Coordenadora de mobilização na presidência da COP30, Luciana Abade Silveira esteve em Santa Catarina nesta semana para conhecer a Conferência Regional sobre Mudanças Climáticas, promovida pela Assembleia Legislativa (Alesc). As reuniões em cinco cidades catarinenses têm como objetivo reunir demandas e soluções regionais de combate e adaptação às consequências das alterações no clima, como os eventos extremos. Nesta quinta-feira (25), o encontro foi em Florianópolis.
Os caminhos encontrados por diferentes setores catarinenses para driblar os problemas climáticos e os pedidos de cada um serão encaminhados no mês que vem à presidência da COP, a Conferência das Partes, um evento que reúne os quase 200 países-membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). O documento, que deve ser finalizado no dia 20 de outubro, será lido com atenção pelos organizadores brasileiros, garante Luciana.
A ideia de percorrer o Estado e ouvir todas as regiões para elaborar a carta-manifesto foi elogiada pela coordenadora, que considerou o modelo extremamente interessante e importante. Luciana já foi assessora especial no Ministério do Meio Ambiente, coordenadora de comunicação em organizações do terceiro setor e participou de oito COPs.
Em entrevista ao NSC Total, ela explicou o papel da Santa Catarina na COP30 e o que a presidência espera do evento, que ocorrerá no mês de novembro em Belém, no Pará. Confira:
Como a presidência da COP enxerga essa mobilização da Alesc em fazer reuniões regionais para criar um documento com contribuições e demandas do Estado relacionadas às mudanças climáticas?
Recebemos com muita alegria essa iniciativa de Santa Catarina e foi a primeira vez que viemos presencialmente participar de uma reunião, nas anteriores estivemos de forma on-line. A presidência da COP fez o convite para o mundo todo fazer mutirões de enfrentamento a mudanças climáticas. Então, existem diversas formas de fazer parte desse mutirão e Santa Catarina resolveu fazer esses encontros junto da população, da academia e da sociedade civil local. A gente espera que esse modelo seja feito por outros Estados.
Esse documento final, que vai ser construído ao longo dessas conferências regionais, nós vamos receber na presidência da COP e estudar com muita atenção para ver de que maneira podemos dar vazão a todas essas demandas.
De que forma a COP30 pode ajudar nas demandas de Santa Catarina, considerando que é um evento de nível global?
Estão chegando muitas demandas, nem todas dá para atender ou levar para a negociação, mas mesmo assim a presidência vai tentar dar o encaminhamento adequado. Nós temos recebido esses pedidos e soluções não só dos Estados, mas de segmentos específicos da sociedade.
Então assim, para começar: o Brasil é um dos países em que os Estados têm papel fundamental nas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas, que são os compromissos que cada nação assume para reduzir emissões de gases de efeito estufa). Os Estados precisam contribuir.
Eu acho que o mais importante de tudo é que para o final do ano nós teremos um grande raio-X das demandas da sociedade. Não só das demandas, mas das soluções. O Brasil é um grande celeiro de soluções e a gente quer mostrar isso para o mundo. Os estados têm muitas soluções importantes e escalonáveis!
Esse é o principal legado que a senhora acha que a COP no Brasil vai deixar?
Eu acho. O presidente Lula (PT), o presidente da COP, André Corrêa do Lago, a nossa CEO, Ana Toni, falam isso: essa é a COP da implementação. Tudo que tinha que ter sido negociado já foi, a gente já sabe o que precisa ser feito. Então é a COP da participação social. A sociedade tem se movido e tem debatido, esse também é um legado.
A COP já deu certo justamente por conta dessa mobilização nacional em torno desse tema. Será que, se a conferência do clima não fosse no Brasil este ano, nós teríamos tantos eventos e tanto debate a respeito disso? A COP no Brasil é uma oportunidade para que as pessoas possam estar discutindo e para que haja encaminhamentos das necessidades apontadas.
A COP não é um evento que dura duas semanas, é um processo que já começou. Muitas dessas iniciativas que estão começando agora vão seguir.
A senhora falou em COP da implementação, mas há quem diga que a COP no Brasil pode não ter toda essa força. China e Estados Unidos, que são os maiores emissores do mundo, ainda não enviaram as NDCs deles… Como vocês estão encarando essa possibilidade de “fracasso”?
Eu não sou a pessoa da área de negociação, mas o que posso dizer é que acho que essa não será uma questão. Por exemplo, está tendo a semana de clima de Nova Iorque e tinha a possibilidade do evento “flopar”, digamos assim. E isso não aconteceu, as pessoas se mobilizaram. Apesar dos Estados Unidos terem saído do Acordo de Paris, os estados americanos devem vir à conferência no Brasil.
E vai ter lugar para todo mundo em Belém? Uma das histórias que mais repercutiram nos últimos tempos foram os preços exorbitantes das hospedagens na cidade da COP…
O que eu posso te garantir é que o governo brasileiro fez um esforço para conversar com todas as delegações do mundo. Todas foram procuradas pelo Governo Federal.
Qual deve ser a maior contribuição de Santa Catarina?
Eu não conseguiria falar especificamente do Estado, mas de modo geral, o Brasil precisa levar a sério a questão das mudanças climáticas. Os Estados precisam tratar este tema com respeito e responsabilidade, né?! Essa iniciativa de Santa Catarina, de reunir vários municípios para debater esse tema, é muito rica e muito importante. Porque as mudanças climáticas afetam todo mundo, não tem questão de partido político, nada. As pessoas mais vulneráveis financeiramente são também as que mais sofrem com isso.
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