Empresa foi fundada por acaso por Marco Aurélio Raymundo, o Morongo
Empresa foi fundada por acaso por Marco Aurélio Raymundo, o Morongo (Foto: Rapha Vaz)

Empresa que começou em Garopaba produzindo roupas de neopreme (wetsuits) para surfar no frio, a Mormaii está comemorando 40 anos. Se tornou uma marca forte no Brasil e exterior com 44 licenças, mais de 5 mil itens, 20 franquias,13 studios fitness e seis quiosques. Fundada por acaso pelo roqueiro e pediatra gaúcho Marco Aurélio Raymundo, o Morongo, a empresa fatura cerca de R$ 300 milhões/ano e está crescendo 20% este ano. Nesta entrevista ele fala do negócio e do profissional focado no social que virou empresário.

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Como a Mormaii chega aos 40 anos?

Como é que nós chegamos aos 40 anos? Vivos! Estamos vivos! Depois de tantas crises que o país passou nesse período, governos, planos econômicos, crise disso, crise daquilo. Poder comemorar 40 anos já é uma glória num país tão complexo, tão difícil, tão mutante. Só isso é uma coisa fantástica.

Quais são as principais razões da força da marca Mormaii?

O que a gente conseguiu foi uma coisa inédita. Antes de mais nada tivemos sorte porque fomos pioneiros. Antes de nós não havia uma outra empresa no Brasil que produzia wetsuit, isto é, roupas para a prática de surfe. Quando você é pioneiro o seu nome passa a ser marcante. Quando tem relevância, quando tem uma storytelling concreta te deixa com uma certa autoridade. Essa história marcante deu aval para o crescimento da marca.

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O que motivou o senhor a abrir a empresa?

Normalmente a dor é que ensina a gemer. Em vim para Garopaba como médico, inspirado nesses médicos sem fronteiras, que vão para as zonas de guerra. Aqui não tinha nada, não tinha água, não tinha luz. Vim fazer um trabalho comunitário, altruísta e a minha única fonte de lazer era o mar. Eu comecei a praticar surfe e as melhores ondas eram no inverno. Eu sentia muito frio e tive que resolver o meu problema particular. Quando eu comecei a resolver esse meu problema, outros amigos também tinham o mesmo problema, precisavam do produto e solicitavam. Durante mais de 10 anos éramos os únicos a fabricar esse tipo de roupa no país. Vinha gente do Brasil inteiro a Garopaba para comprar. Isso ficou marcante, uma história muito bonita.

Quantos produtos a Mormaii oferece ao mercado atualmente?

São milhares. A expansão da marca foi acontecendo naturalmente. Hoje, envolve desde confecções, calçados, bicicletas, óculos, relógios, capacetes, os próprios wetsuits continuam, bonés, cosméticos, equipamentos para ortopedia. Credo! É uma coisa sem fim! (Credo é exclamação de espanto no dicionário gaúcho).

Quem não é surfista, não tem ideia de como funciona essa roupa de neopreme. O senhor pode explicar?

Wetsuit significa roupa úmida. Não é uma roupa seca. A água que entra e fica entre a pele e a roupa esquenta, não permite ou dificulta a entrada de outra água fria. Por isso a pessoa não sente frio.

Há pouco mais de um ano vocês lançaram studios de fitness. Como funcionam?

Nós procuramos criar algo diferente. Não é uma academia de pilates convencional. Não é um método que já existia. Contratamos pessoas do Brasil, Estados Unidos e Alemanha. Foi feito um estudo grande e conseguimos criar um método diferenciado, funcional, bacana. Alguns equipamentos são únicos. Lançamos esses estúdios há mais de um ano. É um negócio que está em franca expansão.

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A Mormaii está entrando no setor imobiliário. Como será esse projeto?

Há algum tempo a Real Urbanismo nos procurou para criar conosco uma maneira nova de viver. Fazer um condomínio onde as pessoas tivessem uma qualidade de vida bacana e conseguissem trabalhar nesse próprio ambiente. Hoje, há os espaços de coworking, só que você tem que sair de casa. Mas com esse mundo moderno, cada vez mais as pessoas vão poder trabalhar da sua própria casa. Esse ambiente da casa precisa ser repensado porque as pessoas não vão chegar somente à noite em casa para dormir. Estamos fazendo o projeto. A ideia é ter unidades em Santa Catarina e no Norte e Nordeste do país. Mas não podemos adiantar nada ainda.

