Sentir um “aperto no coração”, lembrar de um ex e sentir uma dor quase física ou até ser afetado por uma música, foto ou cheiro associado ao relacionamento não é apenas uma forma de falar. Segundo a psicóloga Lara d’Almeida, em entrevista ao Sem Censura, a rejeição e o fim de uma relação podem ativar no cérebro regiões semelhantes às envolvidas na percepção da dor física.
A profissional explica que experimentos científicos já observaram o funcionamento cerebral de pessoas que passaram por um término. Em uma das situações, o participante é exposto a um estímulo físico doloroso, como uma temperatura elevada no antebraço, enquanto passa por uma ressonância magnética. Depois, os pesquisadores retomam a situação emocional relacionada à rejeição ou ao fim do relacionamento.
De acordo com Lara, as imagens mostram uma ativação semelhante em determinadas regiões do cérebro nos dois momentos. “Quando eu tenho a dor física e quando eu me lembro do término”, explicou.
É por isso que determinadas lembranças podem provocar reações físicas. Um lugar onde o casal costumava ir, uma fotografia, uma mensagem ou até um cheiro podem funcionar como gatilhos para essas sensações.
“Quando eu passo naquele parque me dá um aperto no coração, eu sinto”, exemplificou a psicóloga, destacando que a reação não é necessariamente imaginária. A memória de experiências ligadas ao relacionamento pode fazer o cérebro retomar parte daquela resposta emocional.
Lara também explica que o término de um relacionamento interfere em sistemas químicos relacionados à sensação de bem-estar e recompensa. Um deles é o sistema opioide endógeno, ligado à produção de substâncias como as endorfinas.
Segundo a psicóloga, durante o isolamento provocado pelo fim de uma relação, pode ocorrer uma diminuição da atividade desse sistema. Com menos endorfina, a pessoa pode experimentar uma sensação de queda depois da ruptura.
Ao mesmo tempo, entra em cena o sistema dopaminérgico, relacionado à busca por recompensa. Durante um relacionamento, pequenas interações cotidianas podem funcionar como estímulos recompensadores: uma mensagem, um elogio ou a atenção da pessoa amada, por exemplo.
“Eu vou mandar mensagem, ele vai me dizer que eu estou linda”, explicou Lara.
Quando o relacionamento termina, porém, o cérebro continua buscando aquela recompensa à qual estava acostumado. É nesse processo que pode surgir a vontade de mandar mensagem, procurar notícias do ex ou tentar recuperar algum contato.
Para a psicóloga, portanto, o sofrimento provocado pelo término não envolve apenas a dimensão emocional. O cérebro também precisa lidar com a ausência de estímulos e recompensas que faziam parte da rotina.
Isso ajuda a explicar por que superar uma relação pode levar tempo. Não se trata simplesmente de “esquecer” alguém: o cérebro precisa se adaptar a uma nova realidade depois de perder uma fonte importante de vínculo, interação e recompensa.
