Há um tipo de silêncio que muita gente evita a qualquer custo. É o silêncio de um domingo à tarde sem compromisso, o do apartamento vazio quando a série termina, o dos vinte minutos entre chegar em casa e ligar alguma coisa. Nem sempre falta companhia. Falta disposição para ficar sozinho com o próprio pensamento sem interrupção.
Friedrich Nietzsche tratou da solidão como condição de trabalho, não como castigo. Para ele, quem depende do julgamento alheio para saber o que pensa não pensa de fato, apenas repete o que o grupo já aprovou. A independência intelectual, nessa leitura, tem um custo obrigatório, e o custo é ficar sem a validação imediata que a convivência oferece.
O valor de uma pessoa é medido pela quantidade de solidão que ela consegue suportar.
A formulação aparece em contextos reconhecíveis hoje. No trabalho, na pessoa que muda de opinião assim que percebe que está isolada na reunião. Na vida social, em quem aceita programas que não quer para não ficar de fora. Nas redes, no impulso de conferir se a publicação foi bem recebida antes de decidir se valeu a pena publicar. Em nenhum desses casos o problema é gostar de companhia. O problema é precisar dela para saber o que se pensa.
A frase circula amplamente associada ao nome de Nietzsche e é coerente com o que ele escreveu sobre independência, embora não haja registro localizado dela em uma obra específica. Vale registrar que existe uma formulação documentada de estrutura idêntica em “Além do Bem e do Mal“, na qual a força de um espírito se mede pela quantidade de verdade que ele ainda consegue suportar. A versão sobre solidão possivelmente derivou dessa.
A frase não é elogio ao isolamento nem diagnóstico de superioridade de quem tem poucos amigos. Ela não sugere que evitar pessoas seja sinal de profundidade, e essa leitura é a mais comum e a mais equivocada. Suportar solidão não é o mesmo que preferir solidão.
O que a formulação mede é a capacidade de sustentar uma posição própria durante o intervalo em que ninguém a confirma, e esse intervalo existe tanto para quem vive cercado quanto para quem vive só. Quando o isolamento deixa de ser escolha e passa a ser sofrimento persistente, o caminho é procurar um profissional de saúde mental, não transformar a dor em virtude filosófica.
O teste que a frase propõe é mais simples do que parece. Não é quanto tempo você aguenta sem ver ninguém. É quanto tempo você aguenta segurar uma opinião que ninguém ao seu redor ainda comprou.
