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Indústria naval catarinense ganha fôlego em meio à crise e projeta crescimento 

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Por Dagmara Spautz
16/10/2018 - 08h28 - Atualizada em: 16/10/2018 - 08h28
Rebocador (Foto: Betina Humers)

Devastada pela crise mundial no setor do petróleo, agravada, no Brasil, pela Operação Lava Jato, a indústria naval offshore catarinense amarga altos índices de desemprego e escassez de trabalho. Só este ano, perto de 600 trabalhadores perderam o emprego, conforme as encomendas antigas foram sendo entregues. Mas a aposta em novas frentes de trabalho e a recuperação do preço dos barris de petróleo traz, pela primeira vez desde 2014, sinais de que o período de mar revolto na construção naval está chegando ao fim.

Na semana passada o estaleiro Detroit Brasil, em Itajaí, lançou o último de uma série de sete rebocadores recém-construídos, embarcações que impulsionam os navios durante as manobras e serão usadas nos portos de Santos e Itapoá. Embarcações como essas não eram prioridade indústria naval catarinense, especializada, principalmente, em navios do tipo supply, que carregam suprimentos para plataformas de petróleo. A encomenda, de R$ 220 milhões, foi feita pela Aliança, empresa de navegação do grupo Maersk.

Juliano Zimmermann de Freitas, diretor financeiro do Detroit Brasil, diz que a construção só foi possível porque o estaleiro hoje tem espaço para apostar em projetos diferentes. Durante o período de “vacas gordas” de encomendas para o setor petrolífero, o Detroit processou 12 mil toneladas de aço por ano na construção de novas embarcações. Como são projetos de longo prazo, o estaleiro trabalhou em capacidade máxima de 2010 a 2017. Hoje, a produção limita-se a 25% da capacidade total.

_ Poucos estaleiros continuam construindo no Brasil. Nós tivemos 75% de redução da demanda, mas enxergamos uma retomada do segmento de logística, com mudança de foco, de tipos de navios e de utilização _ diz.

A empresa reduziu mil vagas de emprego nos últimos anos, mas manteve-se ativa. Em Itajaí e Navegantes, que formam juntas o polo da indústria naval no Estado, o número de trabalhadores reduziu 60% nos últimos quatro anos: de 10 mil vagas durante o “boom” do setor no país, quando os estaleiros anunciavam trabalho em carros de som pelas ruas de Itajaí, para menos de 4 mil atualmente. Em todo o país, 60 mil postos de trabalho fecharam nos últimos anos na construção naval.

Rebocador
Rebocador
(Foto: )

Leilões apontam saída

Segundo informações do Sindicato da Indústria de Construção Naval de Itajaí e Navegantes (Sinconavin), dos cinco grandes estaleiros ativos em Santa Catarina, parte está em período de “hibernação”: não têm produção ativa, mas não desmobilizaram o parque industrial na expectativa de uma retomada próxima. É o caso do sul-coreano Keppel Singmarine, instalado em Navegantes.

Há motivos para que as empresas evitem fechar as portas de vez. O barril do petróleo, que caiu vertiginosamente a partir de 2014 e chegou a US$ 25, gerando a crise mundial do setor, foi vendido nas últimas semanas a US$ 85. No Brasil, os recentes leilões de campos de exploração também trazem uma perspectiva otimista.

_ Os leilões têm um lapso temporal para começarem a produzir resultado, e ele varia muito de acordo com a maneira como (o contrato) foi feito. Mas sinalizam de forma positiva, temos uma expectativa de melhora para o futuro _ diz Rafael Theiss, presidente do Sinconavin.

Por enquanto, além do período de maturação dos contratos, o período eleitoral também contribui para incerteza quanto ao tempo que falta para a retomada das encomendas para o setor do petróleo. Grande parte dos investidores são empresas internacionais, que aguardam o resultado do pleito e as políticas de governo para tomarem decisões sobre os investimentos futuros.

O Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval) entregou aos candidatos à Presidência da República, ainda no primeiro turno, uma cartilha com propostas para evitar que o setor naufrague em políticas públicas equivocadas. Dos 28 estaleiros associados ao sindicato atualmente, 12 estão parados.

O Sinaval cobra uma política de Estado que estimule o setor para evitar um desmonte semelhante ao ocorrido na década de 1980, quando quase todos os estaleiros brasileiros fecharam as portas, e uma mão de obra altamente especializada ficou à míngua. De acordo com Theiss, do Sinconavin, os estaleiros catarinenses não tiveram novas encomendas do setor petroleiro desde 2015.

A Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) também defendeu no ano passado, por meio do Movimento Produz Brasil, a instituição de uma política industrial para reverter a queda na produção dos estaleiros, com regulamentações para que a cadeia nacional de fornecedores ganhe competitividade frente ao mercado mundial. A Fiesc ainda não recompôs o Comitê de Petróleo e Gás após a mudança de diretoria, este ano.

