Foi necessário que a Globo amarrasse muito bem as regras do debate para garantir o mínimo de civilidade entre Lula (PT) e Flavio Bolsonaro (PL). Em uma campanha marcada por ataques, rejeição e culto ao medo de ambos os lados, o encontro desta sexta-feira (23) trouxe um raro momento em que os dois candidatos à presidência discutiram projetos para o Brasil – saúde pública, ensino integral, obras de infraestrutura paralisadas, endividamento das famílias, combate ao crime –, ainda que nem sempre com profundidade.
Isso só foi possível porque, nos três primeiros blocos do programa, havia temas pré-determinados e uma orientação prévia para que os concorrentes não fugissem deles. De lado a lado, por exemplo, veio sinalização positiva para reajuste de salário mínimo e aposentadorias com ganho real, tarifa zero no transporte coletivo e manutenção de programas sociais. Para Flavio, as promessas parecem esbarrar no ajuste fiscal acenado pelo candidato ao mercado.
Enquanto Lula se perdia no tempo das réplicas, Flavio começou melhor. Ao contrário do embate anterior na Band, veio com um figurino menos agressivo. Foi menos Pablo Marçal e mais Tarcísio de Freitas: tentou passar imagem de moderação, fez mea culpa sobre a votação contrária ao aumento da licença-maternidade quando era deputado estadual pelo Rio de Janeiro – dizendo que errou na época –, reconheceu que o governo petista até já teve boas ideias no passado e chegou a dizer que seria o mais nordestino dos cariocas, numa mensagem endereçada à região em que mais tem dificuldades para conseguir e reverter votos.
O escorregão, dos grandes, veio quando citou os nove dedos de Lula, no que foi visto nas redes sociais como uma fala capacitista – quando há preconceito contra uma deficiência ou condição física de outra pessoa. O petista reclamou do deboche e relembrou, em tom incisivo, que foi vítima de um acidente de trabalho quando ainda era jovem. Foi seu melhor momento no confronto. Flavio pediu desculpas, num gesto cuja interpretação fica ao gosto do eleitorado – humildade para admitir o erro ou acusação do golpe de contra-ataque?
Em outro momento, Flavio alfinetou Lula ao questionar quem seria o presidente do Brasil, ele ou o Google, diante da insistência do presidente em apelar para pesquisas ao site de buscas. Por outro lado, voltou a cometer uma gafe quando chamou de Ana Clara a mãe de uma menina de cinco anos atingida por um tiro de fuzil em Niterói – Flavio integrou a defesa do policial acusado da morte. Ana Clara é a vítima.
Na maior parte do tempo, os dois candidatos tentaram trazer o debate para suas zonas de conforto. Lula apostou no legado de programas sociais, reforçando o que já fez como presidente, enquanto Flavio se colocou como mudança, batendo na segurança pública e prometendo castração química para estuprador, redução da maioridade penal e classificação de facções criminosas como terroristas.
O último bloco foi um flashback da baixaria vista no debate da Band, com ambos muitas vezes se esquivando de responder diretamente as acusações e provocações que vinham do outro lado.
Se a estratégia era não perder, Lula e Flavio atingiram o objetivo. Mas também não houve um vencedor claro do debate na visão dos indecisos ou daqueles que não foram votar no primeiro turno. O empate, nestes casos, é bom para quem está na frente. Nesta lógica, portanto, beneficiaria Flavio, que largou no segundo turno em vantagem. As pesquisas mais recentes, no entanto, mostram os dois emparelhados nesta reta final. A disputa segue totalmente aberta e imprevisível e tende a ser decidida somente nas últimas horas.
