Como a matemática da votação em Blumenau foi um retrato da virada histórica de Lula

Embora Flávio Bolsonaro (PL) tenha mantido enorme vantagem na preferência do eleitorado local, outros números do pleito ajudam a explicar reviravolta do segundo turno

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Ato pró-Lula em Blumenau na última semana foi uma mostra de como a esquerda ressurgiu nas manifestações populares no segundo turno (Foto: Denner Ovídio, Arquivo pessoal)

A votação no segundo turno em Blumenau foi um retrato da conjuntura política que levou Lula (PT) a um quarto mandato como presidente da República. No tira-teima da disputa, Flávio Bolsonaro (PL) manteve, em números absolutos, a enorme vantagem na preferência do eleitorado local. Mas outros dados deste domingo (25), projetados em um cenário nacional, ajudam a explicar a virada histórica do petista.

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No primeiro turno, foram 210.793 votos válidos – conta que exclui brancos e nulos – em Blumenau, segundo as estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Flávio levou 145.080 (68,83%), enquanto Lula recebeu 43.960 (20,85%). Os outros candidatos, somados, fizeram 21.753 votos. Desta conta, 21.113 representaram a soma de Renan Santos (Missão, 8.687), Augusto Cury (Avante, 6.936), Ronaldo Caiado (PSD, 4.087) e Romeu Zema (Novo, 1.403).

A quantidade de votos em branco (2.932 x 2.283) e nulos (4.627 x 4.739) foi praticamente a mesma nos dois turnos, sem diferença significativa. Mas a abstenção reduziu de 51.018 eleitores (18,94% no primeiro turno) para 45.693 (16,96%). Com isso, o segundo tempo da eleição em Blumenau teve 216.765 votos válidos, 5.972 a mais em relação ao primeiro turno.

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Dados expostos, a matemática mais simples da equação é a seguinte: somando os votos dados aos demais candidatos (21.753) no primeiro turno à diferença da abstenção (+5.972), Blumenau computou 27.725 “votos novos” em disputa no segundo turno. No domingo, Flávio somou 159.139 (73,42%), ganhando 14.059 votos novos em relação ao primeiro turno. Já Lula fez 57.626 (26,58%), aumento de 13.666 votos. É praticamente um empate técnico. Todos os dados podem ser confirmados diretamente no site do TSE.

Isso proporciona duas leituras imediatas. A primeira: não houve, entre os eleitores de Blumenau, transferência automática de votos dados a outros candidatos derrotados que declararam apoio a Flávio, casos de Cury, Caiado e Zema, e nem de Renan, que orbita em campo semelhante, mas manteve-se neutro na reta final. A segunda: a mobilização da campanha de Lula foi mais efetiva na reversão da abstenção e ainda fisgou votos de uma parcela da direita que rejeita Flávio.

No cenário nacional, o movimento se repetiu, mas de forma mais exponencial. Lula conquistou, no segundo turno, 10,3 milhões de “votos novos”, mais do que a soma (9,3 milhões) de todos os outros 10 candidatos já derrotados em primeiro turno. De novo, o bloco Cury-Renan-Caiado-Zema, que somou 9 milhões de votos, não transferiu o apoio para Flávio, que fez “apenas” 3,71 milhões de votos a mais – quantia menor também do que os 4,78 milhões de novos votos válidos que entraram no segundo turno com a redução da abstenção.

O grande fato da campanha é que Lula avançou onde pouco se esperava e conseguiu fazer da repulsa ao bolsonarismo uma força maior que o próprio antipetismo. Isso se viu até mesmo em Blumenau. No segundo turno, Lula igualou a disputa pelos votos novos em uma cidade historicamente propensa à direita e onde não foram registrados grandes problemas na votação, nem na circulação do transporte coletivo. Em outras regiões do Brasil em que a eleição foi mais acirrada, o conjunto da obra pesou ainda mais a favor do petista.