Copa de 1998: O relato de quem estava na concentração do Brasil no dia da convulsão de Ronaldo

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Um dos episódios mais marcantes da história do Brasil nas Copas do Mundo foi o que ocorreu com o atacante Ronaldo momentos antes da decisão do Mundial da França, em 1998. Entre as derrotas significativas – a decisão contra o Uruguai, em 1950; a eliminação para a Itália, em 1982; e os 7 x 1 diante da Alemanha, na última Copa – aquela do Stade de France foi a que gerou mais especulações. Todas as teorias foram criadas e divulgadas, dividindo o torcedor e a opinião pública. 

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Naturalmente, há sempre uma necessidade de achar um motivo maior, uma justificativa diferente, um “sobrenatural”, para explicar o que aconteceu. E quem esteve lá e viu tudo de perto? Um destes personagens vive atualmente pertinho de todos nós, em Florianópolis (SC). 

Marcos Moura Teixeira participou das equipes de preparação física da Seleção Brasileira de duas Copas. Em 1994, esteve envolvido nas avaliações físicas dos atletas, na preparação realizada, ainda no Brasil, para a Copa dos Estados Unidos (EUA).

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Em 1998, participou efetivamente. Esteve diretamente na equipe de Paulo Paixão, como um auxiliar da preparação física. Atualmente, Marcos Moura Teixeira é executivo de futebol e trabalhou nesta função no Figueirense e no Criciúma, aqui em Santa Catarina. 

Vinte anos depois, Teixeira resolveu contar a sua versão, o que ele viu, e quais decisões ajudou a tomar, no episódio com Ronaldo e a Seleção Brasileira, antes, durante e depois da decisão da Copa do Mundo de 1998. O Brasil foi derrotado pela equipe francesa, comandada pelo astro Zidane, por inapeláveis 3 x 0.

Até hoje, a “convulsão” do melhor atacante do mundo da época, superastro daquele mundial, gera especulações. Afinal, o que ocorreu com Ronaldo? Tem até teoria da conspiração, como uma história de “venda da Copa do Mundo por causa da Nike”, que circulou nas redes sociais durante muito tempo. 

No relato que você vai ler há muitos detalhes. Como a cena vista por todos no quarto em que estava Ronaldo no momento da “convulsão”, as reuniões pré-jogo, que definiram a escalação de Edmundo e, depois a volta de Ronaldo para o time da decisão. 

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“Zagallo perguntou ao Ronaldo como ele estava se sentindo, e Ronaldo disse que estava bem e queria jogar. Zagallo novamente perguntou ao Lídio sobre a “condição de jogo” do Ronaldo e Lídio disse que não poderia vetá-lo, pois nada havia sido detectado.

Somente Dr. Lídio, como chefe do departamento médico da Seleção, poderia vetar o atleta, ou seja, tirá-lo da partida. Zagallo disse, então, que ele iria jogar e Ronaldo foi se trocar.”

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A riqueza de detalhes é o que mais chama atenção. Você vai se sentir como se estivesse no hotel da Seleção, no ônibus a caminho do estádio, no vestiário e até na sala onde se definiu que Ronaldo iria jogar.

Ao mesmo tempo, Teixeira deixa suas opiniões atuais sobre o que deveria ou poderia ser feito, que em alguns casos é diferente das próprias decisões que ele ajudou a tomar naqueles instantes tão tensos de uma final de Copa do Mundo.

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Confira o relato de Marcos Moura Teixeira

Já ouvi diversos jogadores contando suas versões, assim como outros personagens que estiveram presentes naquela ocasião. Mas acredito que ninguém tenha presenciado ou participado com a intensidade, quantidade e qualidade de informações a que tive acesso durante todo o processo ocorrido.

