Aos 86 anos, avó se apaixona pelo BTS, emociona a web e realiza sonho com a neta; fãs acima dos 60 revelam como o k-pop mudou suas vidas

Júlia conheceu o grupo sul-coreano por meio da família e se prepara para assistir a uma apresentação em São Paulo; outras mulheres descobriram o k-pop depois dos 60 e fizeram da música uma nova fonte de amizades e experiências

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Entre novas amizades, encontros de fãs e momentos em família, a paixão pelo k-pop ganhou espaço na rotina de mulheres que desafiam estereótipos sobre idade (Fotos: Arquivo Pessoal / BBC News | Reprodução / Instagram)

Entre novas amizades, encontros de fãs e momentos em família, a paixão pelo k-pop ganhou espaço na rotina de mulheres que desafiam estereótipos sobre idade (Fotos: Arquivo Pessoal / BBC News | Reprodução / Instagram)

A paixão por um grupo musical pode chegar em qualquer fase da vida. Para Júlia Fernandes Soares Augusto, de 86 anos, o interesse pelo BTS virou a oportunidade de realizar um sonho ao lado da neta.

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A história dela faz parte de um movimento de mulheres que descobriram o K-pop depois dos 60 anos e encontraram na música novas formas de se divertir, criar vínculos e viver experiências inesperadas.

A aproximação com o grupo sul-coreano aconteceu por meio da família. Júlia já acompanhava outros artistas da Coreia do Sul e pediu ao neto Raphael que lhe apresentasse novas bandas.

Entre as sugestões estava o BTS, que logo conquistou a atenção da idosa. Com J-Hope como integrante favorito, ela passou a acompanhar o grupo e, quando surgiu a oportunidade de assistir a uma apresentação ao vivo, decidiu que queria estar lá.

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Avó e neta se preparam para o show

A vontade de ver o BTS pessoalmente chegou até Beatriz Horta, neta de Júlia, de 28 anos. Professora, ela decidiu ajudar a avó a realizar o desejo.

Conseguir os ingressos, porém, não foi tão simples. Beatriz não conseguiu comprá-los na primeira tentativa, mas uma amiga fã do grupo garantiu as entradas para as duas. Elas pagaram o valor integral por lugares na cadeira inferior.

A reação de Júlia ao descobrir que iria ao show foi registrada em vídeo pela neta. A gravação, compartilhada inicialmente com amigos e familiares e depois publicada no TikTok, ultrapassou 800 mil visualizações.

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A repercussão trouxe entrevistas, participações na televisão e parcerias com marcas. Ainda assim, o que mais importa para Beatriz é proporcionar à avó uma experiência especial.

Aposentadoria e novas amizades

Aos 63 anos, Eliette Amaral também encontrou no BTS uma paixão inesperada. A descoberta aconteceu depois de um período difícil, marcado por duas infecções por Covid-19 e pela aposentadoria, quando passou a ficar mais tempo em casa.

O primeiro contato com o grupo ocorreu por meio de sua afilhada, que havia assistido a uma apresentação da banda no Brasil em 2019. Na época, Eliette não demonstrou muito interesse. A mudança veio em 2022, quando assistiu à apresentação de Jungkook na abertura da Copa do Mundo do Catar.

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O integrante cantou Dreamers, música oficial do torneio, e despertou a curiosidade da brasileira. Ela começou a pesquisar sobre o grupo e, aos poucos, passou a acompanhar os sete integrantes.

Naquele período, Eliette também assistia a doramas, as séries sul-coreanas que conquistaram espaço entre os brasileiros. O interesse pela cultura do país acabou se ampliando até chegar à música.

Um convite para participar de uma festa de aniversário de um fã-clube, em Maringá, no Paraná, marcou uma nova etapa dessa experiência. Apesar da vergonha inicial, ela decidiu comparecer acompanhada da neta, que tinha 15 anos na época.

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No encontro, Eliette percebeu que era a participante mais velha até conhecer outra mulher de idade semelhante. As duas começaram a conversar, e a experiência abriu caminho para novas amizades.

