Todo mundo conhece alguém que descreve o par ideal como uma lista de faltas: “preciso de alguém mais organizado que eu”, “quero uma pessoa que me tire de casa”, “alguém que me dê a segurança que não tenho”. O outro entra na história como peça de reposição.
Quando a relação começa, a peça funciona por um tempo. Depois, a pessoa organizada vira “controladora”, a que tira de casa vira “inquieta”, a que dá segurança vira “monótona”. A falta continua, só mudou de nome.
Uma frase atribuída a Sócrates propõe outra medida: “O amor não consiste em encontrar em outra pessoa o que te falta, mas em descobrir juntos o que pode te tornar melhor”. A ideia é boa. A autoria, como se verá, é outra história.
Quem foi Sócrates antes desta reflexão?
Sócrates nasceu em Atenas por volta de 470 a.C., filho de um escultor, Sofronisco, e de uma parteira, Fenarete. Não fundou escola, não cobrou por ensinar e não escreveu uma linha. Passava os dias nas ruas e no mercado da cidade, fazendo perguntas a quem se dispunha a responder, segundo o verbete da Stanford Encyclopedia of Philosophy.
Em 399 a.C., foi julgado por impiedade e por corromper a juventude. Condenado, recusou a fuga que os amigos ofereceram e morreu bebendo cicuta. Tudo o que sabemos do seu pensamento vem de três testemunhas: os diálogos de Platão, os Memoráveis de Xenofonte e a caricatura feita por Aristófanes na comédia As Nuvens.
O que Sócrates dizia sobre o amor?
O texto de referência é O Banquete, de Platão. Nele, Sócrates relata o que aprendeu com uma sacerdotisa chamada Diotima. E a primeira lição dela é a oposta da frase que circula: o amor é filho da Carência. Ama-se o que não se tem, o que não se é, aquilo de que se sente falta (200e, na tradução de José Cavalcante de Souza).
Antes disso, no mesmo diálogo, Aristófanes conta o mito das metades: os humanos teriam sido cortados ao meio por Zeus e passariam a vida procurando a parte perdida. É a origem literária do “encontrar em outra pessoa o que te falta”. Sócrates ouve, e não concorda.
O que Diotima diz em seguida é o que mais se aproxima da frase atribuída. O amor não quer só possuir o belo: quer “gerar no belo”, produzir algo. E, quando duas pessoas se encontram nesse desejo, elas educam uma à outra e criam juntas uma virtude que nenhuma tinha sozinha (209b-c).
O que a frase acerta sobre relações?
Mesmo sem ser de Sócrates, a segunda metade da frase propõe uma inversão útil: a relação como projeto compartilhado, não como preenchimento. Na prática:
- A pergunta muda: de “o que essa pessoa me dá” para “o que a gente constrói que eu não construiria só”.
- O erro perde peso: quem não está ali para tapar um buraco não precisa ser perfeito.
- A dependência diminui: se a falta não é a base da relação, a ausência do outro não desmonta a pessoa.
- O crescimento vira critério: a medida de uma boa relação passa a ser quem cada um está se tornando dentro dela.
O que ela não resolve?
A frase não elimina a carência, e Sócrates diria que isso é impossível. Ninguém procura companhia a partir da plenitude. A diferença que Diotima aponta não é entre quem sente falta e quem não sente, mas entre quem espera que o outro preencha e quem transforma a falta em algo feito a dois.
Há também um risco na leitura moderna: “descobrir juntos o que pode te tornar melhor” pode virar cobrança de desempenho dentro do amor. O casal como programa de autodesenvolvimento. Não é disso que o Banquete trata.
Mas Sócrates realmente disse essa frase?
Não há registro. A frase não está em Platão, não está em Xenofonte e não foi localizada em nenhuma edição crítica ou enciclopédia acadêmica. Circula em português e espanhol em sites de citações, sempre sem indicação de obra, diálogo ou passagem.
O mais provável é que alguém tenha condensado, de memória, o contraste entre o mito de Aristófanes e o discurso de Diotima, e o resultado tenha ganhado o nome do personagem mais famoso do diálogo. É um resumo razoável de uma parte do Banquete. Não é uma citação.
Por que essa reflexão continua atual?
A lógica da peça de reposição nunca teve tanto apoio. Aplicativos de relacionamento funcionam por lista de atributos: altura, hábitos, interesses, o que a pessoa “oferece”. O encontro vira compra.
A pergunta que Sócrates faria, se pudesse ler o próprio nome nessa frase, é incômoda: quando você descreve a pessoa que procura, está descrevendo alguém ou está descrevendo os seus buracos? E, se um dia essa pessoa aparecer e preencher todos, o que sobra de você para a relação?