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Fase de preparação e início da competição 

Ronaldo esteve em constante tratamento para recuperação completa de seu joelho, fazia fisioterapia e tratamentos constantes. Foi adquirindo sua melhor forma ao longo da preparação e durante a disputa da Copa do Mundo. Até brincávamos que ele não estava fazendo muitos gols nos treinamentos durante o Mundial, foi melhorando devagar a cada dia.

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Atingiu o auge após a semifinal histórica contra a Holanda. Ganhou também confiança e teve uma semana excelente de treinamento e performance, marcando muitos gols. Esta semana de Ronaldo nos deixou com a certeza do sucesso na final, pois o melhor jogador do mundo chegava à sua melhor forma e com confiança própria, assim como o grupo.

Posso dizer isso com tranquilidade, pois eu acompanhava Ronaldo em tudo, nos treinamentos, nos alongamentos que ele mesmo me pedia para fazer com ele, era seu costume assim como Romário, sempre eu ficava por conta de alongá-los nos treinamentos e no aquecimento para as partidas. 

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O Ronaldo além de ser o melhor jogador da Seleção, até porque o Romário estava ausente, era um dos mais jovens, sempre um cara simpático, com muito carisma, com suas “tiradas” sarcásticas, inteligentes e engraçadas.

Por essa razão, Ronaldo era especial dentro do grupo. Todos, praticamente sem exceção, tinham uma amizade, um afeto, uma consideração especial em relação ao Ronaldo, além da esperança e da confiança de que ele iria nos ajudar efetivamente a sermos campeões.

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A véspera do dia da final da Copa do Mundo! 

Ao final desse dia, após o lanche, que geralmente é servido entre 22h e 22h30, fiquei acompanhando o Ronaldo, que adorava jogar um game de tiros pela internet, tipo “Quake”, onde se podia jogar contra oponentes online. Ele e o Emerson estavam viciados nesse jogo.

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Ficamos ali até perto da meia-noite e, então, acompanhei Ronaldo até a fisioterapia, onde o Luisão, massagista da Seleção, realizou tratamento especificamente no joelho, isso era uma prática comum, independentemente de estar sentindo alguma dor ou desconforto.

Ficamos ali mais ou menos durante uma hora, naquela “resenha” bem conhecida por todos do futebol. Depois disso, já era quase uma e meia da manhã, quando então fomos cada um para seu quarto descansar e ficar prontos para a final.

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Depois daquela semana tão especial, após o fantástico jogo contra a Holanda, eu tinha plena convicção que o título estava muito próximo, ainda mais vendo Ronaldo ter atingido uma forma tão boa, tranquilo e confiante. 

Amanheceu o dia da final e tudo transcorreu normalmente até pouco depois do almoço. Nesse momento, estávamos quase todos, cada um em seu quarto, descansando, naquela moleza e sono muito comum após almoçar. 

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Meu quarto ficava na mesma ala do dos jogadores. O hotel era muito grande e tinha mais de uma ala de quartos. Na ala onde eu estava, havia dois andares, nos quartos do andar de baixo ficavam alguns membros da comissão técnica, e no andar de cima, somente jogadores.

Edmundo passa ao lado do meu quarto gritando: “O Ronaldo está morrendo!”

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Eu estava em meu quarto vendo TV e, meio sonolento, quase dormindo, quando ouvi Edmundo gritando: “O Ronaldo está morrendo! O Ronaldo está morrendo!” 

Dei um pulo da cama e saí correndo em direção ao quarto do Ronaldo. Como eu tinha costume de “resenhar” eventualmente com os jogadores, sabia exatamente onde era o quarto do Ronaldo. Como expliquei antes, eram várias as alas de quartos, sendo que algumas eram bem distantes da ala em que nos encontrávamos.

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Por isso, muitos membros da comissão técnica nem ficaram sabendo do ocorrido em um primeiro momento, até porque não tinham o costume de ir ao quarto dos atletas. Ronaldo e Roberto Carlos dividiam o quarto, que ficava praticamente acima do meu. Portanto, cheguei lá num instante.

