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    Cientistas: Relaxar isolamento em SC não tem respaldo científico e vai facilitar disseminação do coronavírus

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    Por Dagmara Spautz
    27/03/2020 - 18h16 - Atualizada em: 27/03/2020 - 18h38
    Atendimento a paciente com coronavírus (foto: Piero Cruciati, AFP)
    Atendimento a paciente com coronavírus (foto: Piero Cruciati, AFP)

    Um manifesto assinado por mais de 50 entidades científicas, acadêmicas e de saúde, e publicado no fim da tarde desta sexta-feira (27), mostra que há preocupação entre os pesquisadores com a decisão do governador Carlos Moisés (PSL) de estabelecer o Plano Estratégico de Retomada das Atividades Econômicas, que resultará no relaxamento gradual da quarentena a partir da semana que vem.

    O texto afirma que as medidas tomadas pelo Estado de Santa Catarina "não encontra respaldo nas evidências científicas disponíveis", não tem justificativas epidemiológicas, e tem potencial para causar uma "explosão de infecções, hospitalizações e mortes".

    O alerta segue, dizendo que o número de casos novos de covid-19 cresce diariamente em SC desde o dia 14 de março, sem trégua, e que a situação do país inspira cuidados. "A disseminação do vírus não está controlada e não há evidências de que já tenhamos conseguido achatar a curva de crescimento de casos novos, que até o momento é semelhante às de Itália e Espanha, onde tem havido muitas mortes".

    Os cientistas afirmam, ainda, que a proposta do governo de SC "facilitará a disseminação do vírus, com mais pessoas doentes e mais necessidade de leitos de UTI". E ressalta, que não foram apresentados parâmetros de projeção de internações que justifiquem a retomada das atividades econômicas neste momento.

    "O caminho desenhado nesse momento por SC se mostrou desastroso em outros contextos internacionais", diz o manifesto. Os cientistas afirmam que o enfrentamento à emergência sanitária não deveria envolver antagonismo entre ciência e economia. "A conduta a ser encaminhada pelos gestores públicos é aquela que protege a vida de seus cidadãos e suporta a economia mediante políticas eficientes. A estratégia anunciada pode nos transformar no primeiro estado que adotou medidas rigorosas de contenção da pandemia, no primeiro a sair destas medidas e - muito provavelmente - no primeiro a voltar a elas, a um preço muito maior e à custa de vidas de muitos cidadãos".

    André Ramos, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em Santa Catarina, disse que a "guinada" do governo chocou a comunidade científica, que vinha apoiando as medidas de isolamento social determinadas no Estado.

    Ouça a entrevista de André Ramos à CBN Diário:

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    Leia o manifesto na íntegra:

    As entidades científicas, acadêmicas e de saúde que subscrevem este documento manifestam sua preocupação com a divulgação do plano de retomada econômica anunciado pelo Governo do estado em 26 de março de 2020. Entre outras medidas, tal plano prevê a abertura, a partir de 01/04, de diversos setores não essenciais, desde que limitem a entrada de pessoas a 50% da capacidade do estabelecimento, dentre outros condicionantes.

    Tanto quanto os demais setores da sociedade catarinense, as comunidades científica e médico-sanitária de SC também veem com grande preocupação a grave situação da pandemia de COVID-19, seja por seu impacto na saúde ou por seus efeitos econômicos. A ciência, assim como o sistema público de saúde, é diretamente dependente do desenvolvimento econômico, mas é também um de seus mais importantes propulsores. Na era do conhecimento, a ciência, que proporciona as bases para cerca de 96% da inovação produzida no país, é a mesma que dá suporte para proteger e melhorar a vida das pessoas. Em SC temos muitos exemplos disso: de novos anti-inflamatórios à criação de ostras, da fabricação de compressores que não atacam a camada de ozônio à telemedicina mais moderna do Brasil.

