Frase de Monja Coen: “Felicidade é saber e compreender que tudo está se transformando e que somos um elemento nessa transformação” – a reflexão da líder zen-budista sobre busca

Do ponto de vista do zen, felicidade não é um estado a manter, e a história que ela usa para explicar isso tem mil anos

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Retrato de Monja Coen, preferencialmente em palestra ou em contexto de trabalho, sorrindo.

Monja Coen fundou a Comunidade Zen Budista em São Paulo, em 2001, e é missionária oficial da tradição Soto Zen. (Foto: Reprodução, Instagram, @flowpdc)

Existe uma cobrança que ninguém assinou e todo mundo recebe. Ela chega pelo feed, pela propaganda, pela conversa de elevador, e diz que o estado normal de uma pessoa é estar bem. Tristeza vira sintoma. Cansaço vira falha de gestão. Quem passa uma semana ruim se sente devendo explicação, como se a felicidade fosse o padrão de fábrica e qualquer desvio, defeito. É uma exigência recente, e produz o efeito contrário ao que promete.

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Monja Coen trata dessa cobrança há décadas, e a resposta dela não é o consolo que se espera de uma religiosa. Ela não diz que a felicidade virá se a pessoa se esforçar mais. Diz que a definição está errada. O que se persegue como felicidade, um platô estável de bem-estar, não existe para ninguém, e persegui-lo é justamente o que impede de reconhecer a outra coisa, que existe.

Felicidade é saber e compreender que tudo está se transformando e que somos um elemento nessa transformação. É diferente da ideia de ter um estado de bem-estar inabalável.

A frase foi dita em entrevista ao jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, quando ela falava sobre ansiedade e sobre o livro em que aborda depressão a partir do zen. As duas sentenças fazem trabalhos opostos. A primeira oferece uma definição, e ela é curiosa: felicidade como um ato de compreensão, não como um sentimento. A segunda descarta a definição corrente, e é a que quase ninguém está pronto para ouvir. Bem-estar inabalável não é a meta. É a fantasia que torna a meta inalcançável.

Para explicar, ela contou uma história. Um professor visita um monge acamado e pergunta o que está acontecendo com ele. O monge responde: Buda face sol, Buda face lua. Ela traduz assim: é sempre Buda, sempre um estado de compreensão, mas às vezes se está na luz, às vezes na sombra. Às vezes é dia, às vezes noite. Às vezes alegria, às vezes tristeza. Às vezes saúde, às vezes doença.

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A história não é dela, e vale saber de onde vem. É o terceiro caso do Registro do Penhasco Azul, coletânea de koans compilada na China no século 12, e no original é o grande mestre Mazu quem está doente. O superintendente do templo pergunta como ele está, e a resposta é a mesma. A tradição explica a imagem pela duração: o Buda de face de sol vive mil e oitocentos anos, o de face de lua vive um dia e uma noite. O ponto não é escolher entre os dois. É que a natureza de Buda está nos dois, no que dura e no que passa em uma noite, e que perguntar “o que está acontecendo com o senhor” já pressupõe que doença seja um desvio de algo. Monja Coen adaptou a cena, trocou o mestre por um monge e o superintendente por um professor, mas preservou o mecanismo inteiro.

O que a frase oferece, lida com a história junto, é uma troca de pergunta. Em vez de “como faço para ficar bem”, a pergunta passa a ser “o que estou compreendendo agora, estando assim”. Não é resignação: Monja Coen escreveu um livro inteiro sobre depressão e trata o quadro como condição que pede cuidado, e não como estado de espírito a ser aceito. É outra coisa. É parar de tratar a tristeza como interrupção da vida e passar a tratá-la como uma das faces que a vida tem. Quando o sofrimento é persistente, quem ajuda é um profissional de saúde mental, e a própria autora é explícita sobre isso.

Você pode querer ver também: Mário Sérgio Cortella, filósofo brasileiro: “O conhecimento serve para encantar as pessoas, não para humilhá-las”; a frase que deveria estar na parede de todo chefe que corrige o funcionário na frente dos outros.