quase 100 empresas puderam se beneficiar disso. Eu acho que isso provou a importância de estarmos todos juntos. Coletivamente também foi importante porque não adianta um estar bem e outro não. É importante que todo o ecossistema esteja bem para que a sociedade vá bem e tenhamos um bem-estar pleno e não isolado.
Quais são os desafios atuais que mais preocupam empresários do setor?
De curto prazo, temos o problema do acesso a crédito. Muitas empresas estão tendo dificuldades para obter crédito. A área de tecnologia é um pouco diferente da área de bens de transformação, não tem tantos ativos para dar em garantia. Apesar de já termos um grande avanço de instituições financeiras, mas a forma de analisar score de crédito num setor onde os principais ativos são as pessoas não é muito facilitado.
Existe também a questão da regulação do trabalho remoto como um todo. Isso pode ser uma boa prática de gestão de pessoas, mas também é um tema a ser discutido. Como fica a questão do horário diante da legislação que, muitas vezes, obriga ter um registro. Mas com certeza, isso vai passar. No médio prazo, a preocupação principal do setor é a formação de mão de obra.
Como está a questão da falta de mão de obra ao setor?
No período pré-crise sanitária o setor estava enfrentando falta de mão de obra qualificada. Agora, essa questão está suavizada. Mas a gente entende que esse gargalo não é só um fenômeno catarinense, nem do Brasil. É um fenômeno global. A demanda por mão de obra pelo setor de tecnologia é maior do que a gente está conseguindo formar. Então, pretendemos fazer ações estruturadas junto com órgãos competentes, órgãos governamentais. É importante que tenhamos ações para isso, para superar esse que é o principal gargalo do setor.
Em média, quantas são as vagas de trabalho disponíveis no setor em Santa Catarina e qual é a atividade que enfrenta mais falta de pessoal qualificado?
Santa Catarina tem quase que permanentemente mais de mil vagas abertas no setor. O nosso principal gargalo é a falta de programadores. Mas toda a cadeia, hoje, necessita de diversos outros profissionais como design de produtos, para a área de marketing, vendas e área financeira.
A gestão financeira das empresas de tecnologia também é um pouco diferente do que é ensinado pelas escolas de administração, economia e contabilidade. Toda a cadeia de tecnologia necessita de trabalhadores com alto nível de qualificação, mas, com certeza, a área técnica enfrenta o principal gargalo.
Que tipo de curso deve fazer uma pessoa que deseja atuar na área de programação?
Esse é um bom ponto. Não existe uma regulação da carreira de programador. Então, o critério é ter uma boa lógica. As ciências exatas oferecem isso. O cuidado com a matemática é muito importante. Existem cursos técnicos de programação, tem muitos conteúdos também disponíveis. Não existe a necessidade específica de um curso superior, mas é preciso conhecer lógica, programação e ter uma experiência mínima de conteúdo, seja presencial ou não. Isso é muito importante para que o jovem consiga ingressar nessa carreira.
Pode ser uma opção para quem precisa mudar de carreira?
Esse conselho não vale só para jovem. Pode ser também para a pessoa que quer mudar de carreira. É possível, com resiliência e dedicação de tempo. Lógica e matemática são os requisitos básicos.
Quais são os setores de tecnologia que estão registando maior demanda atualmente?
Neste momento, o e-commerce está tendo uma atividade acima do normal.
Muitos varejistas, pequenos comércios estão tendo que fazer essa subida do seu negócio para a área digital, adotando plataformas que permitem a venda pela internet ou por aplicativos.
Esse setor está com aquecimento grande. Outro que está em alta é o mercado de delivery, para o consumidor receber mercadorias em casa. A gente vê, no médio prazo também, claramente, essa forma de gerenciar remotamente sistemas de comunicação, interatividade com os times. Isso está com aquecimento bem grande.
De repente, uma matriz de pessoas, de diferentes setores, começou a utilizar essas plataformas. Inclusive a área médica do país, que teve a aprovação agora do marco regulatório para a telemedicina, entre as quais a minha empresa, começou a usar tecnologias como essas para poder atender pacientes e, assim não deixar a população desassistida nessa fase de isolamento da crise sanitária.
O senhor acredita que a educação também pode avançar no uso dessas tecnologias de comunicação?
Acredito que sim. É claro que a interação social é muito importante, principalmente para a criança em formação. É um dos pilares da educação. Mas ter conteúdos estruturados para além da sala de aula, a interatividade também é importante. Muitas vezes, até por questão da timidez da criança pode complementar muita coisa. E, obviamente, é fundamental para o aprendizado de adultos. A gente mesmo tem usado muito isso como plataforma de aprendizagem.