A cena no quarto e o atendimento a Ronaldo 

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Chegando ao quarto, vi Ronaldo deitado em sua cama, com o César Sampaio tentando “puxar” a língua dele, acreditando que ele estava tendo um ataque epilético. Vendo aquilo, desci a escada imediatamente e fui buscar o Dr. Lídio Toledo, que ficava no quarto ao lado do meu.

Subi imediatamente com o Dr. Lídio que, chegando ao quarto, começou a tomar pé da situação, pediu aos atletas que se acalmassem e se afastassem para poder atendê-lo. Nesse momento, prestei mais atenção no Ronaldo, que estava rodeado de pelo menos uns 10 a 12 atletas. 

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Ronaldo estava deitado em sua própria cama, um pouco “crispado”, ou seja, estava tenso, com os músculos tensionados por todo o corpo, os olhos um pouco “revirados” e com uma leve “baba” saindo da boca.

Mas certamente não estava se debatendo nem nada disso. Naquele momento, para mim, ficou claro que não era um ataque epilético.

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Com a segurança da presença do Dr. Lídio Toledo no atendimento, saí correndo do quarto para avisar e trazer o Dr. Joaquim da Mata, que era nosso clínico geral, em tese mais indicado para esse atendimento. Como eu sempre circulava fazendo visitas a todos do grupo, sabia exatamente onde era o quarto do Dr. Joaquim, em uma ala do outro lado do hotel, bem distante de onde estávamos.

Quando chegamos, Ronaldo já estava menos tenso, com os olhos ainda um pouco revirados e uma “baba” leve na boca. Dr. Joaquim avisou para todos ficarem calmos, ficou ao lado do Ronaldo e disse que em um ou dois minutos ele iria relaxar e dormir. Por incrível que pareça, foi exatamente isso que aconteceu.

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O Impacto no grupo de jogadores

Passamos a conversar com os jogadores sobre o ocorrido, e Roberto disse que depois do almoço, após um tempo, foram para o quarto descansar e eles estavam conversando, quando o Ronaldo começou a fazer uma cara “estranha”.

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Em um primeiro momento, Roberto achou que Ronaldo estava fazendo uma “palhaçada” com ele, até porque eram os dois mais brincalhões, pareciam dois “meninos” sempre. Logo em seguida, Ronaldo começou a passar mal e, então, ele viu que o negócio era sério.

Avisamos aos jogadores para se acalmarem e voltarem aos seus quartos para descansar, pois naquele momento estava tudo sobre controle. Ronaldo iria continuar dormindo e o Dr. Joaquim da Mata ficaria no quarto para qualquer eventualidade.

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É preciso ficar registrado que pelo menos metade dos atletas da Seleção presenciaram o ocorrido com Ronaldo, vivenciando aquele desespero e agitação, onde a adrenalina “bateu no teto”, deixando todos preocupados e apreensivos, poucas horas antes da final.

Combinamos então que todos iriam para seus quartos, Dr. Joaquim ficaria com Ronaldo e ninguém falaria nada até o momento do lanche que antecede a preleção e saída para o jogo.

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Fui avisar o presidente Ricardo Teixeira sobre o ocorrido

Depois desse movimento todo, me lembrei de ir conversar com o presidente Ricardo Teixeira sobre o ocorrido. A maioria dos componentes da comissão técnica não presenciou o acontecimento, sendo que alguns só foram informados pouco antes do lanche da tarde. 

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Fui ao quarto do presidente, que ficava em uma ala um pouco mais distante, e para minha surpresa ele ainda não sabia do ocorrido. Foi uma surpresa para ele, que após ouvir o relato, disse: “Que merda! Ou “deu merda”!

Na verdade, expressou sua preocupação e já intuiu que as coisas não iriam bem dali para frente, tipo que o “caldo tinha desandado”! 

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Surpresa na hora do lanche: a presença do Ronaldo

Conforme combinado entre todos, comissão técnica e jogadores, ninguém falou com Ronaldo sobre o ocorrido. Fomos todos para o lanche na expectativa do que iria acontecer, como Ronaldo estaria. 

