Esther Perel disse: “O amor gosta de saber tudo sobre você, mas o desejo precisa de mistério” – a reflexão da terapeuta de casais sobre por que a intimidade e a paixão nem sempre caminham juntas

A terapeuta belga Esther Perel passou décadas ouvindo uma queixa que aparecia em casais que se davam bem. Não havia briga, não havia traição, não havia desamor. Havia outra coisa, e ela não tinha nome

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retrato de Esther Perel com licença verificada. Autora viva e em atividade, material majoritariamente protegido.

Esther Perel atende casais há mais de trinta anos e publicou "Inteligência Erótica" em 2006, a partir do padrão que via se repetir no consultório

Existe um relato que aparece com frequência em consultórios de terapia de casal e que costuma ser dito com culpa. A pessoa gosta do parceiro, confia nele, tem uma vida em comum que funciona. E, ainda assim, alguma coisa esfriou. Como não há um problema visível para apontar, a conclusão é quase sempre a mesma: deve ser um defeito da relação, ou dela própria.

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A terapeuta belga Esther Perel, que atende casais há mais de trinta anos, propôs outra explicação:

O amor gosta de saber tudo sobre você, mas o desejo precisa de mistério.

A citação está em “Inteligência Erótica”, livro que Perel publicou em 2006, originalmente em inglês, a partir do que observava no consultório em Nova York.

O ponto de partida do livro é uma constatação incômoda. Casais que construíram intimidade sólida, confiança e previsibilidade, ou seja, exatamente o que se recomenda para uma boa relação, relatavam com frequência a perda do desejo. E casais em situação oposta, instáveis e inseguros, às vezes relatavam o contrário.

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Perel não conclui daí que a instabilidade seja desejável. A conclusão dela é outra: amor e desejo não se alimentam da mesma coisa, e tratá-los como se fossem a mesma necessidade é a origem do impasse.

O argumento tem duas metades, e a frase resume as duas.

O amor, na descrição de Perel, se constrói por aproximação. Ele quer conhecer, prever, acompanhar, reduzir a distância. Quanto mais você sabe sobre a outra pessoa, mais segura fica a relação. É por isso que a intimidade é, com razão, tratada como conquista.

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O desejo funciona de outro modo. Ele depende de alguma distância, de algo ainda não sabido, da percepção do outro como alguém separado e não inteiramente decifrado. Perel observa que muitas pessoas relatam sentir mais atração pelo parceiro justamente quando o veem de fora: trabalhando, conversando com estranhos, fazendo algo que elas não acompanham.

A contradição, portanto, não é sinal de falha. É estrutural. A intimidade que sustenta o vínculo é a mesma que, levada ao extremo, dissolve a distância de que o desejo precisa.

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