Desde então, a fã passou a frequentar encontros, sessões de cinema e comemorações organizadas pela comunidade. Também participa de grupos de fãs e ajuda a estruturar outro em Sarandi, cidade onde mora.

A convivência passou a ter um significado que vai além da música. Como Eliette resume, “Você não se sente mais sozinha.”

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Quando a música entra na rotina da família

Outra história é a de Maria Helena Loureiro dos Santos, conhecida como Marlene, de 67 anos, moradora de Itapeva, no interior de São Paulo.

Após receber o diagnóstico de Alzheimer, em 2023, ela começou a apresentar alterações de humor e episódios de agitação. A família percebeu que os vídeos do BTS despertavam seu interesse e passaram a fazer parte da rotina.

A filha, Luana Loureiro Leme, de 43 anos, conta que as apresentações são colocadas na televisão ou no celular nos momentos em que a mãe fica agitada. Segundo ela, Marlene costuma se acalmar enquanto assiste.

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Antes de conhecer o grupo sul-coreano, Marlene já gostava de música, cantava e dançava ao som do sertanejo. Agora, Jungkook é seu integrante favorito, e uma das apresentações de que mais gosta é a da Copa do Mundo do Catar.

A família também compartilha vídeos dela dançando ao som do BTS nas redes sociais. As publicações aproximaram Marlene de outras fãs, que acompanham sua rotina e perguntam como ela está.

Para Luana, a comunidade de fãs também representa uma oportunidade de acolhimento durante os cuidados com a mãe.

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É importante, porém, não confundir a experiência familiar com um tratamento médico. O fato de Marlene demonstrar interesse pelos vídeos e parecer mais tranquila ao assisti-los não significa que o BTS trate o Alzheimer ou altere a evolução da doença.

O que o fandom representa depois dos 60 anos

As histórias dessas mulheres mostram como um interesse cultural pode abrir espaço para novas experiências na maturidade. Para algumas, a música representa uma forma de aproximar familiares. Para outras, pode ser o ponto de partida para amizades e atividades fora de casa.

A neuropsicóloga Veruska Vasconcelos, especialista em gerontologia, chama a atenção para a solidão na velhice. Ela não depende apenas de morar sozinho ou ter poucas pessoas por perto: alguém pode estar cercado pela família e, ainda assim, sentir falta de relações em que seus gostos e interesses sejam valorizados.

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Participar de um fandom pode criar oportunidades de identificação com outras pessoas. Nesse ambiente, mulheres mais velhas não são reconhecidas apenas pelos papéis de mães, avós ou cuidadoras, mas também por suas preferências, opiniões e experiências.

O tema também passa pelo etarismo, o preconceito relacionado à idade. A ideia de que determinados gostos pertencem exclusivamente aos jovens pode transformar uma paixão musical em motivo de julgamento.

Em vez de tratar o interesse pelo k-pop como algo inadequado para a idade, familiares podem demonstrar curiosidade e perguntar sobre as músicas, os integrantes e as amizades construídas nesse universo.

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Não existe idade certa para descobrir uma paixão

A história de Eliette também mostra como novos interesses podem despertar vontades que ficaram guardadas durante anos. Depois de começar a acompanhar o BTS, ela passou a planejar sua primeira tatuagem: uma baleia, referência à música Whalien 52, lançada pelo grupo em 2015.

A decisão tem um significado pessoal. Ela conta que, quando era jovem, as tatuagens enfrentavam maior resistência social para mulheres e que não teve coragem de fazer uma naquela época.

Agora, a ideia representa a possibilidade de experimentar algo que antes parecia distante.

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Já para Júlia, a expectativa de assistir ao BTS ao lado da neta transformou a admiração pelos artistas em uma experiência compartilhada entre gerações. E, para Marlene, os vídeos do grupo passaram a integrar momentos de convivência com a família.

Em comum, as três histórias mostram que descobrir uma nova paixão não precisa ter prazo de validade. A maturidade também pode trazer espaço para novos interesses, amizades e sonhos, mesmo quando eles chegam acompanhados de músicas em coreano e de uma banda que conquistou fãs no mundo inteiro.