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Para nossa surpresa, Ronaldo chegou como sempre, sentou-se à mesa dos atletas e lanchou normalmente. Enquanto ele lanchava, todos estavam atentos ao seu comportamento. Todos lanchavam e observavam o Ronaldo ao mesmo tempo! 

Quando Ronaldo se levantou para ir para o quarto e se preparar para a preleção e saída para o estádio, o Dr. Lídio foi atrás dele e perguntou como ele estava se sentindo. Ronaldo disse que parecia que havia dormido um pouco mal (de mal jeito) naquela tarde, mas que estava bem.

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Ou seja, não tinha a menor recordação do que havia acontecido. Nessa hora, então, Dr. Lídio explicou para ele o que tinha acontecido e disse que não poderia liberá-lo para jogar. Ronaldo contestou dizendo que estava bem e que queria jogar, perguntou o que teria que fazer para poder jogar.

Lídio e Joaquim da Mata, então, disseram que ele precisaria fazer alguns exames, especialmente uma tomografia para verificar o que poderia ter acontecido. Ronaldo solicitou que isso fosse organizado, o que deveria ser feito para comprovar que estava bem e em condição de jogar, que fosse providenciado então.

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Ronaldo é levado para exames

Ronaldo, então, foi levado pela Polícia Federal francesa junto com o Dr. Joaquim da Mata para o hospital onde seriam feitos exames e a tomografia. Esse foi o momento crucial que influenciou e definiu tudo o que aconteceu na sequência.

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Naquele momento, deveria ter se definido que Ronaldo não seria liberado para jogar, independente do resultado dos exames. Não foi o que aconteceu.

Eu soube depois do jogo realizado, que antes desse momento, na hora do lanche, houve uma ligação e uma conversa com Dr. Paulo Niemeyer, neurocirurgião renomado do Rio de Janeiro, onde foi realizada uma consulta sobre a opinião dele no caso acontecido.

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Não tenho certeza dos presentes, mas entendi que estavam pelo menos os médicos da Seleção e Zico, que era coordenador técnico, o que pode ser confirmado. Soube, então, que naquele momento, que apesar de não ter estado presente e baseado no relato dos médicos, Dr. Paulo Niemeyer recomendou 24h de observação, ou seja, que Ronaldo ficasse esse tempo em observação, não podendo no caso jogar, pois não se sabia ainda a gravidade ou as consequências do ocorrido (vamos chamar de “convulsão”). 

Somente os médicos, no caso o principal responsável, o chefe do departamento médico, poderia ter tomado essa decisão e vetado a participação do Ronaldo naquele momento.

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A partir desse momento, criou-se uma dicotomia no grupo. Enquanto nos preparávamos para a preleção e para o jogo, as atenções ficaram divididas entre nossa preparação e concentração à decisão, e como estava a saúde do Ronaldo. O que teria ocorrido com Ronaldo? Se ele estava correndo algum risco? Quais seriam os resultados dos exames?

Jogadores sentiram muito o que aconteceu

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Importante lembrar que alguns jogadores tinham relação de amizade especial com Ronaldo e sentiram muito o que aconteceu. Não quero aqui individualizar nomes, mas a todo momento, até quando Ronaldo já estava se aquecendo para o jogo no vestiário, ficavam perguntando como o atacante da Seleção estava, como tinham sido os exames, se ele estava bem, se não corria risco. 

Inclusive, para manter tudo sobre controle e observar melhor o ambiente e o comportamento de todos, não realizamos o aquecimento dos jogadores no campo, como fizemos durante toda a Copa. Fizemos no vestiário. O preparador físico era Paulo Paixão, grande profissional, e eu era seu assistente. 

