Existe uma pergunta que aparece em quase toda consulta com um bebê que chora demais, que dorme mal ou que não ganha peso. A pergunta é sobre o bebê. O que ele tem, o que está errado com ele, o que se faz para corrigir.
O pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott (1896 a 1971), que atendeu crianças em Londres por mais de quarenta anos, respondeu a essa lógica com uma afirmação que parecia absurda:
Não existe isso de um bebê. Quando você me mostra um bebê, certamente me mostra também alguém que cuida dele.
A formulação não nasceu num livro. Winnicott a apresentou durante uma reunião da Sociedade Britânica de Psicanálise, por volta de 1940, e ele mesmo relata depois que a frase escapou como uma espécie de protesto, quase involuntária, durante uma discussão.
Ele voltaria a ela repetidamente ao longo da obra, e o registro chega ao leitor brasileiro sobretudo pelos textos reunidos em “A Criança e o Seu Mundo” e em ensaios posteriores sobre desenvolvimento emocional.
O contexto importa. Winnicott trabalhou durante a Segunda Guerra com crianças evacuadas de Londres, separadas das famílias e alojadas no interior da Inglaterra. Ele observou de perto o que acontece com um bebê quando o ambiente de cuidado é interrompido, e a conclusão que tirou dali é inseparável dessa experiência.
A frase não é uma metáfora sobre a importância do afeto. É uma afirmação técnica sobre o que se pode ou não observar.
Para Winnicott, um bebê não é uma unidade psicológica isolada que depois entra em relação com alguém. Ele é, desde o início, parte de uma dupla. As funções que o mantêm vivo e organizado, regulação da temperatura, do sono, da fome, da angústia, não estão dentro dele. Estão distribuídas entre ele e quem cuida.
Isso significa que descrever um bebê sem descrever o ambiente de cuidado é descrever metade de um fenômeno. E que muitos sintomas atribuídos à criança são, na verdade, informação sobre o estado da dupla.
Daí vem o conceito mais conhecido dele, o de mãe suficientemente boa. Winnicott não estava propondo um padrão a ser atingido, e sim o contrário: a criança não precisa de cuidado perfeito, precisa de cuidado confiável o bastante para poder falhar em doses toleráveis. É justamente pela falha gradual do ambiente que ela vai construindo recursos próprios.