    No cenário atual, as medidas de contenção adotadas pelo governo do estado de SC estão suportadas em evidências científicas e por associações acadêmicas e assistenciais. Além das orientações da Organização Mundial da Saúde, diversas sociedades médico-científicas reforçaram, em notas oficiais, a necessidade de continuidade do isolamento social, alertando que qualquer orientação contrária é irresponsável e pode pôr em risco a vida de milhares de pessoas.

    Um artigo publicado na revista Science informa que as medidas drásticas de controle implementadas na China diminuíram substancialmente a expansão da COVID-19. Na Itália, o prefeito de Milão reconheceu que errou ao apoiar a campanha “Milão não para”: o número de mortos na cidade saltou de 12 para mais de 4 mil em poucas semanas. A decisão do governo do estado de SC em relaxar as medidas de isolamento social a partir da primeira semana de abril não encontra respaldo nas evidências científicas disponíveis.

    Não há justificativas epidemiológicas para sustentar essa opção e ela tem o potencial de causar a explosão de infecções, hospitalizações e mortes no estado. O número de casos novos da COVID-19 apresenta crescimento diário em SC desde 14 de março; estamos entre os estados com maior número de casos confirmados no país e a curva continua ascendente.

    Além disso, o Brasil registrou, na terceira semana de março, dez vezes mais internações por insuficiência respiratória grave que o esperado para o período, e foram reportados 100 mil novos casos de COVID-19 no mundo nos dois dias anteriores ao anúncio do governo estadual.

    Ou seja, a disseminação do vírus não está controlada e não há evidências de que já tenhamos conseguido achatar a curva de crescimento de casos novos, que até o momento é semelhante às de Itália e Espanha, onde tem havido muitas mortes.

    Também não podemos considerar que o sistema de saúde esteja preparado para receber a quantidade de pessoas que podem necessitar de cuidados intensivos. A proposta do governo de SC facilitará a disseminação do vírus, com mais pessoas doentes e mais necessidade de leitos de UTI. Essas são as evidências aprendidas com outros países e não há contraposição a elas. Apesar disso, não se tem conhecimento sobre qual a estimativa de casos novos e quantos precisarão ser hospitalizados. Existem projeções? Quais são? Que parâmetros de modelagem o estado está utilizando para embasar tão séria decisão? O estado tem 785 leitos de UTI, com ocupação média de 80%.

    Já são 474 casos confirmados, mas o número certamente é maior em função da baixa testagem. Estimativa de pesquisadores britânicos projeta cenário dramático para o Brasil, caso as estratégias de controle não sejam adequadas e haja grande contaminação. Para SC, que está sendo colocada na rota de baixo cuidado, as estimativas projetam necessidade de leitos hospitalares e demais equipamentos muito além do que há disponível.

    O estado tem mais idosos que a média do país – 17% da população total – e poucos deles vivem sozinhos. Nesse momento, a capacidade instalada e a disponibilidade de insumos não permitem a testagem em massa para identificar todos os casos, de modo a permitir isolamento apenas dos grupos de risco, pois não sabemos se eles estarão ou não em contato com portadores sem sintomas. Dados da própria Secretaria Estadual da Saúde de SC apontam que a doença ocorre mais frequentemente entre pessoas de 30 e 39 anos. Dados internacionais mostram que há muitos infectados jovens sem sintomas. Não há como ter um isolamento efetivo de grupos de risco nessas condições.

    As evidências já são cristalinas sobre a alta capacidade que o vírus tem em se disseminar, de causar hospitalizações e mortes nos pacientes que requerem internação. O caminho desenhado nesse momento por SC se mostrou desastroso em outros contextos internacionais. No enfrentamento à emergência sanitária causada pela COVID-19, não deve haver antagonismo entre a melhor evidência científica e a melhor ação para o estímulo econômico. A conduta a ser encaminhada pelos gestores públicos é aquela que protege a vida de seus cidadãos e suporta a economia mediante políticas eficientes. A estratégia anunciada pode nos transformar no primeiro estado que adotou medidas rigorosas de contenção da pandemia, no primeiro a sair destas medidas e – muito provavelmente – no primeiro a voltar a elas, a um preço muito maior e à custa de vidas de muitos cidadãos.

