Durante os primeiros meses, o carro da família Hulance ganhou uma função inesperada. As latinhas eram espalhadas no chão, e os pais de Ryan passavam por cima delas para diminuir o volume antes de guardá-las em sacos. Era assim que a casa, em Solihull, na Inglaterra, conseguia abrir espaço para as poucas centenas de unidades que chegavam toda semana.
Ryan tinha 10 anos quando começou a procurar empresas da região e perguntar se poderiam separar as latas usadas. Queria evitar o desperdício do alumínio e transformar o dinheiro da reciclagem em ajuda para pessoas em dificuldade. Quanto mais estabelecimentos aceitavam participar, mais latinhas apareciam e mais apertado ficava o espaço da família.
Três anos depois, a solução doméstica já não dava conta. Aos 13, Ryan Hulance recolhia cerca de 20 mil latinhas por semana, vindas de aproximadamente 200 fornecedores regulares. A estimativa acumulada chegou a 1,5 milhão de unidades e £18 mil (cerca de R$ 127 mil) destinados à caridade. O projeto que começou com sacos dentro de casa agora exigia uma prensa industrial e ocupava cerca de 20 horas da semana do adolescente.
Uma ideia, dois destinos
Ryan procurava uma maneira de ajudar pessoas em dificuldade sem abandonar a preocupação com o meio ambiente. Encontrou as duas respostas no mesmo objeto: uma lata vazia podia deixar de ir para o lixo e, vendida a uma recicladora, ainda rendia algum dinheiro.
Ele começou em 2023, telefonando ou procurando estabelecimentos próximos de casa para perguntar se guardariam as latinhas usadas. As primeiras coletas somavam poucas centenas de unidades por semana. Aos poucos, moradores, empresas e organizações entraram na rota.
Em dezembro de 2024, a Aluminium Federation, entidade que representa o setor britânico, informou que a iniciativa já havia processado mais de oito toneladas, equivalentes a cerca de 350 mil latas. Naquele momento, havia 23 pontos de coleta, e o projeto já contribuíra com mais de £4,5 mil em alimentos para bancos de alimentos em 2023.
Quando o carro não bastou
Passar por cima das latinhas resolveu o problema de espaço durante algum tempo. A cada semana, porém, chegavam mais sacos. O método que funcionava com algumas centenas de unidades já não acompanhava o projeto, que agora, começava a movimentar milhares.
A família, que administra uma oficina, recebeu então uma prensa industrial. Em vez de serem achatadas pelos pneus, as latinhas passaram a entrar na máquina e sair reunidas em grandes fardos metálicos, mais fáceis de guardar e transportar.
A mudança permitiu que Ryan aumentasse o ritmo. Em 2025, segundo o Express & Star, ele recolheu oito toneladas de alumínio e arrecadou cerca de £6 mil, doados a uma instituição de apoio a mulheres. No início de 2026, aproximadamente 200 fornecedores regulares já entregavam material ao projeto, que processava cerca de uma tonelada por mês.
Vinte horas depois da escola
Mesmo com a prensa e a rede de colaboradores, a escola continua determinando os horários de Ryan. As coletas ficam para depois das aulas e para os fins de semana. Somadas, ocupam cerca de 20 horas de sua semana.
O próprio adolescente admite que nem sempre é fácil trocar o tempo livre pelo trabalho com as latinhas. “Às vezes penso que preferia estar jogando videogame com meus amigos, porque tenho 13 anos”, contou. Quando lembra das pessoas atendidas pelo projeto, porém, diz que a vontade de continuar fala mais alto.
O dinheiro doado é resultado de uma rotina repetida milhares de vezes. As latinhas precisam ser recolhidas, separadas, compactadas e levadas para reciclagem. Ryan está à frente da iniciativa, mas o volume alcançado só se tornou possível com a participação da família, das empresas e dos moradores que guardam o material para ele.
De projeto a empresa comunitária
O crescimento também tirou a iniciativa da informalidade. O nome escolhido, We Can, aproveita o duplo sentido da palavra inglesa “can”, que significa lata, mas também aparece na expressão “nós podemos”.
O registro público britânico mostra que a We Can Community CIC foi incorporada em 3 de novembro de 2023. A sigla CIC identifica empresas de interesse comunitário, modelo britânico destinado a atividades que beneficiam a população. A organização permanece ativa e tem a coleta de resíduos não perigosos entre suas atividades registradas.
As 1,5 milhão de latinhas divulgadas em 2026 representam uma estimativa, não uma contagem individual. A dimensão do trabalho aparece de outras formas: nas toneladas processadas, nas 20 mil unidades recolhidas por semana e nas cerca de 20 horas que Ryan dedica ao projeto.
Na casa dos Hulance, o carro já não precisa passar sobre cada nova remessa. As latinhas agora entram na prensa, saem reunidas em blocos e seguem para a recicladora. Chegam vazias, mas não permanecem assim: o alumínio volta à cadeia produtiva, enquanto o dinheiro obtido ajuda a abastecer bancos de alimentos e a manter outras ações sociais.
Foi esse destino que Ryan começou a construir aos 10 anos. Três anos depois, as primeiras centenas viraram 1,5 milhão, mas cada nova latinha continua desempenhando o mesmo papel: transformar aquilo que seria descartado em alimento, apoio e algum alívio para quem realmente precisa.
Jean Lindemute







