Nos aniversários redondos aparece sempre a mesma frase: como o tempo passou. No currículo, a contagem de anos de casa vira credencial. No velório de quem morreu velho, alguém sempre diz que foi uma vida longa, e todos concordam. A idade funciona como prova de algo, e quase ninguém pergunta prova de quê.
Sêneca escreveu um tratado inteiro sobre esse mal-entendido. Sobre a Brevidade da Vida é de cerca de 49 depois de Cristo e foi endereçado a Paulino, o funcionário romano encarregado do abastecimento de grãos da cidade. O argumento é que a vida não é curta, ela é desperdiçada. No capítulo 7, ele aponta para um homem de cabelos brancos e rugas, aquele que todo mundo consideraria alguém que viveu muito.
Aquele homem não viveu muito tempo, apenas existiu muito tempo.
No latim a distinção cabe em seis palavras, e vem logo depois da ressalva de que nem cabelo branco nem ruga servem de prova. O mesmo capítulo traz a comparação que fixa a ideia. Sêneca descreve um navegante que sai do porto, é pego por uma tempestade, levado por ventos de direções opostas e termina girando em torno do mesmo ponto. Esse homem não navegou muito. Foi muito sacudido.
A confusão continua intacta vinte séculos depois, em formatos novos. No trabalho, em quem apresenta vinte anos de empresa como se fossem vinte anos de aprendizado, quando às vezes foram o mesmo ano repetido vinte vezes. Nas redes, na contagem de tempo de relacionamento, de academia, de carreira, sempre em número e nunca em descrição. Em todos os casos a medida é fácil de obter e não informa nada sobre o conteúdo.
Aqui é preciso dizer o que a frase não autoriza, porque é justamente onde esse tipo de texto costuma errar. Ela não é veredito sobre quem passou a vida trabalhando para sustentar uma casa. Sêneca era um homem rico escrevendo a um alto funcionário do império, e o alvo dele eram os ocupados por escolha, não os ocupados por necessidade. A frase também não exige biografia de aventura: vida bem usada não é sinônimo de vida intensa, e alguém que criou filhos, cuidou de uma família e manteve amizades longas não precisa de passaporte cheio para justificar nada. Quando o balanço da própria vida deixa de ser reflexão e vira angústia persistente, sobretudo na idade mais avançada, o caminho é procurar um profissional de saúde mental.
O que o trecho propõe é um exercício mais modesto do que parece, e não cabe em número. Pense no último ano inteiro e tente descrever o que mudou nele. Se a descrição vier fácil, você viveu o ano. Se vier só a data, ele passou.
