Ator morre após injetar substância de aceleramento muscular sem comprovação científica

Legista concluiu que substâncias não aprovadas desencadearam uma reação fatal em Richard Norton, de 75 anos

Compartilhe:
Ator morre após injetar substância de aceleramento muscular sem comprovação científica

Richard Norton, ator australiano que trabalhou com estrelas como Chuck Norris, morreu em março de 2025 após sofrer uma reação fatal associada a injeções de peptídeos não aprovados. (Foto: Redes sociais, Reprodução)

O ator australiano Richard Norton, conhecido por sua atuação em filmes de ação e pelo trabalho como dublê e coordenador de lutas, morreu aos 75 anos após sofrer uma parada cardíaca associada ao uso de peptídeos injetáveis. A conclusão foi divulgada pelo legista David Ryan, responsável pela análise do caso, que apontou complicações relacionadas às substâncias CJC-1295 e ipamorelina, prescritas com o objetivo de melhorar a recuperação física e combater sintomas associados ao envelhecimento. As informações são do New York Post.

Continua após a publicidade

Norton morreu em 30 de março de 2025, em Melbourne, na Austrália. A investigação concluiu que ele havia utilizado doses superiores às prescritas pelo médico. O caso é considerado o primeiro registro conhecido no país de uma morte desencadeada pelo uso de peptídeos não aprovados.

A morte do ator também levou o legista a recomendar uma revisão das regras sobre essas substâncias. Ryan defendeu que a Administração de Produtos Terapêuticos da Austrália (TGA, na sigla em inglês) avalie os benefícios alegados e os riscos dos produtos, além de considerar restrições mais rigorosas à sua utilização.

Norton construiu uma carreira de décadas no cinema e na televisão, trabalhando com nomes como Chuck Norris e Jackie Chan. Ele também treinou atores de Hollywood, entre eles Scarlett Johansson, Margot Robbie, Ben Affleck, Liam Neeson e Tom Hardy, e trabalhou como guarda-costas do músico David Bowie.

Continua após a publicidade

Como os peptídeos foram associados à morte do ator?

Segundo as conclusões do legista, Norton procurou atendimento médico em março de 2025 para tratar fadiga, recuperação física lenta, perda de massa muscular e dores nos ombros. O ator havia passado por cirurgias de reconstrução nos dois ombros e relatou que já tinha recebido prescrição de peptídeos de outro profissional.

O médico Jerzy Muchnicki prescreveu CJC-1295 e ipamorelina, substâncias que atuam sobre mecanismos relacionados à liberação do hormônio do crescimento. A combinação é divulgada em alguns círculos de estética e desempenho físico como uma alternativa para estimular o ganho muscular, favorecer a recuperação após exercícios e lesões, melhorar o sono e combater o envelhecimento.

De acordo com o relatório, o médico explicou a natureza experimental do tratamento e conversou com o paciente sobre os riscos envolvidos e a ausência de alternativas terapêuticas aprovadas para aquela finalidade. Norton também passou por exames de sangue e assinou um termo de consentimento que descrevia possíveis benefícios e efeitos adversos, incluindo anafilaxia, uma reação alérgica grave.

Continua após a publicidade

O ator recebeu a prescrição dos produtos injetáveis em 19 de março. Nos dias seguintes, informou à equipe médica que estava se sentindo bem e que percebia melhora nos sintomas. Em 28 de março, porém, contou a uma enfermeira que estava administrando o dobro da dose prescrita.

Horas depois, Norton aplicou uma injeção e começou a sentir calor e rubor antes de perder a consciência. Ele foi levado ao hospital, mas morreu dois dias depois, em 30 de março.

O legista concluiu que a injeção desencadeou uma reação anafilática, que levou à parada cardíaca. O relatório também motivou uma recomendação para que a TGA reavalie a segurança dos produtos e considere limitar seu uso a ensaios clínicos e outras situações experimentais.

Continua após a publicidade

O médico responsável pela prescrição foi investigado pelo Conselho Médico da Austrália, após questionamentos sobre o uso de substâncias sem comprovação suficiente e a qualidade dos registros clínicos. Ele recebeu orientações e foi submetido a treinamento adicional sobre documentação médica, mas não houve aplicação de medidas regulatórias mais severas.

O que são os peptídeos?

Peptídeos são moléculas formadas por pequenas cadeias de aminoácidos, os mesmos componentes que constituem as proteínas. A principal diferença entre eles está no tamanho e na complexidade das estruturas: em geral, os peptídeos são menores do que as proteínas.

Produzidas naturalmente pelo organismo, essas moléculas participam de diferentes processos biológicos. Algumas funcionam como hormônios; outras atuam na comunicação entre células ou ajudam a regular atividades relacionadas ao crescimento, ao metabolismo, à cicatrização e à resposta imunológica.

Continua após a publicidade

“Esses peptídeos, resumindo, funcionam como mensageiros biológicos e enviam uma mensagem para a célula realizar determinada função”, explica Elisa Minami, cirurgiã plástica e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

Nas últimas décadas, pesquisadores também passaram a desenvolver versões sintéticas dessas moléculas em laboratório, com o objetivo de reproduzir ou modificar determinadas funções biológicas. Algumas têm aplicações médicas reconhecidas, enquanto outras continuam em fase de pesquisa ou não possuem evidências suficientes para justificar o uso clínico.

A insulina é um exemplo de hormônio peptídico utilizado na medicina. Ela é essencial para regular a quantidade de glicose no sangue e faz parte do tratamento de pessoas com diabetes que precisam de reposição do hormônio.

Continua após a publicidade

Por isso, é importante distinguir os peptídeos usados em tratamentos aprovados daqueles que são comercializados com promessas de rejuvenescimento, ganho muscular ou melhora do desempenho sem comprovação adequada de segurança e eficácia.

Quais são os riscos dos peptídeos não aprovados?

O uso de produtos sem avaliação regulatória pode expor os consumidores a riscos que vão além dos efeitos da própria substância. Sem garantias sobre composição, fabricação, concentração e esterilidade, não é possível assegurar que o conteúdo corresponda ao informado no rótulo ou que o produto seja seguro para aplicação.

Em julho de 2026, a Anvisa alertou que CJC-1295 e ipamorelina, entre outros peptídeos divulgados para fins estéticos ou de melhora da saúde, não têm registro na agência. Segundo o órgão, esses produtos não oferecem garantias de segurança, origem, composição ou eficácia e não podem ser considerados seguros apenas por serem anunciados como tratamentos inovadores.

Continua após a publicidade

Na Austrália, a TGA também alertou para relatos de efeitos adversos graves associados ao uso de peptídeos não aprovados, incluindo lesões hepáticas, reações alérgicas severas e outras complicações que exigiram atendimento médico.