Devastada pela crise mundial no setor do petróleo, agravada, no Brasil, pela Operação Lava Jato, a indústria naval offshore catarinense amarga altos índices de desemprego e escassez de trabalho. Só este ano, perto de 600 trabalhadores perderam o emprego, conforme as encomendas antigas foram sendo entregues. Mas a aposta em novas frentes de trabalho e a recuperação do preço dos barris de petróleo traz, pela primeira vez desde 2014, sinais de que o período de mar revolto na construção naval está chegando ao fim.
Na semana passada o estaleiro Detroit Brasil, em Itajaí, lançou o último de uma série de sete rebocadores recém-construídos, embarcações que impulsionam os navios durante as manobras e serão usadas nos portos de Santos e Itapoá. Embarcações como essas não eram prioridade indústria naval catarinense, especializada, principalmente, em navios do tipo supply, que carregam suprimentos para plataformas de petróleo. A encomenda, de R$ 220 milhões, foi feita pela Aliança, empresa de navegação do grupo Maersk.
Juliano Zimmermann de Freitas, diretor financeiro do Detroit Brasil, diz que a construção só foi possível porque o estaleiro hoje tem espaço para apostar em projetos diferentes. Durante o período de “vacas gordas” de encomendas para o setor petrolífero, o Detroit processou 12 mil toneladas de aço por ano na construção de novas embarcações. Como são projetos de longo prazo, o estaleiro trabalhou em capacidade máxima de 2010 a 2017. Hoje, a produção limita-se a 25% da capacidade total.
_ Poucos estaleiros continuam construindo no Brasil. Nós tivemos 75% de redução da demanda, mas enxergamos uma retomada do segmento de logística, com mudança de foco, de tipos de navios e de utilização _ diz.
A empresa reduziu mil vagas de emprego nos últimos anos, mas manteve-se ativa. Em Itajaí e Navegantes, que formam juntas o polo da indústria naval no Estado, o número de trabalhadores reduziu 60% nos últimos quatro anos: de 10 mil vagas durante o “boom” do setor no país, quando os estaleiros anunciavam trabalho em carros de som pelas ruas de Itajaí, para menos de 4 mil atualmente. Em todo o país, 60 mil postos de trabalho fecharam nos últimos anos na construção naval.
Leilões apontam saída
Segundo informações do Sindicato da Indústria de Construção Naval de Itajaí e Navegantes (Sinconavin), dos cinco grandes estaleiros ativos em Santa Catarina, parte está em período de “hibernação”: não têm produção ativa, mas não desmobilizaram o parque industrial na expectativa de uma retomada próxima. É o caso do sul-coreano Keppel Singmarine, instalado em Navegantes.
Há motivos para que as empresas evitem fechar as portas de vez. O barril do petróleo, que caiu vertiginosamente a partir de 2014 e chegou a US$ 25, gerando a crise mundial do setor, foi vendido nas últimas semanas a US$ 85. No Brasil, os recentes leilões de campos de exploração também trazem uma perspectiva otimista.
_ Os leilões têm um lapso temporal para começarem a produzir resultado, e ele varia muito de acordo com a maneira como (o contrato) foi feito. Mas sinalizam de forma positiva, temos uma expectativa de melhora para o futuro _ diz Rafael Theiss, presidente do Sinconavin.
Por enquanto, além do período de maturação dos contratos, o período eleitoral também contribui para incerteza quanto ao tempo que falta para a retomada das encomendas para o setor do petróleo. Grande parte dos investidores são empresas internacionais, que aguardam o resultado do pleito e as políticas de governo para tomarem decisões sobre os investimentos futuros.
O Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval) entregou aos candidatos à Presidência da República, ainda no primeiro turno, uma cartilha com propostas para evitar que o setor naufrague em políticas públicas equivocadas. Dos 28 estaleiros associados ao sindicato atualmente, 12 estão parados.
O Sinaval cobra uma política de Estado que estimule o setor para evitar um desmonte semelhante ao ocorrido na década de 1980, quando quase todos os estaleiros brasileiros fecharam as portas, e uma mão de obra altamente especializada ficou à míngua. De acordo com Theiss, do Sinconavin, os estaleiros catarinenses não tiveram novas encomendas do setor petroleiro desde 2015.
A Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) também defendeu no ano passado, por meio do Movimento Produz Brasil, a instituição de uma política industrial para reverter a queda na produção dos estaleiros, com regulamentações para que a cadeia nacional de fornecedores ganhe competitividade frente ao mercado mundial. A Fiesc ainda não recompôs o Comitê de Petróleo e Gás após a mudança de diretoria, este ano.
