Como não temos certeza de que vamos ganhar a Copa do Mundo, o Brasil já devia começar a ensaiar sua volta aos dias comuns.
Aqueles que, por causa de uma bola, não se transformam em meio-feriado ou no tão brasileiro “ponto facultativo”. Ou seja, o “feriado inteiro”, uma completa licença para enforcar o “batente”.
O país sempre esteve perfeitamente adaptado a camuflar suas pequenas e grandes tragédias atrás do biombo do “eufemismo”. O ato de abrandar e suavizar a expressão de um conceito, mediante a substituição da palavra própria por outra mais agradável.
Em que outro lugar do planeta existe a profissão de “Guardador de Veículos Automotores”? Ou “Lustradores Manuais de Pisantes de Couro”? Em que éden trabalhista operam tantos “Comerciantes Autônomos Itinerantes e Não Registrados”, também conhecidos pela alcunha de “Camelôs”?
Claro, há certas profissões que acabam acontecendo à revelia do “mercado”, como a de “Arrecadadores Compulsórios de Bens e Valores em Domicílio”, que a Polícia insiste em chamar de arrombadores de residências e os “Recolhedores de recursos financeiros em Caixas Automáticos”, que os homens da lei batizaram de “Explosão de bancos” ou “Sequestro relâmpago”.
Fora esses exemplos, digamos, atípicos, o mercado de trabalho no Brasil vai de mal a pior. Em que outro eldorado trabalhista haverá a peculiar profissão de “Despachante”?
Não há brasileiro que não precise de um “despacho” no seu sentido amplo ou estrito. Desde a sua semântica mais comum – “decisão, sentença, resolução”, até o seu significado administrativo, o de “desembaraço de papéis”.
“Despachar” é um verbo que se permite aos mais variados empregos, num país de desempregados. Há despachos muito importantes. Como um despacho com o Presidente da República”. Ou o despacho da “Mãe Malvina”, que não deixa de ser um despacho importante no seu sentido místico-transcendente, com amplas repercussões no astral dos viventes.
Num país de burocracia tentacular, um despachante pode até enriquecer. Seria facílimo adivinhar a prosperidade do despachante que se especializasse na redação de documentos do cotidiano.
Modelos de requerimentos, atestados, essas coisas, sem as quais o brasileiro não respira. Algo muito mais revolucionário do que os antigos “Atestados de Vida”, “Boa Conduta” ou “Idoneidade Moral”.
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