O economista e empreendedor belga Gunter Pauli, conhecido como “Pai da Economia Azul” por ter criado esse conceito de economia para os mares, sugere projetos sustentáveis para melhorar a economia e a mobilidade de Florianópolis. Entre as ideias disruptivas lançadas por ele durante o Summit Cidades, onde fez palestra, estão a implantação de transporte aéreo elétrico e também transporte marítimo elétrico para a Ilha de Santa Catarina.

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Ele é usuário dessas alternativas e lembrou que Antonie Saint-Exupéry escolheu o Campeche, praia do Sul da Ilha de Santa Catarina, para pousar seu avião no início da década de 1930. Agora, Gunter Pauli avalia que isso pode ser feito com aviões elétricos fabricados localmente. Saiba mais sobre esta e outras sugestões na entrevista exclusiva a seguir:

O senhor é conhecido como o “Pai” do conceito “Economia Azul”. O que integra a economia azul?

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– A economia azul trabalha principalmente com essa massa, esse espaço de vida com o qual não fazemos nada, que é a água.  A água concentra 91% de toda vida na terra, mas toda a economia está desenvolvida para a terra.

Então, vejo grande oportunidades de desenvolvimento da economia azul numa ilha como Florianópolis. Eu já vim umas quatro ou cinco vezes ao Brasil e esta é a segunda vez em Florianópolis. Estive aqui anos atrás para uma palestra na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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Veja mais imagens do economista e da sua palestra no Summit Cidades:

Que oportunidades de investimentos o senhor vê para Florianópolis?

– Primeiro, precisamos ver quais são os desafios da cidade, que está numa ilha. Porque quanto você vê uma ilha com problemas de mobilidade, você pensa logo que ela precisa de mais uma ponte, mas necessita de um metrô do mar.

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Você tem que ser muito inovador, mas não só. É óbvio, se você tem mar, você tem que fazer transporte marítimo. Isso porque o transporte pelo mar é muito mais rápido, muito mais fácil, muito menos custoso e pode gerar toda a energia sozinho.

A ideia é ver um problema de mobilidade se transformar em oportunidades de investimento e de desenvolvimento industrial. Quando vejo que você tem mar e sei que você não tem batimetria, você não sabe a profundidade do mapa do mar, você não tem mapa do mar. E se você não tem um mapa, você não tem GPS, não tem dados e você não pode ter uma estratégia de desenvolver para a economia do mar.

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Isso não é uma crítica. Você tem uma grande oportunidade de desenvolver fazendas de dados, coleta de dados do mar, do mar que interessa para Florianópolis.

Você tem um problema de esgoto, você tem um problema de lixo. Mas lixo e esgoto juntos permitem fazer biogás. E assim é possível resolver os problemas da mobilidade, da falta de dados, de lixo e de esgoto, transformando-os em oportunidades que respondam às necessidades da cidade.

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No caso da transformação de lixo em biogás, quem faz isso, normalmente, nas cidades?

– Quem tem a responsabilidade de resolver o destino do lixo e da água residual (esgoto) numa cidade é a prefeitura. Ela que pode decidir e ganhar dinheiro com isso. Hoje, isso é um custo.

Como mudamos de custo para renda? Atualmente, nas cidades de Linköping, na Suécia, e de Busan na Coreia, 15% do orçamento vem da produção de biogás. É uma mudança importante porque, anteriormente, de 10% a 12% do orçamento era custo com água e lixo. Elas mudaram de um orçamento 10% negativo para 15% positivo, o que significa um resultado 25% positivo para a cidade.

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É uma decisão necessária e o resultado vem principalmente da venda de gás. Essa é uma nova competência que a cidade precisa desenvolver, fazer parceria com grupos privados.

Outra sugestão do senhor é o uso de drones marinhos para o monitoramento de baleias. Como pode ser feito?

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– Quando visitamos o Campeche, estivemos no restaurante Tanoa Praia, um espaço com uma bela visão para o mar. Me informaram que a partir do final de julho, as baleias passam a frequentar o mar da região. Mas, vocês também têm navios de cruzeiro passando por aqui.

Nesse caso, você tem que fazer tudo para que a baleia com seu filhote não tenha risco com o navio de cruzeiro. Isso requer geração de dados para identificar cada baleia. Como cada baleia tem uma batida única do coração, é possível fazer um registro acústico de batimentos cardíacos de baleias.

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Isso fazemos com quatro drones de mar. Com essas informações, é possível comunicar aos navios de cruzeiros para que tenham atenção. O navio pode andar mais devagar, com atenção à acústica do mar.

