Vinícola do “Vinho da Madonna” chega aos 25 anos com 16 rótulos e forte no enoturismo

Uma das vinícolas de altitude da Serra de SC, a Villa Francioni elabora vinhos a 1.260 metros acima do nível do mar. Se destaca pela qualidade dos produtos e incentivo à arte

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A presidente do conselho de administração da Villa Francioni, Daniela Freitas (D) com os irmãos Adriana e André, diante da sede da empresa, em São Joaquim, na Serra de SC (Foto: Villa Francioni, Divulgação)

A vinícola Villa Francioni, de São Joaquim, Santa Catarina, que ganhou destaque internacional por elaborar o vinho rosé degustado e elogiado pela cantora Madonna, acaba de completar 25 anos. Apesar de “super jovem” num setor em que na Europa tem empresas com mais de mil anos em atividade, a Villa Francioni se destaca por elaborar produtos de alta qualidade, da área de Indicação Geográfica (IG) de vinhos de altitude e conta com premiações no Brasil e exterior. Um dos vinhos premiados pelo renomado concurso da Decanter, de Londres, é o Villa Francioni Rosé, destacado pela Madonna.

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A empresa fundada pelo industrial Dilor Freitas, que atuava também no setor de revestimentos cerâmicos, foi inaugurada em 21 de setembro de 2001. Nessas duas décadas e meia, a Villa Francioni se destacou também pelo enoturismo e pela cultura. A vinícola conta com uma sede encantadora, repleta de obras de arte e uma galeria de arte com exposições, que conta agora com mostra especial da arte de Siron Franco. O enoturismo é um destaque das atividades da empresa, que recebe uma média de 20 visitantes por ano.

Quem está à frente da Villa Francioni atualmente é Daniela Freitas, presidente do conselho da empresa, com quem divide as decisões com os irmãos Adriana e André, que também são acionistas. Nesta entrevista exclusiva para a coluna, a presidente do conselho fala do momento atual da vinícola, produtos, mercados, visão de futuro, turismo e integração com a arte. Confira:  

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Como a Villa Francioni chega aos 25 anos?
– Em primeiro lugar, estamos muito felizes e orgulhosos de todo o trabalho dessas duas décadas e meia. São as bodas de prata! Estamos chegando às bodas de prata, a um quarto de século, e nos sentimos muito bem, vitoriosos, com alegria no coração por termos conseguido alcançar os resultados que a vinícola almejava desde o início: fazer vinhos de alta gama, de alta qualidade, especiais, em um terroir ainda pouco explorado e desconhecido na época.

Imagine: em 2001, praticamente não havia telefone. A comunicação era via rádio rural. Abrimos as portas da empresa, da vinícola, para a visitação turística no final de 2005, com grandes dificuldades em todas as áreas em que nos propusemos a trabalhar: não só na produção de vinhos, mas também na distribuição e na recepção de turistas e enófilos. Recebíamos turistas voltados para o enoturismo.

Percebemos que foi uma trajetória, pelo menos nos primeiros dez anos com muitas dificuldades, por se tratar de ainda de uma região vinícola desconhecida. A produção já estava plena, porque todo o parreiral foi implantado desde o início, em 2001 e 2002. Então, já tínhamos safra plena, mas os vinhos ainda estavam começando a entrar no mercado, e a vinícola começava a se divulgar para o mercado brasileiro em geral.

Depois das dificuldades desses primeiros anos, o que vocês conquistaram com os vinhos e o enoturismo?
– Chegamos hoje aqui com um sentimento de vitória, de termos alcançado aquilo a que nos propusemos. Estamos muito felizes, porque temos hoje 16 rótulos. Ao longo desses anos, desenvolvemos as linhas Joaquim, Villa Francioni e VF. Entre os 16 rótulos, temos espumantes, rosés, brancos, tintos, a maioria blends de várias uvas, e licorosos. São vinhos que foram premiados ao longo desse período, e a própria vinícola tem sido reconhecida como uma âncora do desenvolvimento da região.

Esse era realmente o objetivo quando meu pai, o fundador da vinícola, Dilor Freitas, implantou o projeto: incentivar outros empresários e investidores a virem para cá e desenvolverem a região por meio do enoturismo, um setor em que ainda não havia nada naquela época. Isso foi uma ação planejada por ele.

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Meu pai pesquisou várias regiões pelo mundo e descobriu que o enoturismo poderia trazer uma nova realidade, uma nova perspectiva e qualidade de vida para as pessoas de determinada região. Foi por esse caminho que ele resolveu criar uma vinícola com potencial para receber turistas o ano inteiro.

A vinícola Villa Francioni é a principal âncora do enoturismo na região. Você pode explicar como evoluiu essa visitação e como está atualmente?

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–  A Villa Francioni tem esse papel muito importante, porque não se trata apenas de uma questão econômica para a empresa, mas para todos que vivem na região. O enoturismo impulsiona outras áreas e setores do turismo, como a gastronomia, a hotelaria e outros equipamentos turísticos. Nossa vinícola fica aberta o ano inteiro e só fecha no Natal, dia 25 de dezembro, e no dia 1º de janeiro.

