Às três da manhã, o problema do trabalho ocupa a vida inteira e a psicologia exemplifica isso em uma frase de Khaneman. Não é um assunto entre outros, é o assunto, e dele dependem a carreira, a estabilidade e o resto. Às nove da manhã, no meio de outra coisa, o mesmo problema volta ao tamanho que sempre teve. Nada mudou nos fatos durante essas seis horas. O que mudou foi a quantidade de atenção que ele recebeu.
Daniel Kahneman, psicólogo israelense que ganhou o Nobel de Economia em 2002 por mostrar que as decisões humanas são sistematicamente enviesadas, deu nome a esse fenômeno: ilusão de foco. E resumiu a ideia em uma frase que ele próprio chamava, com humor, de sua máxima de biscoito da sorte.
Nada na vida é tão importante quanto você pensa que é enquanto está pensando nisso.
O mecanismo é simples e por isso difícil de perceber. O ato de prestar atenção em alguma coisa já aumenta o peso que essa coisa parece ter, independentemente do peso real. Não é exagero emocional nem falta de controle. É o modo como a atenção funciona: o que está sob o foco ocupa o primeiro plano, e o primeiro plano é sempre lido como importante.
Kahneman testou isso com um exemplo que virou clássico. Junto com o pesquisador David Schkade, perguntou a pessoas do Meio-Oeste americano e da Califórnia quem seria mais satisfeito com a vida. Os dois grupos responderam que os californianos, por causa do clima. Quando os pesquisadores foram medir a satisfação declarada, a diferença entre as regiões praticamente não existia. Quem respondia estava pensando no clima no momento da pergunta, e por isso o clima parecia decisivo. Quem vive na Califórnia não passa o dia pensando no clima.
A frase não afirma que nada importa, e essa é a leitura que mais circula. Ela afirma algo mais estreito e mais verificável: a importância que algo parece ter enquanto você está concentrado nele é sempre maior que a importância que ele terá no conjunto da sua semana. Isso vale para o que incomoda e também para o que anima, o que explica por que a conquista esperada entrega menos do que prometia.
Vale usar isso como ferramenta nos momentos em que ela serve. Quando um assunto estiver ocupando tudo, a pergunta útil não é se ele é grave, porque sob foco tudo é. É quanto dele vai sobrar daqui a um mês. Nem sempre a resposta alivia, e quando a preocupação não cede e atrapalha a rotina, quem ajuda é um profissional de saúde mental, não um exercício de perspectiva.
