Uma jovem atriz em ascensão na televisão surge na tela falando sobre a coleção de inverno de uma marca de roupas. Em determinado momento, a câmera fecha no rosto dela, que não poupa elogios sobre a qualidade da grife: “super gostosa, macia, tudo a ver com você”. Na sequência, emenda:
“Sai dessa fria e entre no calor de uma Sulfabril”.
Estrelado por Cláudia Abreu, o comercial foi ao ar no fim da década de 1980. Naquela época, artistas e atores da Globo emprestavam seus rostos para divulgar as malhas Sulfabril. A lista chegou a ter outros nomes de peso da dramaturgia brasileira, entre eles Regina Duarte, Marcos Frota, Maurício Mattar e Fábio Jr.
A publicidade em massa, que incluía também um patrocínio ao humorístico Os Trapalhões, ilustrava o auge vivido pela empresa fundada em 1947. Entre as décadas de 1970 e 1980, a Sulfabril chegou a ter fábricas em Blumenau – onde estava a matriz –, Gaspar, Ascurra, Rio do Sul e Joinville, além de uma planta no Nordeste. A capilaridade do negócio se traduzia em uma produção mensal de 6 milhões de peças de roupa.
Veio então a abertura do mercado no início da década de 1990, e uma empresa que parceria sólida começou a ruir aos poucos. Impactada pela concorrência estrangeira, a Sulfabril foi definhando até pedir falência em 1999. Apesar do estado falimentar, a companhia continuou operando por mais 15 anos até encerrar definitivamente as atividades em 2014. Agora, mais de uma década depois, a marca está de volta ao mercado sob nova direção e com uma nova estratégia empresarial.
Veja propagandas antigas da Sulfabril
De volta à vida
A responsável por trazer a grife de volta à vida é a Lunelli, uma das maiores indústrias têxteis de Santa Catarina. A empresa arrematou a marca Sulfabril em um leilão no fim de 2021 por R$ 1,2 milhão – uma pechincha, considerando o peso que ela já teve no passado. Foi uma segunda tentativa de resgate do ativo, que chegou a ser vendido em 2015 – a compradora, na época, ficou inadimplente com a Justiça, que mais tarde anularia o processo.
A Lunelli guardou a Sulfabril por quase cinco anos antes de relançá-la ao mercado em outubro, durante um evento em Balneário Camboriú. Dentro da companhia, a marca de origem blumenauense vai virar uma plataforma de negócios com atuação em duas frentes. A primeira delas, que inclui fornecimento de malhas para grandes confeccionistas e atacadistas, já começou a rodar.
A segunda frente inclui a confecção de uma linha própria da marca, que vai abastecer canais multimarcas e grandes redes varejistas, diz Viviane Lunelli, presidente da companhia. A ideia é que a Sulfabril retorne ao ponto de venda com peças voltadas ao público adulto, mas com foco no feminino.
“O posicionamento que a gente está trazendo para ela é ser uma marca mais democrática, com produtos que são mais essenciais”, explica a empresária.
Esse portfólio deve incluir, de início, entre 50 e 70 peças de roupa, entre camisetas, regatas, blusas e moletons voltados aos públicos C e D. Serão “produtos de entrada”, como se diz no varejo. Na prática os mais acessíveis de compra, com preços a partir de R$ 35, estima Viviane. Eles vão pegar carona na rede de distribuição consolidada da Lunelli, que hoje atende 21 mil clientes multimarcas no Brasil.
A primeira coleção da nova Sulfabril deve estar no mercado no início de 2027. A Lunelli, no entanto, não tem pressa em escalar a marca. Como está começando agora, é um projeto com outro ritmo de tração e que vai exigir do lojista um reconhecimento do produto. O histórico, por outro lado, deve ajudar, aposta Viviane.
“Os mais jovens obviamente não conhecem a Sulfabril, mas quem é mais veterano tem um recall muito interessante da marca”, observa.
Além do mercado, a notícia do retorno mexeu com as emoções de quem trabalhou na Sulfabril. Segundo Viviane, um grupo de ex-funcionários chegou a procurar Lunelli para se colocar à disposição para o projeto de retomada. Outros enviaram mensagens nas redes sociais da empresa pedindo uma camiseta da marca. Quase três décadas após a decretação de falência, o sentimento de pertencimento dos que a carregam no currículo permanece intacto.
Investimentos em fábrica
Tanto no segmento de malhas como na confecção, o projeto Sulfabril será absorvido pela capacidade industrial que a Lunelli já tem instalada. A companhia soma 14 fábricas, quase 5 mil funcionários e um faturamento anual de R$ 1,5 bilhão.
“Inicialmente, a nossa estrutura suporta. Dependendo do nicho de produto que a gente for puxar nessa estratégia, ele pode demandar alguma coisa de investimento, mas a Lunelli, nos últimos sete anos, investiu em torno de R$ 450 milhões em fábrica. Temos uma capacidade fabril bastante grande”, pondera Viviane.




