As vendas externas de Santa Catarina cresceram este ano, mas com expansão menor em função dos tarifaços dos Estados Unidos. Apesar disso, os votos do primeiro turno nas cidades mais afetadas não mostram favorecimento a uma ou outra candidatura à presidência do Brasil, apesar de que no primeiro tarifaço o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que um dos motivos da taxa punitiva ao país foi a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
No mês de setembro, as exportações de Santa Catarina cresceram 2,6% frente às do mesmo mês de 2025 e chegaram a US$ 1,08 bilhão. No acumulado do ano, totalizaram US$ 9,5 bilhões, 5,5% mais frente aos mesmos meses de 2025. Assim, os dados de setembro mostram perda de ritmo, observou a Federação das Indústrias de SC (Fiesc) que faz esse acompanhamento mensal.
No mês de setembro, SC teve recuo nas receitas de exportações de carnes acima de 12%, enquanto as vendas de produtos de maior valor agregado subiram. O faturamento com motores e geradores elétricos teve alta 15,3% no mês, e o de parte de motores cresceu 54,9%.
Apesar disso, esses produtos industrializados de maior valor e outros, como móveis e madeiras, seguem com muitas dificuldades para vender aos EUA ou têm resultados abaixo do potencial em função dos tarifaços. Esse desafio é reconhecido pelo presidente da Fiesc, Gilberto Seleme.
“Os números confirmam um maior impacto sobre a cadeia de madeira, enquanto os equipamentos elétricos ainda conseguem sustentar parte da presença catarinense no mercado norte-americano”, analisou Gilberto Selem, presidente da entidade.
Segundo apuração da Fiesc, as exportações de madeiras aos EUA subiram 40,7% em setembro frente ao mesmo mês do ano anterior e chegaram a US$ 28,7 milhões. Contudo, esse valor representa menos da metade do total faturado no mesmo mês de setembro de 2024, o montante de US$ 61,2 milhões, mês cheio no ano sem o tarifaço de 50%. A tarifa atual de 37,5% é menor do que os 50%, mesmo assim está difícil competir nos EUA.
No grupo metalmecânico, também forte nas vendas aos EUA, os resultados são diferentes, mas ambos com obstáculos. Em setembro, as vendas de partes de motores caíram 45,5% aos EUA e ficaram em US$ 12 milhões. Mas as exportações de motores e geradores elétricos cresceram 28,4% em setembro e chegaram a US$ 20 milhões.
Em setembro, as vendas de SC aos EUA chegaram a US$ 105 milhões, mas ficaram 39,9% abaixo do valor de setembro de 2024, quando não havia o tarifaço.
Exportações versus eleição
Santa Catarina tem algumas das cidades brasileiras mais afetadas pelos tarifaços dos Estados Unidos. Mas tanto nessas cidades quanto no estado como um todo, os números mostram uma tendência sem impactos do tarifaço na eleição de 4 de outubro.
Levantamento de julho deste ano feito pelo site do jornal Estadão com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) apurou que Santa Catarina tem duas entre as 10 cidades do Brasil mais afetadas pelos tarifaços dos EUA. Joinville ficou na terceira posição do ranking e, Caçador, na décima. A primeira foi Piracicaba (SP) e a segunda, São Paulo (Capital).
Terceira cidade mais impactada
A maior cidade catarinense, Joinville, é a mais impactada no estado. Isso porque uma das empresas mais afetadas do país é a indústria Tupy, de partes de motores, que tem cerca de 14% da receita de SC dependente do mercado americano. Além disso, a cidade tem mais duas grandes indústrias com importantes participações naquele mercado, a Nidec, de compressores para refrigeração, e a Schulz, de autopeças e compressores de ar.
A Tupy, por exemplo, fechou 2025 com prejuízo de R$ 655 milhões, mas não só devido ao tarifaço. Pesaram a queda vendas aos EUA, menos vendas à Europa e também recuo de vendas de 24% no mercado brasileiro devido a alta de juros. Ela não informou demissões em massa devido aos tarifaços. Comunicou que segue exportando conforme a demanda do mercado americano, que está pagando também a tarifa maior.
Mas os números da eleição do primeiro turno em Joinville mostram que os eleitores não votaram consideraram o tarifaço. Flávio Bolsonaro, candidato com linha ideológica semelhante à de Trump, que decretou o tarifaço, liderou. Ele fez 69,80% dos votos válidos no município (246.309), e Lula fez 20,66% dos votos válidos (72.919).
Décima cidade mais impactada
Caçador, no Meio-Oeste de SC, com forte indústria de madeira, móveis e papel e elevadas exportações para os EUA, foi a décima cidade mais impactada no Brasil segundo o ranking do Estadão. O prefeito Alencar Mendes (PL) informou ao Valor que cerca de 45% do PIB do município vem do setor madeireiro e as exportações desse setor caíram pela metade com o tarifaço.
O prefeito disse também que o setor empregava 6 mil pessoas no município, das 12 mil vagas na indústria. Mas 3 mil perdeu emprego devido à queda de exportações de madeiras e derivados. Isso não gerou crise na cidade porque as pessoas conseguiram empregos em outras empresas por salários menores.
Mesmo assim, a votação nas urnas foi com maioria para o candidato mais amigável a Trump. Flávio Bolsonaro fez 60,31% do total dos votos válidos (23.758) e Lula fez 31,38% (12.361).
Sintonia com impactos econômicos?
Pela lógica, Flávio Bolsonaro, que apoiou a decisão do tarifaço de Donald Trump em favor do seu pai, medida que derrubou exportações de SC, poderia ter tido perda significativa de votos no estado. Apesar disso, acabou liderando.
E o presidente Lula, que tentou acordo e até conversou com Trump para derrubar as medidas depois, também acabou não sendo favorecido. O resultado da eleição no estado seguiu uma tendência de SC, que nos últimos anos tem votado na direita ou no centro para Presidente da República.
O último ano que a esquerda venceu em SC foi em 2002. O então candidato Lula fez 64,14% dos votos no segundo turno no estado, superando José Serra, que fez 35,86%. O resultado do pleito em SC, naquele ano foi com voto ligado ao desempenho econômico. A economia do país, liderada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, apresentou várias crises e os catarinenses quiseram mudança.
De olho em acordo com os EUA
Mas na eleição de 04 de outubro teve voto também de quem vê na eventual vitória de Flávio a oportunidade de um acordo mais rápido para derrubar as tarifas dos Estados Unidos, que hoje estão em 37,5% para a maioria dos setores. Atualmente, quase 95% das exportações de SC aos EUA estão impactadas por tarifas.
Um industrial do setor de madeiras que exporta aos EUA informou para a coluna que o voto em Flávio neste pleito também teve essa intenção. A de acreditar em possível acordo de tarifas mais rápido. É claro que o governo federal já está em negociações para reduzir o tarifaço e foi dada uma trégua em função da eleição.
Significa que se Lula for eleito, também vai buscar um acordo pelo fim dessas tarifas injustas ao Brasil. Mas pode demorar mais do que o primeiro tarifaço porque as taxas atuais foram baseadas na lei de comércio dos EUA, uma decisão mais consistente do que a anterior, que foi apenas de Donald Trum e, por isso, foi derrubada pela Suprema Corte do país.