O fato é que, com novas frentes de trabalho em campos de exploração de petróleo e gás, as encomendas tendem a voltar gradativamente aos estaleiros. As previsões apontam para retomada em um período de dois anos.
Reparos ocupam mão de obra
Enquanto um novo período de crescimento não chega, os estaleiros offshore catarinenses também apostam na chamada docagem, a manutenção de embarcações que estão em atividade. Na última década, por falta de espaço devido às encomendas para o setor de petróleo, Santa Catarina abriu mão desse tipo de trabalho. O resultado foi a migração dos reparos para estaleiros do Rio de Janeiro.
_ A indústria naval está inaugurando esse ciclo de reparos como produto, algo que não se trabalhava há pelo menos 10 anos em SC _ diz o diretor financeiro do estaleiro Detroit Brasil.
Em agosto a Petrobras anunciou que pretende fazer docagem de 17 de seus navios no ano que vem, um negócio que pode atingir “alguns milhões de dólares”, conforme disse na época o gerente executivo de Logística da estatal, Claudio Mastella _ e ajudar a manter empregos enquanto as novas encomendas não vêm.
Em Santa Catarina, onde a capacidade de produção dos estaleiros é muito maior do que a demanda atual, é pouco provável que o parque industrial cresça nos próximos anos. Mas, num cenário de retomada, espera-se a reativação das vagas de trabalho em um setor que tem limites de mecanização, o que favorece a mão de obra especializada.
Freitas, do estaleiro Detroit Brasil, comenta que há estaleiros que estão há dois anos sem qualquer atividade, mas com conhecimento técnico e capacidade de investimento para retomar a construção naval a qualquer momento.
_ Itajaí e Navegantes têm uma cultura de construção naval muito arraigada, com excelência de mão de obra. O grande impacto que esperamos ter (com o reaquecimento do setor de petróleo) é a retomada do emprego.
60%
Foi o volume de queda de empregos na indústria naval em Santa Catarina desde 2014. De 10 mil vagas, passamos para menos de 4 mil
600
Trabalhadores do setor de construção naval offshore perderam o emprego só este ano em Itajaí e Navegantes, onde fica o polo do setor no Estado
128%
Foi o quanto cresceu a indústria naval brasileira entre 2002 e 2013. O Programa de Modernização e Expansão da Frota da Transpetro (Pronef), lançado em 2004, e o anúncio da descoberta do pré-sal, em 2007, foram responsáveis pela chegada de multinacionais ao país
74
Empresas ligadas à indústria naval offshore atuam em Itajaí e Navegantes. Apenas 3 estaleiros respondem por 90% das atuais vagas de emprego no setor em Santa Catarina.
Linha do tempo
2007 – A Petrobras anuncia a descoberta de petróleo na camada do pré-sal. A notícia traz perspectivas de crescimento à indústria naval offshore
2008 – É extraído o primeiro barril de petróleo do pré-sal. Os estaleiros Itajaí e Detroit Brasil anunciam investimento de R$ 25 milhões para suprir a demanda por novas embarcações de apoio à exploração de petróleo
2010 – O grupo Keppel Offshore & Marine, de Singapura, compra o estaleiro TWB, em Navegantes, que passa a se chamar Keppel Singmarine. A expectativa de investimento em ampliação é de R$ 50 milhões
2012 – O fundo de investimentos P2 Brasil anuncia a construção do estaleiro Oceana, em Itajaí, que teria a pedra fundamental lançada no ano seguinte. A previsão de investimentos era de R$ 670 milhões
2014 – O preço do petróleo começa a cair internacionalmente, um prelúdio de problemas com a produção local. Ao mesmo tempo, tem início a Operação Lava Jato, que traria uma crise de confiança à Petrobras
2015 – O preço do barril no mundo cai vertiginosamente, e as encomendas do setor de petróleo estancam. Nesse período, 1,8 mil trabalhadores da metalúrgica portuguesa Amal, instalada em Itajaí para atender à produção offshore, são dispensados. Nos meses seguintes, as demissões se espalham por todas as empresas do setor
2016 – O número de trabalhadores do setor naval offshore em Itajaí e Navegantes cai pela metade
2017 – A Huisman Brasil, braço catarinense da gigante holandesa Huisman, especializada em equipamentos para exploração de petróleo e gás, anunciou o fim das atividades em Navegantes e coloca a estrutura em stand by
2018 – Estaleiros apostam em serviços de docagem (manutenção) e na construção de embarcações voltadas a outros setores navais. Há expectativa de retomada das encomendas para o setor petroleiro