A nova diretoria da Acate assume com a proposta de consolidar e unir mais o ecossistema de tecnologia catarinense. Como será esse trabalho?
O modelo que estamos implementando nessa conexão com todo o ecossistema catarinense é primeiro respeitar a matriz econômica de cada cidade. Nosso Estado tem uma matriz econômica diversa. O Norte é mais industrial, o Oeste é mais agrícola e a transformação tecnológica vivida por esses setores é imensa.
O primeiro ponto é aproveitar a vocação econômica de cada regional para desenvolver tecnologias que possam estar perto do potencial cliente, ajudando na competitividade e no crescimento desses setores.
O segundo ponto é não ter uma aglomeração de pessoas numa única cidade, que pode gerar problemas de ocupação urbana, mobilidade e até uma disputa de mão de obra desnecessária. Então, temos esses dois pilares importantes. Santa Catarina é privilegiada porque tem uma matriz econômica diversificada em todas as regiões, com indústria metalmecânica no Norte, têxtil no Vale do Itajaí, tecnologia em Florianópolis, agronegócio do Oeste e outras.
Uma atuação forte da Acate tem sido na projeção nacional e internacional do polo de tecnologia do Estado. Como vocês vão trabalhar isso?
A gente vem se aproximando de algumas regiões do mundo, mostrando o que temos na nossa cidade, no nosso Estado como um todo, principalmente para potencializar a bandeira da tecnologia catarinense com os polos globais. Fizemos conexões com os Estados Unidos, Israel e Portugal. No caso de Portugal, participamos do Web Summit, o maior evento de tecnologia do mundo, sediado em Lisboa. A gente tem se conectado a isso.
O primeiro ponto que estamos trabalhando é conscientizar o empreendedor que o mercado é globalizado. Um exemplo forte é o de Israel. É um país pequeno onde toda empresa nasce global, buscando demanda a ser atendida no exterior. Como o Brasil é um país continental, o nosso empreendedor ainda pensa muito localmente.
Então, tem toda uma barreira interna de mudança de mindset para a construção de um modelo em que pensemos mais globalmente. Ao mesmo tempo, a gente precisa mostrar que o Brasil e Santa Catarina também têm tecnologia. Muitas vezes, somos vistos lá fora como um país de commodity. Não é fácil mudar essa bandeira, mostrar que temos um ecossistema organizado, com boas empresas.
Um segmento muito importante do setor é o de startups. A Acate tem apoiado essas empresas nascentes. Isso continua?
Todo o trabalho da associação é voltado à continuidade do apoio a este segmento. Temos o programa Acate Startup com esse objetivo. A ideia é que os movimentos de startups não andassem em paralelo com a associação, mas que fizessem parte dela. Temos diversos programas para a jornada do empreendedor, desde o programa de pré-incubação, para ideias sem que a empresa esteja constituída, que é o StartLab, no qual a gente pode acolher o empreendedor para começar a sua jornada.
Temos a incubadora, os Meetups, os encontros para estruturar mais conhecimento. O ecossistema catarinense tem empreendedores que já fizeram toda a sua jornada, abriram seu negócio, cresceram, venderam a empresa e já estão investindo no ecossistema de novo. É uma espiral que acontece muito no Vale do Silício e passarmos a registrar aqui.
Também pretendemos mostrar para as universidades que a cultura empreendedora pode nascer na academia.
Muitas vezes a academia é mais voltada à formação técnica daquele profissional, mas tem uma baixa cultura empreendedora. Isso não é uma verdade para todas as universidades. Algumas já se posicionam de forma diferente. Mas temos certeza de que essa cultura empreendedora na academia é muito importante.
Quais são os planos para o LinkLab?
O LinkLab viabilizou uma visão da entidade que é conectar de fato uma empresa que não é de tecnologia, uma indústria qualquer que tem seus desafios de competitividade e crescimento e, muitas vezes, não tem uma cultura de inovação, que precisa criar essa cultura de inovação ou acelerar. Independentemente do estágio de maturidade, essa empresa pode vir ao LinkLab e colocar seu desafio para startups. Uma grande vantagem é que ela, ao trazer seu desafio, terá um grande número de startups tentando resolvê-lo. Daí pode nascer um novo negócio, um novo produto ou uma nova forma de ver o negócio da empresa.
