A frase de Carl Jung é uma das mais reproduzidas da internet em português. Aparece em legenda de terapia, em post sobre relações difíceis, em conselho para quem não suporta um colega. O sentido que ela carrega nessas aplicações é sempre o mesmo: se alguém te incomoda muito, o problema provavelmente é seu. A passagem de onde ela vem trata de outra coisa, e o desvio é grande o bastante para valer a correção.
O trecho está em “Memórias, Sonhos, Reflexões“, livro publicado em 1962, um ano após a morte de Carl Jung, escrito em parceria com Aniela Jaffé. O assunto do parágrafo é epistemológico: como alguém consegue enxergar aquilo em que está mergulhado. Jung argumenta que sempre é preciso um ponto de apoio externo para exercer crítica, e que isso vale de modo especial para a psicologia, em que o observador está mais envolvido no material do que em qualquer outra ciência.
Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a um entendimento de nós mesmos.
O exemplo que ele desenvolve é nacional, não interpessoal. Jung pergunta como seria possível tomar consciência das peculiaridades do próprio país sem nunca tê-lo observado de fora, e responde que observar de fora significa observar do ponto de vista de outra nação. Ao assimilar uma psique coletiva estrangeira, escreve ele, a pessoa esbarra justamente nas incompatibilidades que constituem o viés e a peculiaridade nacional. Logo depois da frase, ele se dá como exemplo: entende a Inglaterra quando percebe onde ele, suíço, não se encaixa. É um argumento sobre viagem e estranhamento cultural.
Isso não torna a leitura psicológica ilegítima, e vale ser preciso aqui. A projeção, mecanismo pelo qual alguém atribui a outra pessoa um traço próprio que não reconhece, é conceito central em Jung, assim como a sombra, nome que ele dá ao conjunto de características que a consciência não admite. Os dois estão desenvolvidos em outros pontos da obra dele. O que não se sustenta é usar esta passagem específica como se fosse a formulação desse argumento.
Há um detalhe verbal que importa mais que o contexto, e ele costuma desaparecer nas versões reescritas. Jung escreve que a irritação pode levar a um entendimento. Não escreve que leva, nem que toda irritação é espelho. A versão popularizada troca a possibilidade por regra, e essa troca tem consequência prática desagradável: transformada em lei, a frase serve para devolver a queixa a quem reclama. Boa parte do que irrita alguém nos outros é simplesmente o comportamento dos outros, e existem situações em que a irritação é informação correta sobre o ambiente, e não sobre quem sente. Em contextos de abuso ou assédio, dizer a alguém que o incômodo é sombra própria é o oposto de ajudar.
O que a frase oferece, lida com o verbo que ela realmente usa, é mais modesto e mais utilizável. Não diz que você é o problema. Diz que a intensidade da sua reação é um dado disponível, e que vale perguntar por que aquele traço específico, naquela pessoa específica, produz aquele efeito em você e não em quem está sentado ao lado.
