“O céu emendava com a terra, como se fosse uma coisa só. Brasília tem um certo magnetismo, uma natureza um pouco hipnótica”. A declaração de Athos Bulcão em uma entrevista para a Globo resume o choque visual que mudou o destino do artista plástico carioca quando ele pisou no cerrado pela primeira vez, em 1958.
Contratado apenas para uma passagem temporária no canteiro de obras da nova capital, o pintor e muralista se rendeu ao silêncio do descampado e à claridade do Planalto Central, decidindo morar na cidade pelas cinco décadas seguintes. Essa escolha rendeu mais de 200 intervenções integradas a prédios públicos, levando cor e formas geométricas ao dia a dia de quem circula por palácios, escolas e hospitais.
FOTOS: Como uma viagem temporária em 1958 transformou o visual dos prédios de Brasília
O céu aberto como mar no meio do planalto
A leitura visual de Athos casou com o plano urbanístico traçado por Lucio Costa. Sem serras ou mar por perto para limitar o olhar, o urbanista pensou as avenidas e setores para que o céu funcionasse como a principal moldura da cidade.
Essa vista limpa acontece pela combinação do relevo plano com a altitude de mais de mil metros. No período de seca, quando a umidade do ar cai e as nuvens somem, a luz do sol cria tons vivos de azul de manhã e nuances de amarelo e vermelho ao entardecer. Para impedir que espigões fechassem esse horizonte, as regras de tombamento e construção do Plano Piloto limitaram os prédios residenciais a seis andares de altura.
As cores nos desenhos de concreto de Niemeyer
A convivência de Athos com Oscar Niemeyer gerou uma das parcerias mais produtivas da arquitetura brasileira. Enquanto Niemeyer desenhava estruturas arrojadas de concreto armado, Athos usava azulejos e relevos para humanizar os ambientes e quebrar a dureza das paredes cinzas.
A ideia central era democratizar a arte, tirando quadros de dentro dos museus e inserindo painéis no caminho comum das pessoas. O trabalho da dupla resultou em marcos como a parede do Salão Verde da Câmara dos Deputados, chamada de “Ventania”, e o revestimento exterior da tradicional Igrejinha Nossa Senhora de Fátima.
A liberdade dada aos operários na colocação dos azulejos
A montagem dos painéis trazia uma proposta colaborativa pouco comum para a época. Athos entregava as caixas de azulejos geométricos diretamente aos pedreiros das obras, sem deixar um esquema rígido ou uma ordem obrigatória de encaixe.
A única instrução dada aos trabalhadores era evitar a repetição proposital de sequências, incentivando combinações espontâneas na hora do assentamento. Dessa forma, quem levantava as paredes também participava ativamente da criação artística, ajudando a espalhar a identidade visual que marca os edifícios de Brasília até hoje.
*Com edição de Luiz Daudt Junior.














