Erich Fromm disse: “O homem moderno vive na ilusão de que sabe o que quer, quando na verdade quer aquilo que se espera que ele queira” – a reflexão sobre desejos que não são nossos

Fromm escreveu a frase em 1941, no exílio, tentando entender por que tanta gente havia entregado voluntariamente a própria liberdade. O argumento completo distingue dois tipos de liberdade, e só um deles é o difícil

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Retrato em preto e branco do psicanalista alemão Erich Fromm, de terno e óculos

Erich Fromm publicou "O Medo à Liberdade" em 1941, nos Estados Unidos, para onde emigrou depois de deixar a Alemanha em 1934

Há uma pergunta que parece simples e trava quase todo mundo: o que você quer, se ninguém estiver olhando. A dificuldade não é a ausência de resposta. É que as respostas que aparecem primeiro são quase sempre reconhecíveis, previsíveis, e coincidem de forma suspeita com o que a pessoa deveria querer, dada a idade, a profissão e o meio.

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O psicanalista alemão Erich Fromm (1900 a 1980) formulou o problema assim:

O homem moderno vive na ilusão de que sabe o que quer, quando na verdade quer aquilo que se espera que ele queira.

A passagem está em “O Medo à Liberdade”, livro que Fromm publicou em 1941, nos Estados Unidos, para onde emigrou depois de deixar a Alemanha em 1934.

O livro não é um tratado de psicologia individual. É uma tentativa de responder a uma pergunta política urgente naquele momento: por que sociedades inteiras, tendo conquistado liberdades civis, haviam escolhido entregá-las a regimes autoritários. A tese de Fromm é que a liberdade produz uma solidão e uma responsabilidade que muita gente não sustenta, e que o impulso de fugir dela é comum e previsível.

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A frase sobre querer o que se espera aparece nesse contexto. Ela não descreve um problema de consumo ou de autoconhecimento. Descreve o mecanismo pelo qual a fuga acontece sem que a pessoa perceba estar fugindo.

A citação costuma circular sozinha e vira crítica genérica ao conformismo. O argumento de Fromm tem uma articulação específica que a versão curta perde.

Ele separa a liberdade de e a liberdade para. A primeira é a libertação de amarras externas: da servidão, da autoridade religiosa compulsória, da posição social herdada. É a liberdade que a modernidade entregou, e Fromm a considera uma conquista real.

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A segunda é a capacidade de fazer alguma coisa com isso, de constituir um desejo próprio e sustentá-lo. Essa não vem junto, e Fromm observa que ela exige um trabalho para o qual quase ninguém foi preparado.

O vácuo entre as duas é o que ele chama de medo da liberdade. E é ali que entra o mecanismo da frase: adotar como próprios os desejos disponíveis no ambiente resolve o vácuo instantaneamente. A pessoa não se sente coagida em momento nenhum, porque a coação foi substituída por concordância. Fromm chama esse resultado de pseudovontade, e observa que ela é indistinguível da vontade real por dentro.

Mais de oitenta anos depois, a frase é citada em discussões sobre carreira, redes sociais e consumo, quase sempre desligada do contexto que a produziu.

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Recuperar esse contexto devolve o peso: Fromm não estava falando de escolhas de estilo de vida. Estava tentando explicar como pessoas comuns concordam com coisas que nunca teriam escolhido.

Você pode gostar de ver também que Erich Fromm disse: “O amor imaturo diz: amo você porque preciso de você. O amor maduro diz: preciso de você porque amo você”, a reflexão do psicanalista sobre dependência afetiva.