Cachorro que parece entender o que a pessoa fala pode ser explicado pelas consoantes das palavras

Pesquisa publicada na revista Science descobriu que o cérebro dos cachorros utiliza padrões de consoantes para identificar palavras em meio à fala humana

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Cientistas identificaram que cães conseguem reconhecer padrões sonoros da fala humana utilizando um mecanismo cerebral semelhante ao encontrado em bebês (Foto: Divulgação / Sarolta Szilágyi / ELTE)

Cientistas identificaram que cães conseguem reconhecer padrões sonoros da fala humana utilizando um mecanismo cerebral semelhante ao encontrado em bebês (Foto: Divulgação / Sarolta Szilágyi / ELTE)

Cachorro que fala ou que entende o que os humanos falam são comuns no cinema e nos desenhos animados. Quem tutela um cão já se perguntou algumas vezes por que esses animais fazem uma cara, de vez em quando, de que estão entendendo o que o que está sendo falado. E isso vai muito além dos comandos básicos. A notícia é que, segundo a ciência, isso não é só imaginação. Um estudo publicado na revista Science mostra que o cerébro dos cães é capaz de identificar padrões na fala de um jeito muito parecido com o do cérebro humano.

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Para entender porque é possível que os cães entendam a fala humana, antes é preciso entender como funciona o entendimento. Quando se fala, a pessoa tem a impressão de que está fazendo isso de forma pausada e pronunciado as palavras isoladamente. Do ponto de vista de quem ouve, o fluxo do som é contínuo, e não ouve os espaços em branco.

Para fazer isso o cérebro usa um conjunto de pistas sonoras chamado segmentação da fala. As vogais funcionam como melodias macias e chamativas de uma música, e as consoantes funcionam como estrutura rígida de sustentação, ou seja, o esqueleto das palavras. Quando as vogais somem ou mudam, o cérebro consegue identificar palavras através das consoantes. O nome desse processo é viés consonantal e isso acontece desde criança.

Por muito tempo acreditou-se que o viés consonantal fosse uma característica humana apenas. O que esse estudo investigou é se a preferência também pode surgir nos animais que convivem diariamente com pessoas falando, como os cachorros.

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Como foi feito o teste do estudo

Ao total, 20 cães domésticos e 20 participantes humanos, monitorados por eletroencefalografia (EEG), tiveram suas atividades cerebrais monitoradas. O estudo analisou três cenários distintos:

  • Padrões de consoantes: sequências em que consoantes recorrentes formavam estruturas fixas de três sílabas.
  • Padrões de vogais: sequências em que as vogais determinavam a repetição do padrão.
  • Sequências aleatórias: sons organizados sem qualquer padrão recorrente.

Os resultados foram impressionantes. Os cientistas mediram a sincronização neural (quando a atividade elétrica do cérebro se alinha ao ritmo dos sons) e descobriram que os cérebros dos cães acompanharam o ritmo das estruturas de consoantes com a mesma intensidade observada nos humanos.

Além disso, aproximadamente 400 milissegundos após o início de cada palavra, registrou-se uma alteração idêntica na atividade cerebral de ambas as espécies, o sinal neural límpido do momento em que o cérebro fatia a palavra no fluxo sonoro.

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Essa é a primeira evidência neural de que não-humanos possuem viés consonantal. Essa descoberta ajuda a explicar proezas cognitivas célebres, como a da border collie Chaser, que conseguia reconhecer o nome de mais de mil objetos, ou o hábito que muitos cães têm de inclinar a cabeça para processar informações relevantes quando ouvem palavras conhecidas.

E como os cachorros conseguem desenvolver o viés consonantal

A questão é se esses cães seriam capazes de desenvolver o viés consonantal depois de algum tempo. A questão fundamental é que tantos os cães expostos à fala humana nos primeiros dias de vida, como os que cresceram nas ruas, são capazes de apresentar a mesma preferência por consoante.

Os cientistas concluíram que a experiência repetida e continuada com a linguagem é capaz de moldar o processamento auditivo cerebral ao longo do tempo. Esse achado transforma o que sabemos sobre a evolução da linguagem: demonstra que características sofisticadas de processamento da fala podem emergir pela aprendizagem e plasticidade cerebral, sem exigir todas as estruturas cognitivas complexas exclusivas dos seres humanos.