Abrimos todos os outros dias, com vários tipos de visitação guiada. Temos um guia que percorre os seis andares da vinícola, passando pelas etapas de produção, explicando todo o processo e, ao mesmo tempo, conduzindo a degustação dos vinhos. Oferecemos várias modalidades de tour dentro da vinícola, piqueniques e outros eventos.

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Temos uma visitação muito importante para a região: recebemos 20 mil turistas por ano, já há vários anos. Esse movimento tem aumentado com a divulgação e a instalação de outros equipamentos turísticos nas proximidades, que também têm atraído mais visitantes. A estrutura turística tem melhorado muito em toda a região, e temos sentido isso.

A vinícola fica aberta com chuva ou sem chuva, independentemente do clima. Estamos muito felizes com tantas pessoas que vêm aqui. Algumas já estão na quarta ou quinta visita, trazem amigos e familiares. Recebemos pessoas do Brasil inteiro. Atualmente,  as vendas dentro da vinícola representam 35% das nossas vendas gerais.

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Além das vendas na própria vinícola, onde mais os consumidores encontram os vinhos da Villa Francioni?
– Os produtos da Villa Francioni estão presentes em praticamente todos os estados do Brasil, mas a maior concentração das vendas ainda é em Santa Catarina.

Qual é o vinho mais vendido? Continua sendo o rosé que foi degustado pela cantora Madonna?
– Podemos dizer que o nosso carro-chefe é o VF Rosé, que também ficou famoso por ter sido degustado pela Madonna. Ele tem uma garrafa especial, de vidro semi-cristal, importada da França e exclusiva da Villa Francioni. É um vinho maravilhoso, feito com oito uvas tintas, no estilo sangria, e mantém sempre o padrão. É muito apreciado tanto para beber quanto para presentear. Também é muito versátil na harmonização e combina com vários tipos de gastronomia.

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Outro vinho muito vendido é o Joaquim Tinto, que tem um corte tradicional da região de Bordeaux, na França. Também é muito versátil e combina com diferentes tipos de comida.

A Villa Francioni também elabora vinhos licorosos, geralmente associados às sobremesas. Você pode explicar como são feitos?
– Os nossos licorosos têm uma qualidade excepcional. Não os produzimos todos os anos, porque dependemos das condições da safra. Temos o licoroso tinto, com a uva Cabernet Sauvignon, feito no estilo passito, utilizado na Itália. Nesse processo, colocamos as uvas para secar. Elas ficam passificadas, como uvas-passas, concentrando os açúcares. É um vinho excepcional, com 16,5% de álcool. Não acrescentamos álcool vinícola nem açúcar: tanto o teor alcoólico quanto a doçura vêm da própria uva.

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E como é feito o licoroso branco?
– O branco é maravilhoso e segue o estilo dos famosos Sauternes, da França. Utilizamos a uva Sauvignon Blanc, que deixamos sobrematurar e colhemos no final do ciclo de maturação. Ela sofre a ação do fungo Botrytis, que provoca a desidratação e concentra os açúcares.

É um vinho excepcional, produzido em pequenas quantidades. Fazemos cerca de mil garrafas por ano, quando a safra é propícia. Os licorosos vendemos basicamente na vinícola porque têm maior valor agregado e são produzidos em quantidades menores.

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Como vocês estão comemorando os 25 anos da Villa Francioni?
– Lançamos uma exposição muito especial, com peças de um artista plástico brasileiro bastante conhecido e renomado, o Siron Franco. Ele é de Goiás. Na época em que meu pai era vivo, havia uma fábrica da Cecrisa em Anápolis, perto de Goiânia, onde o artista morava. Meu pai o convidou para fazer pinturas nos azulejos da fábrica. Segundo o próprio Siron nos contou, a ideia inicial era distribuir essas peças em um congresso, mas meu pai gostou tanto do resultado que decidiu ficar com elas.

Ele encomendou a pintura de 900 azulejos. Desse total, 800 peças ficaram com meu pai e foram expostas no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro, em 2000, e no Teatro Nacional de Brasília, em 2001. É uma coleção particular, que não será colocada à venda.

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Por que vocês escolheram essa coleção para marcar o aniversário da vinícola?
– Porque ela representa uma ligação muito forte. Tivemos contato com o artista nos últimos meses, e ele sugeriu que faria muito sentido comemorar os 25 anos com essa exposição exclusiva, que poucas pessoas viram até hoje. A coleção também é fruto de uma amizade que se construiu entre meu pai e Siron Franco. Eles passaram meses testando cores.

Siron contou que meu pai levava os pigmentos da fábrica para que ele pudesse fazer os testes. Era preciso queimar as peças nos fornos para descobrir como as cores ficariam, porque elas mudavam nesse processo. Foram alguns meses até ele chegar às cores que desejava. Foi muito interessante, e os dois criaram uma amizade. Por isso, achamos oportuno fazer essa exposição. Nossa ideia é mantê-la até outubro do ano que vem. A visitação é gratuita.