A demanda por esse projeto é tão grande que temos pedidos para criar LinkLabs fora do Estado, pela metodologia e inovação aberta. São Paulo e Rio Grande do Sul são Estados que nos procuraram para implantar esse projeto, que ajuda muito as grandes empresas se manterem competitivas ou se tornarem mais competitivas do que já estão.
Esses LinkLabs seriam nos modelos de centros de inovação da Acate em SC?
Os centros de inovação, na verdade, são ecossistemas para empresas de tecnologia. Elas têm espaço tanto para pessoas fazerem programas de capacitação, como oferecem todos os serviços básicos que uma empresa de tecnologia precisa, desde mentoria, serviços de marketing, comunicação para criar sinergia entre empresas. Você tem aí perto os fornecedores para você não ter que ficar buscando serviços em diversos lugares. Os CIAs são como um shopping para o setor de inovação.
Quantos centros de inovação a Acate tem e existem planos para abrir unidades fora de SC?
Hoje temos quatro centros de inovação. A matriz, que é a Acate Primavera, na SC-401, em Florianópolis.Temos o Cia Downtown no Centro da cidade, o Cia São José e, agora, temos um projeto em Joinville também. Tivemos demanda fora do Estado. Em tese, não há nada contra unidades fora de SC. A gente está só se perguntando se isso faz sentido para a associação. Se for com a ideia de impulsionar empresas catarinenses em outros ecossistemas eu acho que sim.
Como o senhor avalia o atual cenário econômico?
Eu acredito que o momento que estamos passando, como mencionei sobre a importância de estarmos unidos pela Acate, segue muito difícil. Olhando o cenário como um todo, percebemos que não adianta a gente ficar acusando um lado ou outro. A gente tem que ficar junto para cruzar essa fase. Essa é a melhor maneira.
A minha expectativa particular é que tenhamos um alinhamento principalmente para a realização das reformas que estavam em curso no governo federal, como a administrativa-financeira e, eventualmente a tributária também, que poderiam deixar o Brasil mais competitivo como um todo.
Eu vejo que o Brasil tem vários atributos muito positivos pelo crescimento que estava apresentando nos dois primeiros meses deste ano para voltar a crescer em patamares maiores, com o potencial que possui.
Que mudanças impostas pelo tempo isolamento ao mercado vão continuar após a pandemia?
A questão da eficiência e de novos modelos de trabalho ficaram bem claros durante a crise sanitária e algumas coisas eu acredito que vieram para ficar. Imagina quanto tempo era desperdiçado em mobilidade, que não é um problema isolado da nossa cidade, mas de cidades do Brasil e do mundo.
Muitas pessoas ganharam duas, três ou quatro horas do seu dia que permitem trabalhar mais, estudar mais, ficar com a família, ganhar mais qualidade de vida. Para mim é um bom legado. É claro que a gente lamenta muito toda a perda de vidas que está tendo, mas o fato de ficarmos unidos, repensando valores, o quanto é importante estarmos com a família, tudo isso vai trazer um reflexo positivo para a economia porque não adianta a gente pensar que um lado estava bom.
Desde que a economia parou, todos estão sofrendo. É difícil alguém que não tenha tido problemas nessa crise. Então essa possibilidade de observar de forma sistêmica tudo, na minha opinião, vai ajudar na retomada da economia brasileira.
Qual é a sua visão para o setor de tecnologia de SC depois dessa crise?
Hoje, o setor de tecnologia responde por quase 6% do Produto Interno Bruto (PIB) de Santa Catarina. Vamos ver como vai ficar depois da crise.
Mas o impacto social que uma empresa de tecnologia traz é um pouco diferente de uma indústria porque 70% do custo operacional de uma empresa de tecnologia é mão de obra.
Pouca coisa é insumo. Então, apesar de a gente desejar que essa participação no PIB cresça muito, que chegue a 15% ou 20% do PIB catarinense, o impacto social, considerando a média de salário do setor, é uma medida importante de indicador social.
Quando os países medem desigualdade social comparam o salário de um programador, que é a base da pirâmide do setor de software, com o da pessoa que está na presidência da empresa. A diferença desses salários é um dos indicadores de desenvolvimento social. As empresas de tecnologia têm essa característica. Muitas vezes, o setor não é tão ouvido na definição de políticas públicas. Mas a gente consegue direcionar um jovem para uma carreira que já tem um emprego garantido, por isso o impacto social do setor de tecnologia é grande.
