Oscar Wilde disse: “Um homem pode viver feliz com qualquer mulher desde que não a ame” – reflexão do autor sobre amor

Do ponto de vista da procedência, esta é uma das poucas frases de Wilde que ele próprio selecionou para circular fora do romance

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Retrato fotográfico de Oscar Wilde da década de 1890, em estúdio.

Oscar Wilde estava no auge da fama em 1895, ano em que publicou Oscariana e foi levado a julgamento. (Foto: Reprodução)

Oscar Wilde é um dos autores mais citados da língua inglesa, e também um dos mais mal citados. A causa é o formato em que ele trabalhava. O epigrama é uma frase construída para sobreviver sozinha, sem parágrafo em volta, e essa autonomia é justamente o que facilita a deriva: uma vez solta, ela pode ser colada a qualquer contexto. Com esta frase específica, porém, aconteceu algo incomum. Quem primeiro a soltou do contexto foi o próprio autor.

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O epigrama trata da relação entre amor e tranquilidade. A tese embutida é desconfortável e simples: amar alguém introduz uma variável que a pessoa não controla, e é essa variável que impede a paz doméstica. Não é uma afirmação sobre a qualidade das mulheres. É uma afirmação sobre o que o amor faz com quem ama.

Um homem pode viver feliz com qualquer mulher desde que não a ame.

A frase aparece pela primeira vez no capítulo 15 de “O Retrato de Dorian Gray”, em um jantar na casa de Lady Narborough. Quem fala é Lord Henry Wotton, o aristocrata cujas máximas empurram o protagonista para a ruína ao longo do romance. Ele abre reclamando que casamento feliz é conversa fiada e emenda o epigrama. A anfitriã responde chamando-o de cínico, o que significa que o próprio livro rotula a fala enquanto ela acontece.

Em 1894, Constance Wilde começou a reunir epigramas do marido em uma coletânea. O volume saiu no ano seguinte, impresso em tiragem privada por Arthur Humphreys, com o título “Oscariana“. Wilde não gostou da seleção feita por ela e revisou o texto inteiro antes da publicação, o que faz do livro a única antologia das próprias frases escolhida e chancelada por ele. Esta frase está entre as selecionadas. Foi o último livro dele publicado antes do processo que o levaria à prisão, ainda em 1895.

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A sobreposição das duas origens é o dado mais interessante do caso. Dentro do romance, a frase é evidência contra quem a diz. Fora dele, com aval do autor, vira epigrama assinado. Wilde trabalhava exatamente nessa ambiguidade: o método dele consiste em inverter um provérbio conhecido para expor a suposição que o sustentava. Aqui o provérbio invertido é a ideia de que o amor produz casamentos felizes. A inversão não prova nada, e não pretende. Ela obriga o leitor a defender a suposição em voz alta, o que raramente é confortável.

Vale registrar o que a formulação carrega do salão vitoriano em que foi escrita. “Qualquer mulher” trata a esposa como categoria intercambiável, gesto que soava espirituoso em 1890 e soa outra coisa hoje. O núcleo do argumento, contudo, não depende do gênero. Trocar as posições da frase preserva o raciocínio inteiro, e talvez seja esse o teste mais honesto que se pode aplicar a ela.

Oscar Wilde disse: ‘Os filhos começam amando os pais; à medida que crescem, julgam-nos; às vezes, perdoam-nos’