O que Altenburg, Döhler e Karsten têm em comum? Existe uma primeira resposta óbvia para essa pergunta: são empresas catarinenses que se destacam na produção têxtil e concorrem entre si. O trio de gigantes centenárias, porém, compartilha outra semelhança que agora começa a ser mais percebida pelo mercado. Todas enxergaram no Paraguai uma alternativa para reduzir custos operacionais e diversificar a estratégia industrial. E elas estão longe de serem casos isolados – Buddemeyer e Lunelli são outras companhias do ramo no Estado que também já fizeram apostas por lá.
Nos últimos anos, o país vizinho estendeu um tapete vermelho para atrair investimentos, boa parte deles estrangeiros. Estabilidade econômica e política – o Partido Colorado encabeça o governo de forma praticamente ininterrupta há quase 80 anos –, alíquotas de importação e exportação mais atrativas, simplificação tributária e uma folha salarial com menos encargos trabalhistas são frequentemente apontados por empresários e especialistas como motivos que justificam a migração de ao menos parte da cadeia produtiva de alguns setores para o território paraguaio.
“A diferença é brutal. Enquanto no Brasil a carga tributária está em 34% do PIB, lá eles estão em cerca de 15%. É mais difícil concorrer com um país que está dando incentivos”, compara o advogado Ivson Coêlho, reconhecido pela atuação na área de direito tributário.
Este movimento não vem chamando a atenção apenas da indústria. No início de julho, o empresário varejista Luciano Hang surgiu nas redes sociais rasgando elogios ao Paraguai, a quem chamou de “país incrível” e com um ambiente favorável para quem quer investir e empreender – deixando no ar a possibilidade de construir lojas da Havan para além das fronteiras brasileiras, algo que ele próprio admite que não imaginava. Na política não é diferente. Nesta semana, uma comitiva de representantes do governo de Santa Catarina manteve agendas com autoridades paraguaias de olho em possíveis parcerias comerciais.
Uma das grandes responsáveis pelos holofotes jogados sobre os vizinhos atende por Lei da Maquila. Instituída em 1997, ela é um regime fiscal de adesão que incentiva exportações de produtos com valor agregado. Para isso, há isenção de impostos na importação de matérias-primas e máquinas para empresas que decidem produzir no país. Em troca, elas pagam um tributo único de 1% sobre o valor final da mercadoria que posteriormente vai para o exterior.

Foi um caminho que o Paraguai encontrou para acelerar o desenvolvimento industrial e promover a geração de emprego formal, segundo uma descrição sobre o regime que consta no site do Ministério da Indústria e Comércio local – e que levou o país a um índice de crescimento superior ao de seus vizinhos do Mercosul no ano passado (veja na tabela abaixo). Ao longo de quase três décadas, a legislação da Maquila sofreu uma única alteração mais pontual, em 2025. Isso garante a estabilidade jurídica tão desejada por quem empreende, algo nem sempre encontrado no Brasil.
“Ela (a Maquila) deu aos investidores do Paraguai uma segurança de que as regras do jogo estabelecidas em um primeiro momento continuariam ao longo do contrato com o governo”, avalia Maitê Bustamante, presidente da Câmara de Comércio Exterior da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc).
Já são cerca de 320 empresas consideradas “maquiladoras” no Paraguai, segundo dados públicos do governo local. Sete em cada dez delas têm origem brasileira. No primeiro semestre de 2026, companhias que operam sob esse regime exportaram US$ 717 milhões – algo próximo a R$ 3,6 bilhões –, um crescimento de 25% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Neste cenário, uma estatística se mostra reveladora: 62% dos embarques tiveram o Brasil como destino. Os números sugerem que há indústrias brasileiras que estão aproveitando os benefícios fiscais de lá para abastecer o próprio mercado doméstico.

Um país, estratégias distintas
A Döhler, de Joinville, está estruturando agora uma nova operação fabril em Coronel Oviedo para a produção de roupas de cama destinadas a atender os mercados brasileiro e internacional. Já a Altenburg olhou para o país vizinho um pouco mais cedo do que a maioria. A maior fabricante de travesseiros da América Latina inaugurou em 2018 uma fábrica em Ciudad del Este, a segunda mais importante cidade paraguaia, distante cerca de 300 quilômetros da capital Assunção.
O investimento, na época, somou US$ 500 mil – hoje algo em torno de R$ 2,5 milhões. O foco inicial era faccionar produtos mais básicos que posteriormente seriam finalizados no Brasil. Na época, a expansão foi fruto de uma visão de redução de tributos em meio a uma necessidade maior de importações, conta o presidente Tiago Altenburg. Apesar dos benefícios oferecidos pelo Paraguai, a empresa precisou de algum tempo para ajustar a operação, que exigiu descentralização de custos fixos.

“Não é para qualquer um. Batalhamos dois anos até que o negócio fizesse sentido, buscando equilíbrio entre margem e demanda. Foi um desafio. E aí você precisa de um mix de economia de imposto de importação e volumetria de produto”, avalia o empresário.
A Karsten é um caso mais recente. A empresa abriu em março deste ano uma unidade fabril em Minga Guazú, na região Leste do país. Ainda é uma operação pequena, com cerca de 40 funcionários e dedicada à fabricação de toalhas de banho. Mas que é tratada como um experimento pela direção da companhia, dentro de um processo de internacionalização que começou a ser mapeado entre 2022 e 2023, lembra o presidente Márcio Bertoldi.
“O Paraguai é uma porta de entrada para a América Latina privilegiada, porque mantém relações com seus vizinhos de uma maneira muito amigável. O país também tem sido pouco impactado pelas tarifas e pode até servir de plataforma, se a gente quiser, para o mercado americano”, observa.
O executivo elenca ainda como vantagens menos burocracia na abertura de empresas e na emissão e controle de documentos fiscais, além de um processo mais simplificado de pagamento de impostos:
“Lá parte-se do princípio de que você está fazendo a coisa certa, e não o contrário”.