Como é a participação no exterior?

A Mormaii hoje não produz mais nada. Tudo está em cima do licenciamento da marca. Nós ajudamos no licenciamento, no controle de qualidade, numa série de processos que envolve a operação. Vendas para o exterior. Cada licenciado faz as respectivas vendas. Você teria que perguntar para a Grendene o que ela exporta, ou para outra licenciada qualquer. Fora as mais de 40 empresas no Brasil, que trabalham no mercado interno e, eventualmente, também exportam, temos fora do Brasil algumas licenças. No Chile há uma licença onde a pessoa pode importar do Brasil, produzir no Chile ou no oriente para vender no Chile e pode vender do Chile para o Brasil. São várias licenças, dezenas de mercados externos.

Então a Mormaii atua como as grandes grifes?

Sim. Quando você consegue um monte de seguidores, passa a ser uma marca. Como conseguimos isso? Durante esses 40 anos nós patrocinamos dezenas de atletas de diversos segmentos. Fomos três vezes campeões mundiais em windsurfe, sete vezes campeões mundiais de jetsky, duas vezes WKS mundiais de surfe, sete ou oito recordes mundiais em mergulho (apneia). São muitos esportes aquáticos que levaram a nossa marca não só para o Brasil, mas também no exterior. Na Rússia, a Mormaii é mais conhecida no jetsky do que no surfe. Na Europa, é conhecida pelo windsurf. A marca ficou muito abrangente, em diferentes segmentos. Isso nos dá uma relevância.

Mas a empresa se destaca também pela qualidade?

Isso é o mínimo. Isso nem se discute mais. A qualidade foi uma coisa que as empresas tiveram que batalhar 20 anos atrás. Oferecer produtos de qualidade é o mínimo do mínimo. Você não tem a mínima chance se não tiver qualidade. Hoje, por exemplo, fornecemos equipamentos para a Volkswagen da Alemanha. Fornecemos bancos, suportes para cachorrinhos no carro, suporte de neopreme para a cadeirinha do carro ser macia. A Suzuki já fez carros Mormaii no Japão. É muita coisa, tudo com altíssima qualidade. E qualquer problema que acontece, temos o serviço de atendimento ao cliente que foi considerado, nos últimos nove anos, o melhor do Brasil. Se dá qualquer problema, você tem que ter agilidade para resolver. Aí a pessoa é tão bem atendida que fala bem da marca nas redes sociais.

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Como é a equipe da empresa hoje?

Temos de 50 a 60 pessoas só para fazer o controle de todos os serviços prestados pelos parceiros. Também ajudamps no desenvolvimento e na definição de tendências. Sobre o número de postos de trabalho indiretos nós não temos porque são muitos fornecedores, mais de 40. Enquanto um tem mil empregados, outro tem três mil e temos até um parceiro com 20 mil trabalhadores. Alguns produzem também para outras marcas, outros somente para a Mormaii.

Além do Brasil, em quais países a marca faz mais sucesso?

Um dos locais de sucesso é o Chile. E também teve um tempo que nossa fábrica de Garopaba produzia muito para a Rússia. A fábrica que produzia esse equipamento, chegou a ficar dois meses produzindo só para a Rússia.

Como o senhor avalia o ambiente de negócios no Brasil?

O mercado do surfe no país deu uma caída. Mas o surfe no Brasil deu uma crescida. O Brasil, nos últimos três ou quatro anos passou por um momento terrível, uma crise econômica, política e social. Isso se refletiu em diversos segmentos. Ninguém se escapou disso. O surfe, apesar de termos agora campeões mundiais, de estar entrando nas Olimpíadas, mas isso não foi suficiente para compensar a desgraceira que foi a queda terrível do poder aquisitivo do brasileiro, da confiança dos mercados. Fecharam muitas lojas, foi uma tristeza. Mas como falei, estamos vivos. Mais uma fase que a gente supera. Estamos crescendo bastante este ano, 20% no resultado geral e 200% nas vendas pela internet. . Para vendas online montamos um sistema omnichannel, onde todas as nossas lojas, franquias e multimarcas que atuam integradas.

O senhor se arrependeu de deixar a medicina para se tornar empresário?

