O quase centenário albergue da Irmandade Beneficente Manoel Galdino Vieira, localizado em Florianópolis na Avenida Hercilio Luz, há 99 anos, desistiu de ceder o espaço para que organizações sociais promovam a doação de refeições às pessoas em situação de rua.
— Recebemos tantas denúncias, fiscalizações, visitas, questionamentos e exigências, sem sentido, que decidimos encerrar essa parceria — diz Rodrigo Marques, presidente da instituição que completará 100 anos no mesmo local em 2026.
Marques disse, em entrevista à CBN Floripa, que órgãos de controle e ONGs estão cobrando “acessibilidade, mais ventilação e cobertura para esperar a refeição”.
O local existe há quase 100 anos e nunca se questionou nada parecido e funcionou de forma plena. Oferece banheiro, local para lavar as mãos, mesas e cadeiras para comer de forma digna, mas há quem pense que comer na rua é melhor do que fazer as refeições em um local com infraestrutura mínima essencial.
— O que está em jogo não é ajudar os PSRs, mas o controle social da rua — aponta Marques.
Em setembro de 2025 o prefeito Topazio Neto assinou o decreto que instituiu o programa Marmita Legal, com regras para doações de alimentos. A ideia é que as doações de marmitas não ocorram nas ruas, mas em ambientes fechados, com mesa, cadeira, banheiro, enfim, o que qualquer cidadão que tem casa, como você leitor ou leitora, faz na hora sagrada de suas refeições.
Evidente que a ideia poderia ser aperfeiçoada, pensando numa efetiva descentralização dos locais de distribuição dos alimentos. A Defensoria Pública conseguiu na Justiça suspender o decreto, em março de 2026. Em agosto, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) publicou uma decisão revertendo a suspensão.
Leia o relato do presidente da Irmandade:
Escrevo como presidente da Irmandade Beneficente Manoel Galdino Vieira, mas principalmente como cidadão de Florianópolis, frustrado e entristecido.
Abrimos gratuitamente as portas do Albergue para que grupos de voluntários, responsáveis pelo fornecimento e pela distribuição das refeições, pudessem atender pessoas que antes recebiam comida nas ruas, permitindo que fizessem sua refeição com um mínimo de dignidade: sentadas à mesa, protegidas da chuva, com sanitários, higiene, Assistência Social e presença da Segurança/Ordem Pública.
O Albergue nunca recebeu nada por isso. Pelo contrário: nós pagávamos para ajudar — água, energia, limpeza, manutenção e toda a estrutura eram custeadas pela própria instituição.
O resultado fala por si: 26.354 refeições distribuídas por grupos de voluntários em 133 noites, média de 198 pessoas atendidas por noite.
O modelo foi construído conjuntamente com os grupos, Prefeitura e Defensoria Pública, com regras mínimas para permitir seu funcionamento. Mesmo assim, uma iniciativa exclusivamente humanitária passou a conviver com sucessivas denúncias, fiscalizações, visitas, questionamentos e exigências. Chegamos ao ponto em que continuar fazendo gratuitamente algo que ainda gera custos para quem ajuda deixou de fazer sentido.
Por isso, a decisão está tomada: o Albergue encerrará a cessão gratuita desse espaço e o utilizará em outras atividades da própria instituição.
E deixo uma reflexão muito simples com perguntas incômodas:
O meio-fio tem mesa e cadeira?
A rua protege da chuva?
Tem sanitário?
Tem Assistência Social?
Tem Segurança Pública para proteger quem está na fila?
É realmente mais digno voltar a comer na calçada?
Nós acreditávamos que não. Foi exatamente por isso que abrimos nossas portas.
As refeições continuarão sendo distribuídas pelos grupos de voluntários. A diferença é que parte delas voltará para a rua — sem toda a estrutura que conseguimos criar.
Todos perdem. Perde quem precisa da refeição. Perdem os grupos. Perde a Assistência Social. Perde a Segurança Pública. Perde o Albergue. E perde Florianópolis.
Não sou contra fiscalização. Muito pelo contrário. Mas quando ajudar voluntariamente se torna tão burocrático, oneroso e conflituoso que a melhor alternativa passa a ser simplesmente deixar de ajudar daquela forma, alguma coisa está errada.
Como presidente de uma instituição quase centenária e, sobretudo, como cidadão desta cidade, é profundamente frustrante chegar a essa conclusão:
Lamentavelmente, neste caso, a burocracia venceu a caridade.
Continuaremos ajudando. Mas direcionaremos nosso patrimônio, nosso trabalho e nossos recursos para onde nossa energia possam efetivamente produzir resultados.
A caridade precisa ser responsável. Mas também precisa ser possível.