    MAIS QUE NUNCA, É HORA DE CONFIAR NA CIÊNCIA".

    Assinam esse manifesto em 27 de março de 2020:

    Secretaria Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência de SC – SBPC-SC Departamento de Saúde Pública – CCS/UFSC Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco Associação Brasileira de Saúde Mental – Abrasme Associação Brasileira de Enfermagem – ABEN/SC Sociedade Brasileira de Bioética – Regional SC Sociedade Brasileira de Virologia – SBV Sociedade Brasileira de Imunologia – SBI Direção do Centro de Ciências da Saúde – CCS/UFSC Direção do Centro de Ciências Biológicas – CCB/UFSC Direção do Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFH/UFSC Direção do Centro de Ciências Físicas e Matemáticas – CFM/UFSC Direção do Centro de Ciências da Educação – CED/UFSC Direção do Centro de Ciências, Tecnologias e Saúde de Araranguá – CTS/UFSC Direção do Centro Tecnológico de Joinville – CTJ/UFSC Direção do Centro de Ciências Rurais de Curitibanos – UFSC Direção do Centro de Desportos da UFSC – CDS/UFSC Direção do Centro de Ciências Agrárias – CCA/UFSC Direção do Centro Sócio-Econômico – CSE/UFSC Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva – PPGSC/UFSC Programa de Pós-Graduação em Saúde Mental e Atenção Psicossocial – MPSM/UFSC Programa de Pós-Graduação em Nutrição – PPGN/UFSC Programa de Pós-Graduação em Linguística – PPGL/UFSC Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e do Desenvolvimento – UFSC Programa de Pós-Graduação em Biologia de Fungos, Algas e Plantas – UFSC Programa de Pós-Graduação em Bioquímica – UFSC Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia e Biociências – UFS

    Programa de Pós-Graduação em Ecologia – UFSC Programa de Pós-Graduação em Farmacologia – UFSC Programa de Pós-Graduação Multicêntrico em Ciências Fisiológicas – UFSC Programa de Pós-Graduação em Neurociências – UFSC Mestrado Profissional em Perícias Criminais Ambientais – UFSC Mestrado Profissional em Farmacologia – UFSC Mestrado Profissional em Ensino de Biologia – UFSC Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia – CCB/UFSC Departamento de Nutrição – CCS/UFSC Departamento de Ginecologia e Obstetrícia – CCS/UFSC Departamento de Patologia – CCS/UFSC Coordenação do Curso de Graduação em Ciências Biológicas da UFSC Coordenação do Curso de Graduação em Farmácia da UFSC Coordenação do Curso de Graduação em Nutrição da UFSC Coordenação Local do Programa de Pós Graduação em Assistência Farmacêutica – associação de IES Núcleo de Promoção e Atenção Clínica à Saúde do Trabalhador – NUPAC-ST/UNESC Núcleo de Estudos e Pesquisas em Saúde do Trabalhador – NUPEST/UNESC Núcleo de Pesquisa de Nutrição em Produção de Refeições – NUPPRE/UFSC Núcleo de Estudos em Linguística Aplicada – NELA/UFSC Núcleo de Pesquisa e Extensão em Bioética e Saúde Coletiva – NUPEBISC/UFSC Grupos de Estudos em Linguagem, Cognição e Educação – GELCE/UFSC Grupo de Pesquisa em Farmacoepidemiologia – SPB/CCS/UFSC Grupo de Pesquisa em Política de Saúde – GPPS/CCS/UFSC Laboratório de Águas Urbanas e Técnicas Compensatórias – Lautec/UFSC Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Florianópolis – SINTRASEM Fórum Saúde e Segurança do Trabalhador no Estado de Santa Catarina – FSST/SC

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