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Para finalizar essa parte, quero destacar o incrível profissionalismo dos policiais federais da França. Um grupo de agentes destacados para nossa segurança. Foram eles que levaram Ronaldo e o Dr. Joaquim da Mata para realizar os exames, sem que ninguém soubesse, até sua chegada no Stade de France.

Profissionais incríveis que facilmente poderiam ter vazado o que estava acontecendo, para atender aos interesses da França, e não o fizeram!

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A preleção para a final

Enquanto se organizava a saída de Ronaldo junto com o Dr. Joaquim Mata, assim como a logística e os preparativos para os exames no hospital, todos os demais foram para seus quartos se preparar para a preleção e saída para o estádio. 

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A preleção foi marcada por uma certa tensão, refletindo tudo que havia ocorrido. Zagallo comunicou que Edmundo iria ser o substituto de Ronaldo, até porque ninguém ainda fazia ideia que o Ronaldo iria ter tempo de realizar os exames e chegar a tempo para a partida. Foi definido, então, que Edmundo entraria no lugar do Ronaldo.

Zagallo se emocionou um pouco quando fez uma comparação com a Copa de 1962 no Chile, quando Pelé se lesionou no início do Mundial e Amarildo brilhou em seu lugar. 

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A Caminho do Stade de France 

Saímos dali para o ônibus e seguimos para o Stade de France. Foi a primeira e única vez que os atletas não foram conversando, cantando ou batucando em voz alta. Todos estavam em silêncio, conversando em voz baixa, preocupados e ainda não recuperados dos recentes acontecimentos. Esse comportamento comprova esse fato. 

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Para complicar, nós, da comissão técnica, seguimos no ônibus ouvindo relatos do que estava ocorrendo com Ronaldo através do Dr. Lídio, que recebia a todo o momento informes do Dr. Joaquim da Mata. 

Até antes de chegar ao estádio, ainda não sabíamos se o Ronaldo, independente de ter condição de jogo, chegaria com tempo suficiente para participar da partida. Portanto, até nossa chegada e início da preparação, era Edmundo quem iria jogar. 

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Minha impressão foi de que a “descarga de adrenalina” foi tão grande, que não houve tempo de processá-la. Ainda estávamos todos em processo de recuperação, nossa energia total ainda não havia sido plenamente restabelecida. 

Caso o acontecido (convulsão) tivesse ocorrido no dia anterior, teríamos nos recuperado plenamente e certamente o resultado poderia ter sido diferente. Também imagino que se tivesse acorrido com outro atleta que não Ronaldo, o impacto não teria sido tão grande como foi.

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Quero lembrar o sentimento de “pertencimento”, de amizade, de grupo, fatos que ocorrem e se fortalecem durante uma competição como a Copa do Mundo, ainda mais por Ronaldo ser o mais jovem, como o irmão caçula de todos, o melhor jogador do mundo, nosso craque, que naquela última semana, tinha atingido sua melhor forma física e técnica. 

Chegada do Ronaldo ao vestiário

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Paulo Paixão e eu já havíamos iniciado o pré-aquecimento dos atletas. Essa fase ainda é um pouco livre, os jogadores realizam movimentos com e sem bola, com liberdade. Cada um faz o que mais gosta, sua rotina preparatória para o aquecimento do jogo específico.

Foi quando nos avisaram que Ronaldo havia chegado ao vestiário e nos convocaram para uma reunião. Como o aquecimento já havia se iniciado, Paulo Paixão ficou com os atletas dando sequência ao aquecimento e eu fui para a outra parte do vestiário, em uma sala onde seria a reunião.

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A reunião que definiu a escalação do camisa 9

Nesse momento, me recordo que estavam presentes Américo Faria, Zagallo, Dr. Lídio Toledo, Dr. Joaquim da Mata, Ronaldo e eu. Zico estava já nas tribunas com o presidente Ricardo Teixeira. 

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O Zagallo perguntou: “E aí, Lídio?” Dr. Lídio passou a bola para o Dr. Joaquim falar sobre o exame. Dr. Joaquim disse que tinham feito a tomografia e demais exames (eletroencefalograma) e que nada havia sido detectado.

