Aos 96 anos, dona Adelayde inspira família a cultivar a maior coleção de camélias do Brasil

Moradores Laurentino, cidade de 7 mil habitantes, os Nasato são precursores em um segmento que se tornou símbolo do município.

Compartilhe:

Paixão que logo encantou o Adauri, neto dela, que hoje leva em frente a tradição iniciada pela avó. (Foto: NSC TV, Reprodução)

Dona Adelayde Nasato ainda nem sabia o que era uma camélia quando ouviu “A Jardineira” pela primeira vez. “Foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu”, cantava a marchinha. Anos mais tarde, a flor que conheceu pela música ganharia um lugar especial na vida dela. Ela se apaixonou pelas camélias — e transformou esse encanto em cultivo.

Continua após a publicidade

“Quando vim morar para cá, fui cultivando, plantando anos e anos”, relata.

Paixão que logo encantou Adauri, neto dela, que hoje leva em frente a tradição iniciada pela avó de 96 anos. Ele transformou o cultivo de plantas ornamentais em um negócio que tem sustentado a família há décadas.

Continua após a publicidade

“Sempre que a gente podia, brincava no meio das plantas. Na adolescência, eu queria arrumar a minha bicicleta e queria ter alguma coisinha diferente, e comecei a fazer mudas até que chegou em um ponto, nos meus 17 anos, que eles falaram: ‘Oh, agora a produção de plantas e camélias agora é contigo'”, conta Adauri.

Moradores de Laurentino, cidade de 7 mil habitantes que fica a 200 quilômetros de Florianópolis, os Nasato são precursores em um segmento que se tornou símbolo do município. Hoje, o cultivo e a venda das plantas ornamentais é a segunda atividade agrícola mais importante da localidade.

“Todo mundo conhece a camélia porque ‘ah, minha vó tinha um pé desses’, mas eu quero mostrar que tem novas variedades que os jovens podem conhecer e plantar para, futuramente, também deixar lembranças para os filhos”, reflete o neto de dona Adelayde.

E essa é uma das grandes paixões do Adauri. A propriedade tem exemplares que ele ganhou ao longo do tempo de amigos e outros colecionadores, e também que surgiram de cruzamentos, transformando esta na maior coleção de camélias do Brasil. E muitas das que estão ali servem de matrizes para as plantas que ele comercializa.

Continua após a publicidade

“Essa coleção aqui eu já tenho faz uns quatro anos. Comecei como um hobby, eu venho cuidar aos sábados e domingos, às vezes no final do dia venho dar uma olhada. Mas assim, a maior parte do trabalho se dedica a produção”, explica.

Muitas variedades

São mais de 150 variedades, cultivadas desde que Adauri começou a plantar as camélias na propriedade da família, e que foram reunidas a cerca de quatro anos para se tornar um acervo permanente.

Continua após a publicidade

“O que mais atrapalha, para nós, é o excesso de chuva e a falta de chuva. Ela não gosta de solo encharcado, pode ser úmido, mas tem que ser bem drenado. Pela falta de chuva, a gente acabou fazendo um reservatório de captação de água que a gente retém em tempo de chuva e utilizando em épocas de seca”, elabora Adauri.

“Nós pensamos em um reservatório de água para que tenha um armazenamento, uma coleta da água da chuva e, através disso, ele utilize o sistema de irrigação que bomba a água desse reservatório e pode estar reutilizando ela constantemente. Outro fator seria a energia solar, que também foi pensado para diminuir o custo de produção”, explica Daniélle Heck, engenheira agrônoma da EPAGRI.

Continua após a publicidade

Originárias da Ásia, em países como China e Japão, as camélias chegaram ao Brasil trazidas por imigrantes e comerciantes portugueses, e se adaptaram bem a regiões do país com temperaturas mais amenas. Com período de floração predominante entre o outono e inverno, a planta adulta pode variar entre um metro e meio e seis metros de altura.

“O pessoal vinha da Europa para colonizar aqui e traziam sementes das camélias ou outras plantas para poder ter uma lembrança”, conta Adauri.

Continua após a publicidade

Uma flor histórica

Presentes nas rodas de conversa regadas a chá, as camélias carregam uma curiosidade que nem todo mundo conhece: o chá verdadeiro é feito das folhas dela. A bebida que costumamos chamar de chá no dia a dia, como as de camomila, erva-doce ou hortelã, na verdade, é uma infusão.

E a história das camélias vai muito além da xícara. A variedade Alba Plena se tornou símbolo do movimento abolicionista no Brasil e ganhou esse significado no Quilombo do Leblon, uma chácara no Rio de Janeiro que pertencia ao comerciante português José de Seixas Magalhães. Ele cultivava a flor e também acolhia pessoas escravizadas que conseguiam fugir.

Continua após a publicidade

Com o tempo, a camélia também passou a ser usada para identificar os abolicionistas, quase como um código secreto entre os membros do movimento.

Na propriedade do Adauri, outra variedade também ganhou destaque, mas essa tem uma relação íntima com a história da família. É que a dona Adelayde descobriu entre várias plantas uma diferente, que surgiu espontaneamente, e hoje leva carinhosamente o nome da matriarca da família Nasato.

Continua após a publicidade

“Saiu uma diferente, daí veio um cunhado meu e disse: ‘Essa é a camélia Adelayde que apareceu’. E ficou”, conta dona Adelayde.