Estudante de Medicina passou por mais de 20 cirurgias após ter corpo queimado em explosão e redesenha a própria história

Natural de Xanxerê, Luísa Rodrigues, de 20 anos, ficou 111 dias internada, passou por mais de 20 cirurgias e ainda segue em tratamento mais de um ano após o acidente ocorrido em Pelotas

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Jovem de Xanxerê queimada

Um ano após o acidente, Luísa segue em recuperação e ressignifica as marcas de uma história que mudou sua vida (Fotos: Arquivos Pessoais, Divulgação)

“Eu só lembro de uma explosão. Ficou tudo laranja e, quando eu me dei conta, eu estava em chamas”. A lembrança de Luísa Rodrigues sobre o acidente que mudou sua vida em 26 de junho de 2025 dura poucos segundos. As consequências, porém, permanecem mais de um ano depois. Natural de Xanxerê, no Oeste de Santa Catarina, a jovem tinha 19 anos quando teve entre 30% e 40% do corpo queimado após uma explosão envolvendo uma lareira, na casa de uma amiga, em Pelotas, no Rio Grande do Sul.

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O que veio depois daquele momento foi uma longa jornada de tratamento. Luísa passou 111 dias internada, em quatro hospitais diferentes, e foi submetida a mais de 20 cirurgias. O processo de recuperação ainda não terminou, mas, ao longo desse período, ela também precisou reconstruir a relação com a própria imagem e aprender a lidar com os olhares, com as cicatrizes e com uma rotina completamente diferente da que tinha antes.

Hoje, aos 20 anos, ela fala sobre o acidente de uma maneira diferente. A experiência que inicialmente trouxe medo e incerteza acabou se tornando, também, uma oportunidade de ressignificar a própria história.

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Tentativa de fugir do frio resultou em explosão

O acidente aconteceu durante uma visita à casa de uma amiga. Era inverno e fazia muito frio em Pelotas. Quando Luísa chegou, a lareira já estava acesa. Com a temperatura diminuindo, ela pediu que o fogo fosse aumentado. Foi quando a amiga colocou etanol na lareira.

Segundo Luísa, o combustível foi colocado três vezes. Na terceira, houve a explosão. “Eu lembro que ela jogou três vezes. Na terceira, eu só lembro de uma explosão. Ficou tudo laranja e, quando eu me dei conta, eu estava em chamas”, diz.

Naquele momento, Luísa conseguiu deixar o apartamento em busca de ajuda. Por medo de utilizar o elevador e eventualmente ficar presa, decidiu descer pelas escadas e bater na porta dos vizinhos.

Ela procurou ajuda em diferentes apartamentos. Duas pessoas abriram as portas. Uma delas, uma senhora, prestou auxílio. A partir dali, começou uma jornada que duraria meses.

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111 dias internada e mais de 20 cirurgias

Luísa foi inicialmente encaminhada para a Unimed de Pelotas, onde ficou internada na UTI. Depois, foi transferida para o Hospital de Pronto Socorro (HPS) de Porto Alegre e, posteriormente, para o Hospital Nora Teixeira. Na última etapa da internação, passou alguns dias no Hospital São Camilo, em Concórdia, onde o pai trabalha. Somados os períodos nos quatro hospitais, foram 111 dias de internação.

Durante o tratamento, Luísa passou por mais de 20 cirurgias relacionadas às queimaduras. Entre os procedimentos, estiveram enxertos e transplantes de pele e enxertos de gordura, necessários para o processo de cicatrização e recuperação.

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Eu posso dizer que cada fase desse processo teve suas dificuldades, mas teve seus momentos bons também. Com certeza, a pior parte foi o início, porque a gente não sabia muito bem como esse processo ia ser.

No começo, além da gravidade da situação, havia outra dificuldade: a falta de referências. Luísa e a família não conheciam outras pessoas que tivessem passado por queimaduras tão extensas.

Eles não sabiam quanto tempo o tratamento levaria, quais seriam as próximas etapas ou como o corpo responderia aos procedimentos. Durante a passagem pelo HPS, os médicos chegaram a explicar que uma etapa chamada cirurgia separadora poderia começar somente depois de um ano. Na época, a previsão parecia distante demais.

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“Eu lembro que, quando a gente estava no hospital, eles falaram que eu ia começar a fazer a cirurgia separadora depois de um ano. E eu lembro que a gente não acreditou na época, porque parecia uma coisa muito surreal”, relembra.

O tempo passou e a previsão se confirmou. Luísa começou a realizar as cirurgias separadoras em 2026.

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Uma recuperação sem prazo definido

Uma das maiores dificuldades do tratamento, segundo Luísa, foi lidar com a imprevisibilidade. Mesmo quando os médicos seguiam procedimentos semelhantes, a resposta do corpo poderia ser diferente de uma cirurgia para outra.

“Um enxerto que numa cirurgia pegava, na outra que a gente fazia quase o mesmo protocolo, às vezes não pegava. Um doía muito, o outro já não ia dando. Era uma coisa meio assim, imprevisível”, cita.