Não foi uma opção. Eu segui a correnteza, segui a vida. Antes de ser médico eu era músico. Eu tinha uma banda de rock progressista que fazia sucesso no RS. Toco até hoje, canto e sou compositor. Mas num determinado momento da minha vida tive que ser médico. Aí vim para fazer o trabalho de médico aqui em Garopaba. Num determinado momento a empresa começou a crescer e eu empreguei pacientes meus que sofriam de doenças sérias. Eles se tornaram meus primeiros colaboradores. À medida que a cidadezinha foi crescendo, as pessoas vinham para praticar surfe ou comprar os nossos produtos. Aí começaram a vir outros colegas médicos e eu fui passando o meu trabalho para eles. Quando vi passei tudo e fiquei com a empresa. Eu fiz pediatria, mas aqui eu fazia de tudo. Eu sou da turma de 1974 da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Antes de me formar, eu já vinha para Garopaba fazer estágio. Aqui tinha dois bichinhos malditos que prejudicavam a saúde das pessoas, o Ancylostoma duodenale e a Ascaris lumbricoides.Isso me tocou tão profundamente, que quando me formei em medicina resolvi vir para cá para resolver os problemas dessa turma. E o surfe foi surpresa, não foi programado, muito menos como business. Eu nem sabia o que era nota fiscal. Não teve business plan, não teve BNDES, nem empréstimo de banco.

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O senhor já pensa em sucessão para a empresa?

Tenho alguns parceiros à minha volta que são pessoas maravilhosas. Tenho a minha mulher, uma das minhas filhas e meu genro que trabalham na empresa. A outra filha é casada com um ator de Hollywood e mora nos EUA. Mas eu não estou muito preocupado com isso. Só tenho 70 anos, vou durar 170 anos (risos). Minha outra filha é casada com um artista de Holywood e mora nos EUA. Tenho dois netinhos.

Como vocês trabalham o design e a inovação na Mormai?

Temos equipe daqui da Mormaii e nossos licenciados também têm equipes. Uma dessas licenciadas conta com 700 pessoas na área de desenvolvimento. A gente pega alguns deles e traz para cá e nós passamos para eles as tendências. Misturamos o que eles criaram e o que a gente criou sai uma coisa bacana. Tem empresa que não tem departamento de criação. Aí a gente faz. É muito variável. É um outro tempo. Aliás, nesse mundo pós-moderno é tudo diferente, ninguém sabe o que é o certo e o errado.

Muitos médicos que querem ganhar dinheiro hoje evitam começar a trabalhar em cidades pequenas. O que pensa sobre isso?

Essas pessoas começam errado. Você tem que ter uma motivação, um propósito para a vida. A motivação forte gera uma ação muito forte. Isso gera superação. Apesar de eu ter chegado num local que não tinha água, não tinha luz, como eu tinha a motivação forte de transformar essa área num local bacana, a motivação era gigante. O resultado é inusitado. Eu jamais pensei que ia ganhar dinheiro. Eu trabalhei aqui dois anos sem ganhar um centavo. O que as pessoas não entendem que a fórmula é MAR= Motivação, Ação e Resultado. O resultado pode ser financeiro ou uma coisa fantástica. Se você só pensa em resultado, quando chegar na ação você vai desistir. No meu caso o sonho era a motivação. O resto é a vida. Se você quiser partir pelo rabo da coisa, você muito provavelmente não vai encontrar a grana porque você não terá a força motriz para enfrentar todos os obstáculos da vida.

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No início, como foi o seu trabalho?

Quando comecei em Garopaba eu atendia a todos. Quem podia, me trazia um peixinho, uma farinha, meia dúzia de ovos. Os pacientes pagavam quando podiam. Muitos não podiam e não pagavam. É uma história real e linda. É isso que faz a força de uma marca. Por isso me concederam os títulos de Cidadão Garopabense e Cidadão Honorário de Santa Catarina. Nunca fiz pensando em dinheiro. Foi consequência. Missão dada, missão cumprida. O número da Mormaii é 79. Sabe o que é esse número na tabela periódica? Ouro! (risos). Aqui em Garopaba não tem mendigos na rua. Como empresário fui muito mais médico do que se tivesse continuado como médico.

Quem da sua família mais influenciou na sua educação pelo social?

– Meu pai era empresário, minha mãe, dona de casa. Meu pai era sócio de uma empresa de transporte coletivo. Além dos meus pais, meus mestres foram meu padrinho, minha madrinha e minha avó. Eu morei com eles. Essa minha avó era fantástica. Ela nunca ficou num ambiente onde alguém estivesse falando mal de outro alguém. Ela desaparecia. Essa foi uma grande lição de vida para mim.

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