O que falta para a direita moderada brasileira deixar de ser refém do bolsonarismo? Perder a terceira eleição presidencial consecutiva? A fuga vexatória do senador Flávio para os Estados Unidos é mais um sinal do modus operandi do clã em situações de aperto: fugir e desrespeitar o rito legal. Foi assim com Flávio e já havia sido assim com Jair, após o resultado da eleição de 2022.
Num tom persecutório, açodado, fora do timing e sem o aval do Ministério Público, a determinação do ministro Alexandre de Moraes — que atendeu ao pedido da Polícia Federal e decidiu pela entrega do passaporte do candidato derrotado na mesma noite em que foi divulgado o resultado da votação — reforça a tese bolsonarista de perseguição política. E faz sentido. Fica com cara de jogada ensaiada.
O mesmo ministro, envolvido até o pescoço em função do contrato que o escritório de sua esposa firmou com o Banco Master, e sobre o qual o próprio STF ainda não decidiu se abrirá inquérito para apurar o escândalo, saiu da toca logo após a divulgação do resultado que deu a vitória a Lula. Com o aliado do Planalto reeleito, Moraes se sentiu à vontade para seguir com seus abusos.
Mesmo assim, a fuga de Flávio representa mais do que o distanciamento dos cerca de 60 milhões de eleitores que o escolheram; significa a inviabilidade de liderar a oposição. Não se lidera a oposição fazendo lives direto da Flórida.
Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, caso tivesse sido o escolhido da direita, teria vencido Lula com folga no primeiro turno. Aliás, isso foi algo que o próprio Flávio quase conseguiu, tamanha é a rejeição ao PT.
O grande dilema é que as urnas mostraram que, até agora, não há muita chance de sucesso para nomes de direita fora do partido de Bolsonaro. Ou a direita se mobiliza para se afastar de Bolsonaro, ou Lula poderá escolher até um “poste” e manter a hegemonia petista no Planalto.
O bolsonarismo exige fidelidade canina e sem questionamentos. Quem questiona ou pensa diferente é tratado como traidor. Existe um acordo de fidelidade eterna de Tarcísio com Jair Bolsonaro? O acordo valia apenas até 2026, abrindo chance para uma carreira solo depois?
São essas respostas que irão definir 2030. Por enquanto, apertamos os cintos.