O fato é que, com novas frentes de trabalho em campos de exploração de petróleo e gás, as encomendas tendem a voltar gradativamente aos estaleiros. As previsões apontam para retomada em um período de dois anos.

Navios Supply
Navios Supply
(Foto: )

Reparos ocupam mão de obra

Enquanto um novo período de crescimento não chega, os estaleiros offshore catarinenses também apostam na chamada docagem, a manutenção de embarcações que estão em atividade. Na última década, por falta de espaço devido às encomendas para o setor de petróleo, Santa Catarina abriu mão desse tipo de trabalho. O resultado foi a migração dos reparos para estaleiros do Rio de Janeiro.

_ A indústria naval está inaugurando esse ciclo de reparos como produto, algo que não se trabalhava há pelo menos 10 anos em SC _ diz o diretor financeiro do estaleiro Detroit Brasil.

Em agosto a Petrobras anunciou que pretende fazer docagem de 17 de seus navios no ano que vem, um negócio que pode atingir “alguns milhões de dólares”, conforme disse na época o gerente executivo de Logística da estatal, Claudio Mastella _ e ajudar a manter empregos enquanto as novas encomendas não vêm.

Em Santa Catarina, onde a capacidade de produção dos estaleiros é muito maior do que a demanda atual, é pouco provável que o parque industrial cresça nos próximos anos. Mas, num cenário de retomada, espera-se a reativação das vagas de trabalho em um setor que tem limites de mecanização, o que favorece a mão de obra especializada.

Freitas, do estaleiro Detroit Brasil, comenta que há estaleiros que estão há dois anos sem qualquer atividade, mas com conhecimento técnico e capacidade de investimento para retomar a construção naval a qualquer momento.

_ Itajaí e Navegantes têm uma cultura de construção naval muito arraigada, com excelência de mão de obra. O grande impacto que esperamos ter (com o reaquecimento do setor de petróleo) é a retomada do emprego.

60%

Foi o volume de queda de empregos na indústria naval em Santa Catarina desde 2014. De 10 mil vagas, passamos para menos de 4 mil

600

Trabalhadores do setor de construção naval offshore perderam o emprego só este ano em Itajaí e Navegantes, onde fica o polo do setor no Estado

128%

Foi o quanto cresceu a indústria naval brasileira entre 2002 e 2013. O Programa de Modernização e Expansão da Frota da Transpetro (Pronef), lançado em 2004, e o anúncio da descoberta do pré-sal, em 2007, foram responsáveis pela chegada de multinacionais ao país

74

Empresas ligadas à indústria naval offshore atuam em Itajaí e Navegantes. Apenas 3 estaleiros respondem por 90% das atuais vagas de emprego no setor em Santa Catarina.

Linha do tempo

2007 – A Petrobras anuncia a descoberta de petróleo na camada do pré-sal. A notícia traz perspectivas de crescimento à indústria naval offshore

2008 – É extraído o primeiro barril de petróleo do pré-sal. Os estaleiros Itajaí e Detroit Brasil anunciam investimento de R$ 25 milhões para suprir a demanda por novas embarcações de apoio à exploração de petróleo

2010 – O grupo Keppel Offshore & Marine, de Singapura, compra o estaleiro TWB, em Navegantes, que passa a se chamar Keppel Singmarine. A expectativa de investimento em ampliação é de R$ 50 milhões

2012 – O fundo de investimentos P2 Brasil anuncia a construção do estaleiro Oceana, em Itajaí, que teria a pedra fundamental lançada no ano seguinte. A previsão de investimentos era de R$ 670 milhões

2014 – O preço do petróleo começa a cair internacionalmente, um prelúdio de problemas com a produção local. Ao mesmo tempo, tem início a Operação Lava Jato, que traria uma crise de confiança à Petrobras

2015 – O preço do barril no mundo cai vertiginosamente, e as encomendas do setor de petróleo estancam. Nesse período, 1,8 mil trabalhadores da metalúrgica portuguesa Amal, instalada em Itajaí para atender à produção offshore, são dispensados. Nos meses seguintes, as demissões se espalham por todas as empresas do setor

2016 – O número de trabalhadores do setor naval offshore em Itajaí e Navegantes cai pela metade

2017 – A Huisman Brasil, braço catarinense da gigante holandesa Huisman, especializada em equipamentos para exploração de petróleo e gás, anunciou o fim das atividades em Navegantes e coloca a estrutura em stand by

2018 – Estaleiros apostam em serviços de docagem (manutenção) e na construção de embarcações voltadas a outros setores navais. Há expectativa de retomada das encomendas para o setor petroleiro

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O que acontece de mais relevante em boa parte do litoral catarinense, especialmente Itajaí e Balneário Camboriú. Fontes exclusivas e informações de credibilidade nas áreas de política, economia, cotidiano e segurança.

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