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Vocês também lançaram um vinho comemorativo?
– Sim. Junto com a exposição, lançamos um rótulo especial em comemoração aos 25 anos da Villa Francioni. Também por sugestão do artista, escolhemos o desenho de uma das peças para ilustrá-lo. Portanto, o rótulo comemorativo traz uma obra de Siron Franco.

Você é a presidente do conselho da vinícola e seus irmãos Adriana e André também participam. Quais são os planos para o futuro da empresa?
– Vamos continuar lançando rótulos exclusivos, como temos feito nos últimos anos. Entre eles, o Dilor, em homenagem ao nosso pai, e o Agripina, lançado há três anos, elaborado com uma uva muito especial e de cultivo difícil, a Nebbiolo, ao estilo dos famosos Barolos do Piemonte, na Itália. Lançamos agora esse rótulo especial e também a segunda edição da linha do Juarez Machado. Temos vários outros rótulos com pinturas de artistas plásticos. A arte é um dos pilares que estão no DNA da Villa Francioni.

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E como essa ligação com a arte aparece no dia a dia da vinícola?
– Sempre falamos que a Villa Francioni foi projetada com base em três pilares: o homem, a tecnologia e a arte. A arte se expressa por meio da nossa galeria, com acesso gratuito ao público, e promovemos muitas atividades com a comunidade. Agora, no mês das crianças, por exemplo, a professora de arte de uma escola municipal aqui de São Joaquim nos informou que propôs aos alunos um estudo sobre a vida e o trabalho do artista Siron Franco, a relação dele com a Villa Francioni e a história da vinícola.

As crianças vão fazer um trabalho sobre isso e apresentá-lo aqui. Elas virão à vinícola e vão interagir com a arte dele. Será bem bacana. Essa atividade está sendo realizada agora no mês das crianças, aproximando a empresa da sociedade. É uma experiência muito rica e importante para a formação das crianças, inclusive pelo lado social.

E, olhando para as tendências do mercado, vocês pensam em produzir vinhos ou espumantes sem álcool, ou pretendem continuar com os produtos tradicionais?
– Por enquanto, esses produtos não estão no nosso radar. Pretendemos seguir com a nossa linha, porque ainda não entendemos bem como esse segmento funciona e como vai se desenvolver no mercado. Também há a questão da produção. Sabemos que existem várias formas de fazer vinho sem álcool.

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Uma das formas é fazer o vinho e depois retirar o álcool, em um processo de desalcoolização que tem um custo bastante elevado. Conhecemos outros métodos, mas ainda não chegamos à conclusão de que vale a pena produzir esse tipo de vinho.

Existe um público fiel aos vinhos de qualidade de Santa Catarina. Como está a concorrência em geral no mercado de vinhos?

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– Do nosso ponto de vista, o mercado de vinhos está bastante concorrido. Isso acontece tanto no cenário nacional, em que vemos cada vez mais vinícolas, quanto no internacional. Na verdade, a concorrência dos importados é o nosso maior dilema. Em função de problemas enfrentados pelas vinícolas e pelo mercado no exterior, cada vez mais vinhos importados estão chegando ao Brasil.

Como vocês procuram se diferenciar nesse mercado?
– Acreditamos que o que vai nos sustentar é a fidelidade à nossa identidade e à linha que nos propusemos a desenvolver, mantendo a qualidade, o padrão e o perfil dos nossos produtos. Acho que cada vinícola precisa ter a sua própria identidade, o seu porquê de existir. A concorrência existe, mas quando você tem uma identidade bem marcada, não haverá outra igual à sua. É isso que diferencia uma vinícola de outra.

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O acordo entre Mercosul e União Europeia, que pode facilitar o ingresso de vinhos europeus no mercado brasileiro, preocupa vocês?
– A tendência é que os vinhos importados cheguem com mais vantagem competitiva em termos de preço. Mas, novamente, o que vai diferenciar cada vinícola é a qualidade, a identidade, a história, o seu porquê de existir e a linha de produtos que se propõe a fazer.

Vejo que a identidade de cada vinícola acaba se sobressaindo. Pode haver um modismo, a chegada de um vinho que desperte a curiosidade de um cliente ou de um enófilo. Mas, no fim das contas, o que conta mesmo é o padrão de qualidade e a confiança que o cliente tem em determinado produtor.

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Falando de novo em turismo, temos o projeto da rodovia Caminhos da Neve, ligando a Serra Catarinense à Serra Gaúcha, ainda não finalizado. Na sua opinião, essa rodovia vai ampliar a visitação nos dois estados?

– Sem dúvida. O volume de turistas que visita a Serra Gaúcha, incluindo Gramado e Canela, ainda é muito maior do que o que vem para a Serra Catarinense. Isso acontece não só porque a Serra Gaúcha já é mais conhecida, mas também por toda a estrutura turística que foi implantada lá. Essa rodovia certamente traria uma parte daquele fluxo para cá. O turista é curioso: quer sair de um lugar, ir para outro e conhecer algo novo. Com certeza, faria uma grande diferença para todos nós da Serra Catarinense.