Zagallo perguntou a Ronaldo como ele estava se sentindo. Ronaldo disse que estava bem e queria jogar. O técnico novamente perguntou ao Lídio sobre a “condição de jogo” de Ronaldo, e Lídio disse que não poderia vetá-lo, pois nada havia sido detectado. 

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Somente o Dr. Lídio, como chefe do departamento médico da Seleção, poderia vetar o atleta, ou seja, tirá-lo da partida. Zagallo disse, então, que ele iria jogar e Ronaldo foi se trocar. 

O aviso a Edmundo 

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Alguém perguntou sobre como seria com Edmundo, quem iria falar com ele. Imediatamente, Zagallo disse que seria ele e saiu da sala para falar com Edmundo, que não iria mais começar jogando.

Zagallo sempre foi muito decidido e proativo, não fugiu de suas responsabilidades. Eu, inclusive, me manifestei no momento em que o Ronaldo disse que queria jogar, após o Dr. Lídio e Joaquim dizerem que o exame não havia encontrado nada.

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Vendo o Ronaldo ali, de pé ao nosso lado, normal, sem nenhum problema aparente, como não querer que jogasse? Era o melhor jogador do mundo, nossa principal esperança e certeza de qualidade e resultado.

Zagallo foi diretamente ao vestiário, na parte onde ficam os escaninhos dos atletas. Edmundo foi chamado para esse local e Zagallo lhe comunicou que ele não iria entrar jogando, que Ronaldo iria começar jogando.

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Todos estavam preocupados com a reação e atitude de Edmundo, mas ele somente abaixou a cabeça e ficou um tempo ali, absorto em seus próprios pensamentos. 

Zagallo e Edmundo sempre tiveram pouca proximidade

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Durante toda a preparação e disputa da Copa do Mundo de 1998, Zagallo e Edmundo não tiveram muita proximidade. O atacante achava que era um pouco preterido pela preferência do técnico a Bebeto como companheiro de Ronaldo.

Ao contrário de como sempre se comportou e agiu, Edmundo algumas vezes deixava de demonstrar uma dedicação total aos treinamentos. Algumas vezes sentei com ele e expliquei que a oportunidade aparece quando menos esperamos e que deveria estar preparado, que na foto da final, geralmente estão outros, diferentes dos que começaram. 

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Acredito que essa atitude, diferente do que sempre ele foi, o prejudicou na hora decisiva, quando Zagallo tinha que ter plena confiança no atleta para jogar a final. Acho que isso pesou na decisão do treinador. 

Trabalhei com Edmundo no Flamengo e posso dizer que nunca vi um atleta tão dedicado e competitivo como ele, tanto nos treinamentos, como nos jogos.

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Troca de nome na lista da Fifa

Enquanto Ronaldo se aprontava para o jogo, rapidamente Américo foi atrás do presidente Ricardo Teixeira para resolver a questão da lista de jogadores para a partida. Lista essa que já havia sido definida e entregue à Fifa com o nome de Edmundo. Acredito que só nesse momento Zico também tomou ciência do que estava acontecendo e havia sido decidido no vestiário. 

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Isso provocou uma surpresa enorme em todos os espectadores e telespectadores, pois a lista havia sido divulgada com Edmundo e depois foi substituído pelo Ronaldo. Ninguém estava entendendo nada. Nem por que o Ronaldo não estava na lista inicial, nem por que foi feita a troca em cima da hora. 

Começa o aquecimento com o Ronaldo 

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Aguardei Ronaldo se aprontar e fui com ele para a área do vestiário onde estava sendo realizado o aquecimento com os outros jogadores.
Tudo isso foi muito em cima da hora, Ronaldo chegou e já estávamos para iniciar a rotina de aquecimento para o jogo propriamente dito.

