Frase do dia do estoicismo: “Não são as coisas que nos perturbam, mas a opinião que temos sobre elas”, a reflexão de Epicteto sobre ansiedade

Anotada por um aluno do filósofo no século 2, a frase inspirou os criadores da terapia cognitiva: o que causa sofrimento, muitas vezes, é a interpretação do fato

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Ilustração de Epicteto um dos principais filósofos do Estoicismo

O que a psicologia explica sobre a frase de Epicteto "Não são as coisas que nos perturbam, mas a opinião que temos sobre elas". (Foto: Reprodução)

Uma mensagem sem resposta. Um colega que não cumprimenta no corredor. Um exame marcado para a semana que vem. Em minutos, muitas pessoas já imaginaram o pior cenário possível, e o corpo reage como se ele já tivesse acontecido.

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Há quase dois mil anos, Epicteto descreveu esse mecanismo em uma frase curta: “Não são as coisas que nos perturbam, mas a opinião que temos sobre elas.”

A ideia atravessou séculos e chegou aos consultórios. Ela está na origem de algumas das abordagens mais usadas pela psicologia atual.

Por que um ex-escravo virou referência para a terapia?

Epicteto nasceu por volta do ano 50, em Hierápolis, na atual Turquia, e viveu parte da vida como escravo em Roma. Tinha pouco controle sobre o próprio destino, e talvez por isso tenha dedicado a filosofia a uma pergunta prática: o que, afinal, depende de nós?

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Liberto, tornou-se professor e fundou uma escola em Nicópolis, na Grécia. Não escreveu nada. Suas aulas foram anotadas pelo aluno Arriano, que depois resumiu os ensinamentos principais no Encheirídion, o Manual. A frase está no capítulo 5 desse livro.

O que Epicteto quis dizer com “opinião”?

A palavra usada no grego é dógmata, que pode ser traduzida como “opiniões” ou “juízos”. Para os estoicos, não se trata de uma opinião qualquer, como gostar ou não de um filme. É o julgamento que a mente faz sobre um acontecimento: se ele é bom ou ruim, ameaçador ou neutro.

O próprio Epicteto dá um exemplo logo em seguida. A morte, diz ele, não é terrível em si, ou teria parecido terrível também a Sócrates, que a enfrentou com serenidade. O que assusta é o juízo de que a morte é terrível.

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O capítulo termina com uma orientação que costuma ficar de fora quando a frase circula: diante de uma perturbação, não se deve culpar os outros, e sim examinar os próprios julgamentos.

Como a frase chegou à psicologia

No século 20, o psicólogo norte-americano Albert Ellis citou Epicteto como uma das inspirações da terapia que desenvolveu, a Terapia Racional-Emotiva Comportamental. Em Reason and Emotion in Psychotherapy, de 1962, Ellis defende que as emoções dependem em grande parte das crenças que a pessoa tem sobre os fatos.

Pouco depois, o psiquiatra Aaron Beck estruturou a Terapia Cognitivo-Comportamental, a TCC. No livro Cognitive Therapy of Depression, de 1979, Beck e colaboradores apontam os filósofos estoicos como a origem filosófica da abordagem.

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Na prática clínica, a lógica é parecida com a de Epicteto. Entre o fato e a emoção existe uma interpretação, muitas vezes automática. A TCC chama de distorções cognitivas as interpretações que exageram ou deformam a realidade. Alguns exemplos:

  • Catastrofização: imaginar sempre o pior desfecho possível.
  • Leitura mental: ter certeza do que o outro está pensando sem nenhuma evidência.
  • Personalização: acreditar que tudo o que acontece ao redor é culpa própria.
  • Pensamento de tudo ou nada: enxergar uma situação apenas como sucesso total ou fracasso total.

O que a frase não quer dizer

Epicteto não afirma que problemas reais não existem, nem que basta “pensar positivo” para que eles desapareçam. Uma demissão, uma doença ou uma perda continuam sendo fatos concretos.

O que a frase propõe é separar o fato do julgamento sobre ele. Essa separação não elimina a dor, mas pode reduzir o sofrimento acrescentado por previsões e interpretações que não se confirmam. Em casos de ansiedade ou tristeza persistentes, o caminho é buscar acompanhamento com psicólogo ou psiquiatra.

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Onde ler o texto original

O Manual de Epicteto é curto e tem tradução brasileira feita diretamente do grego por Aldo Dinucci e Alfredo Julien. A Stanford Encyclopedia of Philosophy mantém um verbete sobre o filósofo com a história da transmissão de seus ensinamentos.

Fica a pergunta que Epicteto faria a quem lê o capítulo hoje: na última vez em que algo tirou sua paz, o que perturbou você foi o fato ou a história que você contou sobre ele?

Você pode gostar de ver também a frase do dia do Estoicismo: “Sofremos mais vezes pela opinião do que pela realidade” – Sêneca, filósofo romano sobre o medo.