Cada época tem as doenças que a definem e Byung-Chul Han parte dessa observação para propor que o começo do século 21 não é marcado por infecções, e sim por um conjunto de quadros que ele chama de neuronais. A tese é conhecida no Brasil desde que “Sociedade do Cansaço” foi publicado por aqui, e circula em recorte tão frequente que o argumento original quase sempre se perde no caminho.
O objeto do livro é a passagem de um tipo de sociedade para outro. Na anterior, o poder vinha de fora e operava por proibição: alguém mandava, alguém obedecia. Na atual, segundo Han, a coerção externa foi substituída por um imperativo interno de desempenho. O sujeito não obedece mais a um patrão, obedece a si mesmo, e acredita que isso é liberdade.
A depressão é o adoecimento de uma sociedade que sofre sob o excesso de positividade. Reflete aquela humanidade que está em guerra consigo mesma.
Duas leituras da frase são possíveis, e apenas uma corresponde ao texto. A leitura equivocada entende que a depressão seria um problema social e não um problema de saúde, o que dispensaria tratamento. Não é o que está escrito. Han não discute o que é a depressão de um indivíduo nem como tratá-la, e em nenhum momento sugere que ela seja invenção ou fraqueza. Ele investiga outra coisa: por que determinados quadros se tornaram os característicos desta época, e não de outra. Uma pergunta é clínica, a outra é histórica.
“Excesso de positividade”, no vocabulário dele, também não significa otimismo. Significa ausência de negatividade, isto é, de limite, de interrupção, de resistência externa, daquilo que diz não. Para Han, o sujeito que perdeu a instância que o proibia passa a exigir de si sem parar e sem chegada. É nesse ponto que ele escreve que o sujeito de desempenho está em guerra consigo mesmo e que o depressivo é o inválido dessa guerra. A imagem é dura de propósito: descreve alguém ferido em um conflito, não alguém que escolheu adoecer.
O argumento tem críticos, e vale registrá-los. Especialistas apontam que a obra de Han é ensaística, com base empírica escassa, e que generaliza a partir de uma amostra restrita de sociedades ricas. A tese é uma hipótese cultural influente, não um achado epidemiológico, e não substitui a literatura clínica sobre causas e tratamento.
O que o livro oferece é uma pergunta sobre o ambiente, e ela permanece útil mesmo para quem discorda da resposta. Vale perguntar quanto da exaustão de uma pessoa vem dela e quanto vem do lugar onde ela trabalha, mora e se compara. Isso não é diagnóstico, e não deve ser confundido com um. Depressão e burnout são condições de saúde com tratamento disponível, e quem se reconhece nessa descrição precisa de avaliação profissional, não de uma tese filosófica.