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Essa falta de previsibilidade também tornava difícil pensar no futuro. Não havia uma data certa para a alta, nem como saber exatamente como cada procedimento iria evoluir.

“A gente não tinha uma perspectiva certa de alta, de como ia ficar, se ia ficar bom, se ia dar certo, se não ia. Era uma coisa muito imprevisível”, comenta.

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Para Luísa e a família, a incerteza aumentava a ansiedade. “Isso com certeza nos deixava muito nervosos, nos deixava ansiosos”.

O retorno para casa e o medo dos olhares

Quando finalmente deixou o hospital, outro processo começou. Luísa precisou se adaptar à própria aparência. As marcas do acidente eram mais evidentes, e ela conta que teve dificuldade para sair de casa e enfrentar a curiosidade das pessoas.

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“Eu saí do hospital com a cabeça raspada praticamente, o meu rosto estava com marcas muito mais evidentes. E era muito difícil para mim sair de casa, porque as pessoas olham, as pessoas têm curiosidade”.

O receio fez com que ela passasse um período praticamente isolada. “Eu tinha muito medo de fazer as coisas, eu praticamente me tranquei em casa”.

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Foi nesse momento que as redes sociais passaram a ter um papel importante na recuperação.

Luísa começou a gravar vídeos e compartilhar parte da rotina e da própria história. O que inicialmente era uma forma de enfrentar o medo acabou se tornando uma ferramenta para recuperar a confiança.

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“Começar a postar nas redes sociais foi algo muito libertador para mim”, relembra.

Ao falar publicamente sobre o acidente e mostrar as marcas, Luísa diz que passou a sentir que tinha retomado o controle da própria narrativa.

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Eu comecei a ter coragem de mostrar quem eu sou. Parece que eu me apoderei da história. Essa é a minha história, isso aconteceu, as minhas marcas estão aqui por causa disso.

As cicatrizes que ajudaram outras pessoas

Os vídeos também começaram a chegar a outras pessoas que enfrentavam situações semelhantes. Principalmente meninas passaram a enviar mensagens contando que se identificavam com a história de Luísa e que começaram a olhar para as próprias cicatrizes de uma maneira diferente.

Para ela, perceber esse impacto foi uma surpresa.

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“Muitas meninas começaram a me mandar mensagens que se identificavam de alguma forma com os meus vídeos, que começaram a ressignificar suas cicatrizes por causa dos meus vídeos”, conta.

Os elogios que recebia também tiveram um efeito sobre essas mulheres. “Já que tanta gente estava me elogiando, elas também se sentiram bonitas, sabe? Também se sentiram representadas”.

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A experiência ajudou Luísa a voltar, aos poucos, para a vida fora de casa. “Eu consegui começar a ter coragem de sair na rua, eu parei de ter medo das pessoas olharem. Hoje em dia eu encaro isso de uma forma totalmente diferente”, comemora.

Uma nova forma de se enxergar

Mais do que superar o medo dos olhares, Luísa conta que o processo mudou a maneira como ela própria se enxerga. A experiência fez com que amadurecesse rapidamente e descobrisse uma força que, antes, não sabia que tinha.

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“Eu acho que um processo tão difícil desses faz você amadurecer muito rápido. Eu acho que eu amadureci muito e comecei a ter um carinho muito maior por mim mesma”.

Hoje, ela diz que a relação consigo mesma é diferente. “Eu não sabia que eu tinha essa força, essa capacidade de lidar com uma situação tão difícil. Hoje em dia eu me vejo com um carinho que eu nunca tinha me visto antes. Eu tenho um amor por mim mesma que eu não tinha antes”.

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Luísa também reconhece que a aparência mudou. Mas, para ela, a transformação mais importante aconteceu na forma de olhar para si mesma.

“Eu perdi aquele meu rostinho de boneca. Eu não tenho mais aquela aparência tão normal. Mas, mesmo assim, a minha relação comigo mesma é muito melhor”, diz.

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As cicatrizes e as dificuldades continuam presentes, mas ela diz que passou a se enxergar com mais gentileza.

Gratidão pelas coisas simples

A experiência também mudou a forma como Luísa percebe situações comuns do cotidiano. Coisas que antes pareciam banais passaram a ganhar um significado diferente. Até sentir o vento no rosto passou a ser motivo de gratidão.

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“Hoje em dia tomar um banho para mim é maravilhoso. Essas pequenas coisinhas se tornaram coisas muito significativas para mim. Eu sair de casa, sentir o vento na cara… Essas pequenas coisinhas do mundo se tornaram maravilhosas”, relata.

Do desejo de ser médica a uma missão

Antes do acidente, Luísa já tinha o desejo de cursar Medicina. Depois de tudo o que viveu como paciente, porém, a escolha ganhou um novo significado. A experiência passou a ser vista por ela como uma missão. Para Luísa, conhecer o sistema de saúde a partir do outro lado poderá influenciar a profissional que pretende se tornar.

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“Eu já queria fazer Medicina antes do acidente, só que eu sinto que depois do acidente virou uma missão, sabe? A minha experiência como paciente, com certeza, vai me ajudar muito a ser uma médica muito melhor. Porque tu tá do outro lado é diferente”, conclui.