Se ele tivesse chegado 20 minutos depois, não haveria tempo de prepará-lo para iniciar o jogo e Edmundo teria iniciado a partida. Vai saber por que o destino nos conduziu assim! 

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Vale lembrar que durante o aquecimento, já com o Ronaldo presente, vários atletas chegavam perto de mim e perguntavam como estava Ronaldo, se estava tudo bem, o que tinha acontecido nos exames?

Todos faziam aquecimento e ao mesmo tempo observavam Ronaldo. Pelo aquecimento, você não podia dizer que ele estava diferente, fazia os movimentos e atividades normalmente como qualquer outro jogador, inclusive os movimentos com bola. 

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Seguimos a rotina normal de aquecimento até o final e fomos para a área do vestiário finalizar com a roda e a reza para entrar em campo, assim como as instruções finais de Zagallo. 

Não há dúvida que todos estavam ainda preocupados com Ronaldo, que nossa atenção, inclusive dos jogadores, não estava 100% na partida. Acredito que alguns conseguiram se focar 100%, mas certamente outros não conseguiram.

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Basta lembrar a preocupação dos atletas no momento em que Ronaldo se chocou com o goleiro Barthez. O atacante estava indicado para marcar o Zidane nos escanteios, foi feita uma troca pelo Leonardo e depois pelo Dunga, mas mesmo assim não obtivemos sucesso. 

Depois do jogo

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Não tenho como saber o que estava acontecendo na vida pessoal de Ronaldo. Durante todo o período de preparação, o que pude perceber, foi que Ronaldo melhorou física e tecnicamente ao longo desse processo, atingiu um bom auge na semana da final. 

Quando voltamos ao hotel após o jogo para jantar, conversei bastante com alguns jogadores e com Dr. Lídio também, pois esse teria que realizar entrevista sobre o ocorrido com Ronaldo, pois havia uma demanda absurda sobre esse assunto. 

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Avisei ao Dr. Lídio que deveria relatar exatamente o que havia ocorrido, para minimizar ao máximo as especulações absurdas que já começavam a circular. Acho que faltou essa fala nesse momento, o que certamente gera até hoje desconfiança sobre o que aconteceu.

Aconteceu um fato interessante, em que fui parte protagonista. Havia um grande interesse e expectativa da Nike em ser fornecedora campeã do mundo no seu primeiro contrato com uma Seleção, especialmente sendo o Brasil.

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O representante da Nike junto à Seleção naquela época era meu amigo e me pediu para levar uma bolsa para o vestiário. Bolsa com camisas comemorativas já com as cinco estrelas de pentacampeão do mundo. Como os massagistas e membros da comissão técnica geralmente são muito supersticiosos, ele me pediu e eu levei essa bolsa com as camisas para o vestiário e deixei guardado no meu escaninho.

Era para que todos pudessem usá-las após o jogo. Foi com muita tristeza que recolhi essa bolsa após o jogo e entreguei a esse representante, sem mesmo ver como eram essas camisas. 

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Até hoje tento entender por que esses fatos aconteceram assim, por que aconteceram naquele momento crucial. Difícil dizer que outras atitudes teriam sido tomadas. 

Acredito que o momento crucial foi a não definição do veto a Ronaldo no momento do lanche, antes da preparação e saída ao estádio. No caso, devemos aceitar que qualquer coisa pode acontecer a qualquer um a qualquer momento, sendo impossível estar ou se preparar para um imprevisto do porte que foi o ocorrido com o Ronaldo e todas as circunstâncias envolvidas.

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Vejo também que faltou clareza em relatar o ocorrido, o que gerou diversas interpretações e desdobramentos inconvenientes.

Não sei se teríamos sido campeões do mundo caso esse fato não tivesse ocorrido, mas certamente teria sido um jogo de igual para igual, com nossa equipe e Ronaldo numa crescente! Mesmo com todas as circunstâncias, Ronaldo teve mais de uma chance real de marcar gols nessa final.