Os mistérios do nômade que espalhou relógios de sol por Santa Catarina

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Félix Peyrallo Carbajal em 2004 na Furb, em Blumenau, onde construíu um quadrante solar (Foto: Rogério Pires, Arquivo Furb)

A história de um intelectual nômade que vagou por Santa Catarina construindo relógios de sol e alimentando a curiosidade geral por arte e conhecimento virou livro. Há 10 anos o historiador catarinense Ricardo Machado investiga os vestígios deixados por Félix Peyrallo Carbajal, uruguaio que se aproximou de alguns dos artistas latinos mais relevantes do século XX e cercou de mistérios a própria existência.

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Carbajal morreu em 2005, em Blumenau, após perambular pelo mundo proferindo conferências sobre arte e poesia, mas também sobre matemática, astronomia e o que mais lhe pedissem para falar. Machado investigou a trajetória do misterioso personagem para o doutorado em História, concluído em 2016. Mas não parou de pesquisar desde então e, no dia 29 de abril, lançará “Félix: uma vida nômade poética pelas Américas”, pela Editora Humana, de Chapecó.

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O historiador, professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), mas que cresceu em Blumenau e chegou a cruzar com Carbajal na biblioteca da Furb, seguiu os passos do nômade por países da América do Sul, além de México e Cuba, juntando documentos e relatos esparsos, como cartas, certidões oficiais, publicações em jornais e até dossiês da ditadura militar brasileira sobre o sujeito estranho, suspeito de divulgar ideias subversivas. Descobriu crônicas de Manuel Bandeira e Eduardo Galeano sobre Carbajal, uma relação íntima com a poeta cubana Carilda Oliver Labra e uma amizade com o escritor espanhol Pedro Garfias. Em relatos, o uruguaio mencionou encontros com Frida Kahlo, Diego Rivera e Pablo Neruda, entre outros.

— Parecia uma história surpreendente demais para ser verdadeira. Era como se a grandiosidade da vida dele estivesse associada a essas pessoas que se tornaram cânones nas artes em geral — recorda.

Machado precisou desvendar incertezas até sobre dados biográficos elementares, como data de nascimento e o nome da mãe do intelectual. Não raro Carbajal misturava a própria história com a de escritores que lia.

Embora originado na academia, o trabalho é acessível e interessante ao público em geral. Aborda as contradições de um intelectual que não deixou obra aparente, tangível, que abriu mão de uma vida confortável em nome da liberdade de viajar e estudar, que convivia com artistas e professores, mas também mendigava para sobreviver. 

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As marcas mais aparentes de suas passagens por Santa Catarina são quadrantes solares projetados por ele em municípios como Blumenau, Gaspar, Balneário Piçarras, Balneário Camboriú, Itajaí, Araranguá e Palhoça. Carbajal dizia ter deixado espalhados pela América quase duas centenas deles.

— Mesmo os nômades deixam vestígios. No caso do Félix, são vestígios muito fragmentados e que se contradizem, inclusive. É difícil dizer exatamente o que ele foi — observa o autor.

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Félix Pellayo Carbajal viveu os últimos anos na Casa São Simeão, em Blumenau. Os restos mortais dele estão depositados em Lages, onde vivem amigos. O homem mudou de endereço até depois da última partida.

Livro

O livro “Félix: uma vida nômade poética pelas Américas” está disponível para pré-venda online a R$ 69,90.

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