A casa de pedra na ilha de Kimolos, no Mar Egeu, foi construída há mais de 50 anos e recebia a mesma família todos os verões. O banheiro ficava do lado de fora e era descrito por quem conhecia o imóvel como rudimentar.
Foi ali que Alex McKee, de 17 anos, morreu em 9 de agosto. O adolescente, morador de Cork, na Irlanda, desmaiou enquanto tomava banho. A autópsia realizada em 14 de agosto em um hospital de Pireus, na região metropolitana de Atenas, apontou eletrocussão como causa da morte.
A família estuda entrar com ação judicial. O caso reabre uma discussão que atravessa qualquer país onde a água quente do banho depende de eletricidade, incluindo o Brasil, onde o chuveiro elétrico está na maior parte das residências.
Três dias na ilha da mãe
Alex era filho de pai irlandês e mãe grega. Ifigênia, a mãe, nasceu em Kimolos, e a família voltava com frequência à ilha, sempre hospedada na mesma casa.
O adolescente estava no local havia cerca de três dias quando o acidente ocorreu. Segundo relatos publicados pela imprensa irlandesa, ele morreu no momento em que segurou o chuveiro.
Kimolos é uma ilha das Cíclades com população pequena, o que ampliou a repercussão local do caso.

A ligação para o médico
Agapitos Xanthis, médico que atende na ilha, contou à televisão grega que recebeu uma ligação da mãe pedindo socorro. Ela relatou ter sentido uma descarga semelhante ao tentar ajudar o filho.
O médico afirmou que a família escapou por pouco de duas mortes por eletrocussão. Ele disse ter orientado a mulher a desligar imediatamente a energia da casa.
A orientação descreve o procedimento correto diante de um acidente elétrico. Quem tenta socorrer alguém em contato com a corrente sem cortar a alimentação vira parte do circuito.
O painel sem dispositivo de segurança
O advogado Stelios Voudouris, que fala em nome da família, declarou à emissora Open TV haver responsabilidade criminal evidente por uma tragédia evitável. Segundo ele, o painel elétrico do imóvel teria sido instalado sem um dispositivo de segurança.
A polícia grega informou que a investigação está concentrada no aquecedor de água do prédio e em uma possível falha na fiação. O imóvel foi isolado e as autoridades pediram a atuação de um perito independente para examinar a instalação.
Nenhuma responsabilidade foi formalmente atribuída até o momento. O laudo pericial sobre a fiação ainda não foi concluído.
Prêmio em janeiro, luto em agosto
Em janeiro, Alex e outros dois estudantes receberam prêmios na Young Scientist and Technology Exhibition, competição científica escolar de alcance nacional na Irlanda, incluindo o reconhecimento do Ombudsman for Children. O grupo desenvolveu um sistema de comunicação voltado a pessoas com autismo não verbal, batizado de Bumblebee.
Ele estudava no Terence MacSwiney Community College, em Knocknaheeny, no norte de Cork, e começaria em setembro o último ano do ensino médio irlandês. Colm Burke, deputado pelo Cork North-Central, manifestou pesar público e destacou o empenho do estudante na competição científica realizada no início do ano.
O vereador Tony Fitzgerald afirmou que a comunidade de Cork ficou abalada com a notícia.
O que a instalação deveria ter
O dispositivo citado pelo advogado corresponde ao que a normalização brasileira chama de dispositivo diferencial residual, o DR. Ele compara a corrente que entra e a que retorna no circuito. Quando parte da corrente escapa por outro caminho, como o corpo de uma pessoa, o aparelho desarma em fração de segundo.
A norma técnica brasileira de instalações elétricas de baixa tensão exige proteção por DR de alta sensibilidade em circuitos que atendem áreas molhadas, o que inclui banheiros e o chuveiro. A exigência vale para instalações novas e reformas.
Em imóveis antigos sem DR no quadro, a proteção simplesmente não existe. Disjuntor comum não cumpre essa função, porque ele protege o circuito contra sobrecarga e curto, não a pessoa contra choque. O aterramento é o segundo item.

O que ainda não está estabelecido
O que existe até aqui é o resultado da autópsia e a linha de investigação da polícia. A afirmação de que faltava dispositivo de segurança no painel partiu do advogado da família, parte interessada no processo, e não de laudo pericial.
Não há, até o momento, conclusão oficial sobre a origem da falha, nem responsabilização formal de proprietário, instalador ou fornecedor de equipamento. A perícia independente solicitada pela polícia ainda não apresentou resultado.
Os detalhes do funeral não haviam sido divulgados até a publicação desta reportagem.
O verão em Kimolos seguia igual ao de todos os anos, na mesma casa de pedra de meio século. Da viagem de três dias restaram uma investigação criminal aberta, um imóvel isolado e um ano letivo que começaria em setembro.
