O ano começou bem: promoção, casa nova, exames em dia. Em julho, a empresa cortou o setor. A pessoa, que havia planejado o resto da vida em cima da fase boa, descobre que não tinha plano para a fase seguinte.
O contrário também acontece. Depois de um ano ruim, alguém decide que “é assim mesmo”, e não percebe quando a maré vira.
Uma frase atribuída a Pitágoras descreve a regra que os dois ignoraram: “Se existe luz, então existe escuridão; se existe prosperidade, também existe adversidade”. A ideia é antiga. A frase, não.
Quem foi Pitágoras antes desta reflexão?
Pitágoras nasceu na ilha de Samos, no mar Egeu, por volta de 570 a.C. Por volta de 530 a.C., mudou-se para Crotona, no sul da Itália, onde fundou uma comunidade que misturava filosofia, matemática, música e regras de vida, incluindo restrições alimentares e a crença na transmigração das almas, segundo o verbete de Carl Huffman na Stanford Encyclopedia of Philosophy.
Morreu por volta de 495 a.C. Não escreveu nada, e quase tudo o que se diz sobre ele, inclusive o teorema que leva seu nome, vem de fontes escritas séculos depois, muitas delas lendárias. Aristóteles, no século 4 a.C., já preferia falar em “os chamados pitagóricos” a atribuir ideias ao próprio Pitágoras.
O que os pitagóricos diziam sobre os opostos?
A parte verificável da frase está na Metafísica de Aristóteles. Ele conta que alguns pitagóricos organizavam os princípios do mundo em dez pares de opostos: limite e ilimitado, ímpar e par, um e múltiplo, direita e esquerda, masculino e feminino, repouso e movimento, reto e curvo, luz e escuridão, bom e mau, quadrado e oblongo (986a).
É a chamada tábua dos opostos. Nela, “luz e escuridão” existe. “Prosperidade e adversidade” não. A lista pitagórica é sobre a estrutura do cosmos, não sobre as fases da vida de uma pessoa.
O conceito por trás dela é o de harmonia: para os pitagóricos, o mundo é feito de contrários que se equilibram, como as notas de uma escala musical, que só existem em relação umas às outras. A frase que circula pega essa intuição e a traduz para o vocabulário da autoajuda.
Como a ideia se aplica à vida?
Mesmo sem ser de Pitágoras, a versão moderna da tábua dos opostos tem utilidade prática. Ela funciona como um lembrete em quatro direções:
- A fase boa não é o estado normal: quem planeja só com base nela planeja mal.
- A fase ruim também não é: o “sempre foi assim” costuma ser uma leitura da última semana.
- Os contrários se definem juntos: ninguém sabe o que é folga sem ter conhecido o excesso de trabalho.
- A alternância é informação, não castigo: a adversidade diz algo sobre o que a prosperidade escondia.
O que a frase não significa?
Não é um convite à resignação. “Se existe prosperidade, existe adversidade” não quer dizer que nada adianta fazer. Os pitagóricos, ao contrário, eram obcecados por medida, proporção e disciplina: acreditavam que a harmonia se constrói.
Também não é uma lei de compensação. A frase não promete que, para cada ano ruim, virá um bom. Diz apenas que os dois existem e que planejar a vida como se só um deles fosse real é um erro de cálculo.
Mas Pitágoras realmente disse essa frase?
Não há registro. Pitágoras não escreveu nada; o que sabemos vem de Aristóteles, de biografias escritas mais de setecentos anos depois da sua morte e de um poema anônimo, os Versos de Ouro. A frase não está em nenhum deles.
A versão completa, em inglês, enfileira nove pares e aparece apenas em sites de citações, sem obra, sem tradutor, sem data. É provável que alguém tenha reescrito a tábua dos opostos de Aristóteles em tom de máxima e, como a lista original é pitagórica, o nome de Pitágoras foi junto. A ideia é deles. A frase é de ninguém.
Por que essa reflexão continua atual?
A cultura do “só sobe” nunca foi tão forte: carreira, patrimônio, seguidores, tudo é apresentado como uma curva que só pode crescer. Quem vive nesse enquadramento trata cada queda como escândalo e cada subida como direito adquirido.
A pergunta que fica não é se você está preparado para a adversidade. É outra: quando as coisas vão bem, você está fazendo alguma coisa que ainda faça sentido quando elas deixarem de ir?
