Há quem peça desculpas antes de dizer que não pode. Aceita a reunião fora do horário, o favor de domingo, a tarefa que era de outra pessoa. Responde mensagem de madrugada para não parecer ausente. No fim do dia, some a sensação de dever cumprido e sobra a impressão de que ainda ficou devendo alguma coisa a alguém.
A psicanálise fundada por Sigmund Freud tem uma explicação desconfortável para essa cena. Boa parte do sofrimento não nasce do que a pessoa fez, e sim da instância interna que julga o que ela fez. Em “O Mal-Estar na Civilização”, de 1930, Freud descreve a consciência moral como um juiz de apetite crescente: quanto mais alguém renuncia aos próprios impulsos para se manter irrepreensível, mais severo esse juiz se torna. A obediência não acalma a cobrança. Alimenta.
Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons.
A cena se repete hoje em formatos novos. No trabalho, aparece em quem não delega porque teme parecer descomprometido, e acaba entregando menos por ter aceitado demais. Na amizade, aparece no combinado que ninguém cumpre com prazer e ninguém tem coragem de desmarcar. Nas redes, aparece na obrigação de manter opinião impecável sobre tudo, o tempo todo, sob pena de julgamento imediato. Em todos os casos, a energia vai para a fachada e não para a relação. O resultado costuma ser uma pessoa exausta, cercada de gente e com pouca intimidade real.
A formulação circula amplamente associada ao nome de Sigmund Freud e é coerente com o conjunto da sua obra sobre culpa e consciência moral, embora não haja registro localizado da frase em um texto ou entrevista específica. A informação vai junto com a reflexão, e não no lugar dela.
A frase não é autorização para descuido. Ela não diz que gentileza é fraqueza, nem que compromisso é armadilha, nem que magoar alguém é sinal de autenticidade. O alvo não é a bondade. É a encenação da bondade, aquela que precisa de plateia e cobra pedágio em ressentimento mais tarde. Quem larga a exigência de parecer impecável costuma ficar mais confiável com as pessoas ao redor, não menos, porque passa a dizer o que pensa e a sustentar o que promete. Quando o desgaste vira sofrimento persistente, o caminho é a ajuda de um profissional de saúde mental, não a força de vontade.
Talvez valha inverter a pergunta que você faz no fim do dia. Em vez de checar se agiu de forma irrepreensível, cheque se agiu de forma honesta. São coisas diferentes, e apenas uma delas cabe dentro de uma vida inteira.
Frase do dia da Psicologia: “o sonho é a satisfação de que o desejo se realize”