Isso porque no mar você não tem rádio, você não tem GPS. No mar você não tem informação, você não pode falar no mar. No mar, é possível ver numa distância de 20 metros, 50 metros, 100 metros e não mais. Mas a acústica abrange 5 quilômetros.

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E no caso dos drones a serem usados, não é preciso importar. É possível fabricar localmente, por isso surge a oportunidade de uma nova indústria, de novas tecnologias porque para encontrar o batimento do coração da baleia, você precisa de uma tecnologia de filtração do som.

Esse é um projeto que a Universidade Federal (UFSC) pode assumir. Os drones de mar são todos movidos a energia solar. Os drones podem ter comunicação de rádio AM. Assim, não é necessário comunicação de satélite.

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Como funciona essa comunicação no mar?

– É uma comunicação por meio de onda de rádio AM. Para essa comunicação, FM não funciona porque é unidirecional AM é bidirecional. Quando você tem muito mau tempo, muitos raios e trovoadas, o AM sempre funciona. A rádio AM pode fazer conexão via internet, permite usar Whatsapp.

Na sua palestra, o senhor também defendeu o uso intensivo de barcos elétricos e de aviões elétricos. O senhor é usuário de barco elétrico?

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– Em 2008 decidimos produzir o primeiro barco elétrico para fazer uma volta do mundo. E fizemos. No período de 2010 a 2012 fizemos a primeira volta do mundo só com energia solar. Depois, integramos hidrogênio. Geração solar e a hidrogênio. Fizemos a volta do mundo com isso. Hoje, estamos produzindo 100 barcos de hidrogênio e solares. E toda energia solar e de hidrogênio que usamos, geramos localmente.

Onde estão sendo produzidos esses barcos movidos a energia solar e hidrogênio?

-Estamos fabricando em Taiwan, China, Japão, Filipinas e Palau (país do Oceano Pacífico integrado por 300 ilhas). A tecnologia é de uma única empresa, mas em cada local desses foi criada uma indústria.

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O senhor também defende o transporte aéreo com aviões elétricos e destaca o exemplo de Cabo Verde. É um transporte seguro?

– A única maneira de convencer que não é um transporte de alto risco é fazer. Para fazer você precisa de permissão. O Cabo Verde tem permissão, agora, para voar com três aviões, 24 horas por dia, o ano inteiro.

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E isso nos dá uma possibilidade de oferecer a prova que esse avião é seguro, é muito seguro. Mais seguro que aviões comuns porque você não tem combustível, você não tem risco de fogo. É zero risco de fogo.

E como morrem pessoas em acidentes aéreos?  Muita gente morre por impacto e depois, pelo fogo. Avião elétrico não tem fogo. Mas ele anda mais baixo e mais lento. No futuro, vamos ter aviões para atravessar o Atlântico. Será por volta de 2035. Hoje não.

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A ideia de fazer uma linha área nacional em Cabo Verde (país da África) tem sentido porque tem ilhas a distâncias de 25 quilômetros e de 40 quilômetros. A mais distante é de 140 quilômetros. Com isso, podemos ter uma competitividade entre transporte 24 horas por dia de mercancia e de pessoas com o ferry e boat.

O ferry precisa de muito mais energia. O custo do ferry é muito mais alto que o de um avião. O ferry é um transporte marítimo entre ilhas, de curta distância. Por isso, quando vi que vocês têm aeroportos na terra e você quer visitar Campeche, é possível por avião elétrico.

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O Campeche foi a pista de aterrissagem de Saint- Exupéry no Brasil (entre 1929 a 1931). O transporte internacional da França à Argentina passou pelo Campeche. Vocês têm que reiniciar isso. Saint-Exupéry fez esse transporte com avião Latécoère 28. Hoje podemos fazer com aviões elétricos, sem barulho.

Então, o senhor acha que Florianópolis pode ter um transporte aéreo com aviões elétricos em vários pontos?

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– Exatamente. Essa é a minha ideia. Você pode planejar para 2029 se o governo do Brasil der permissão. Em 2029, pode ter uma pequena empresa de aviação. Isso pode ser muito interessante para Florianópolis e, também para Cabo Frio, no Rio de Janeiro.

Esses endereços voltados ao turismo têm uma infraestrutura com transporte caro e difícil.

O avião elétrico, com uso de energia local, pode ser atrativo. É possível fabricar os aviões localmente. É possível montar uma pequena indústria de aviões. Temos o recorde mundial da aviação elétrica e recorde mundial de navegação elétrica. Temos os dois recordes. Nós temos no Guennes Book um recorde de travessia mais rápida com embarcação elétrica no Oceano Atlântico.

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A tecnologia existe e o que precisamos é provar que é fácil conseguir. Se você gera novas tecnologias e você identifica o invisível, você tem um negócio.