Há 30 anos, o salão de beleza de Salete Foschiera também era sua casa. Em uma pequena sala alugada em Quilombo, no Oeste de Santa Catarina, ela dividia o mesmo espaço entre cozinha, quarto e local de trabalho. Aos 32 anos, recém-separada e com uma filha pequena para criar, decidiu apostar na profissão que havia começado a aprender ainda na adolescência.
Hoje, aos 62 anos, Salete mantém o salão em funcionamento e uma clientela que ultrapassa os 200 nomes. Alguns clientes estão com ela há três décadas. Outros chegam de municípios como Chapecó, Cordilheira Alta, São Lourenço do Oeste, Formosa do Sul, Santiago do Sul e São Domingos.
A história começou muito antes de ela ter um endereço comercial. Ainda adolescente, Salete fazia as unhas das vizinhas da mãe. A habilidade chamou atenção, mas, naquele momento, não parecia ser o início de uma carreira. Antes de abrir o próprio negócio, ela trabalhou como balconista em uma loja de roupas, único emprego que teve com carteira assinada e aprendeu a lidar com clientes e vendas.
Depois, passou a vender produtos de limpeza de porta em porta. Também comercializou artigos de enxoval enquanto trabalhava como manicure às sextas-feiras e aos sábados.
A veia para as vendas apareceu cedo. No primeiro mês comercializando enxovais, Salete conta que vendeu 85 cobertores. “Lembro até hoje que, no primeiro mês como vendedora de enxoval, vendi 85 cobertores”, recorda.
Medo de cortar cabelo virou profissão
A experiência como manicure fez Salete perceber que poderia trabalhar profissionalmente na área da beleza. Ela então se matriculou em um curso de cabeleireira do Senac, em Chapecó.
As aulas aconteciam à noite. Mesmo antes de concluir a formação, ela decidiu abrir o próprio salão. O início, porém, veio acompanhado de medo. Cortar cabelos era uma atividade nova e, durante uma das aulas práticas, Salete teve de enfrentar justamente uma situação que a deixou apreensiva: cortar o cabelo da diretora do curso.
“Eu tinha medo de cortar cabelo. Lembro que meu primeiro grande desafio foi em uma aula prática do Senac, quando tive que cortar o cabelo da diretora. Tinha muito medo de errar, mas deu tudo certo”.
O salão foi aberto pouco tempo depois. Como os recursos eram limitados, a sala comercial também servia de moradia. As primeiras clientes vieram, principalmente, das relações que Salete havia construído quando ainda trabalhava como manicure.
Aos poucos, os serviços aumentaram. Vieram cortes, coloração, hidratação, botox capilar e alisamentos. Mas foi justamente quando o negócio começava a nascer que a vida pessoal ficou mais difícil.

Jornada de 18 horas no salão para criar a filha
Recém-separada e responsável pela criação da filha, Nayara, Salete passou a depender exclusivamente da renda do salão. A rotina chegou a ser de 18 horas de trabalho por dia.
“Eu trabalhava das 7 horas até 1 hora da manhã, direto. Passei dois anos e meio trabalhando 18 horas por dia, inclusive domingos e feriados. Foi bem quando me separei e tinha minha filha para criar. Eu poderia passar fome ou deixar de comprar algo para mim, mas não queria deixar faltar nada para ela”.
Em um dos meses mais difíceis, o faturamento foi de apenas R$ 160, enquanto o aluguel custava R$ 200. Depois da separação, Salete passou cerca de um ano dormindo em um colchão no chão. Mesmo diante das dificuldades, continuou trabalhando.
Três décadas de clientes e histórias
O espaço que começou como uma pequena sala ficou para trás. O salão cresceu, recebeu investimentos e passou a oferecer também produtos e roupas, incluindo lingeries. A antiga experiência como vendedora de enxovais voltou a fazer parte da rotina.
Aos 62 anos, Salete ainda trabalha de segunda a sábado e adapta os horários de acordo com a disponibilidade das clientes. “No salão, a gente precisa se adaptar ao horário da cliente. Às vezes, atendemos nos três turnos”, conta.
A clientela já ultrapassa 200 pessoas. Algumas acompanham a profissional desde o início e viram de perto as mudanças no salão e na vida de Salete. Para ela, essa relação construída ao longo dos anos é uma das principais conquistas da profissão.
A conquista que veio depois de anos de sacrifício
Se o salão representa a construção profissional de Salete, a trajetória da filha é o capítulo que mais emociona. Nayara concluiu a graduação em Pedagogia, foi aprovada em concurso público e atualmente é diretora de uma creche no município.
O resultado ganha um significado especial para Salete. Durante os anos mais difíceis, quando trabalhava por longas jornadas e muitas vezes abria mão das próprias necessidades, o objetivo era garantir que a filha tivesse oportunidades.
A adolescente que começou fazendo as unhas das vizinhas acabou construindo uma profissão, um negócio e uma clientela que atravessou três décadas. Hoje, ela diz se sentir realizada com o caminho percorrido.
Para quem pretende começar a empreender, Salete não fala em fórmulas. A recomendação é baseada na própria experiência: buscar conhecimento, trabalhar com dedicação e valorizar os clientes.
“Sempre digo: faça um curso profissionalizante, dedique-se, faça bem feito e priorize seu cliente. Nunca trabalhe só por dinheiro, mas por amor. Fazer o que gosta é o segredo do sucesso de qualquer negócio”, conclui.
