“Uma experiência que vai mudar a minha vida”. É assim que a manezinha Maria Júlia Rengel Ferreira, de 24 anos, espera que seja a oportunidade de cursar a graduação na Universidade de Nova Iorque (New York University/NYU), instituição privada em que foi aprovada para o curso de “Film and TV” no final de 2024.
Ela pretende realizar o sonho da graduação em Cinema em agosto, para as aulas que começam em setembro. Mas, até lá, possui um longo caminho arrecadando fundos para conseguir pagar as despesas que terá, como a anuidade, transporte, alimentação e materiais.
Foi para isso que Maria criou uma conta em site voltado para “vaquinhas” virtuais — nada mais, nada menos, que um site para receber doações anônimas que gostariam de ajudar outras pessoas de todo o mundo. Segundo a plataforma Street Easy, Nova York é um dos lugares americanos mais caros para se viver, com o custo de vida mensal podendo ficar entre R$ 29 mil e R$ 51 mil, dependendo do bairro.
Somando tudo, a agora estudante, que já trabalha com cinema como freelancer e atua como cuidadora em uma comunidade para pessoas com deficiência na Escócia, precisa de R$ 500 mil para conseguir se manter nos Estados Unidos. Segundo ela, até o momento ela já conseguiu cerca de R$ 12 mil.
— Eu sei que é muito dinheiro para se conseguir em pouco tempo, então também estou tentando conseguir patrocínio de fundações, organizações ou empresas que apostam na educação e nas artes, para além da vakinha — conta.
Conexão com pessoas
De acordo com a plataforma, mais de duas mil pessoas criam campanhas de arrecadação no site Vakinha todos os dias, mundialmente. Além do dinheiro arrecadado, Maria afirma que está conseguindo se conectar com novas pessoas e compartilhar sua história. Ela começou a fazer vídeos nas redes sociais para divulgar seu trabalho como cineasta e, também, o fundo financeiro.
— Pretendo continuar divulgando a vakinha junto com outros conteúdos que ainda vou postar sobre a campanha e processo de aplicação para a faculdade de cinema. Acho que é essencial para essa rede que estou criando de pessoas que se interessam pelo que eu faço e se inspiram em mudar a realidade delas — disse.
Maria, que já é formada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), está na Escócia há quase três anos. No final de 2021, ela conta que a situação financeira da família começou a melhorar e, a partir disso, ela viu a oportunidade de aplicar para universidades de fora do Brasil.
Foi então que Maria foi chamada para ser voluntária no “Camphill Blair Drummond”, uma comunidade frequentada por cerca de 100 pessoas com deficiência que “vivem uma vida cheia de oportunidades e atividades enriquecedoras”, segundo a cineasta.
Para conseguir viajar, o trabalho também foi duro. Maria vendeu marmitas veganas congeladas e fez rifas para conseguir levantar o dinheiro necessário para comprar a passagem e pagar o visto de voluntariado. No fim, deu tudo certo, conforme conta.
— De início, eu senti que esse voluntariado iria mudar o meu foco, mas foi bem pelo contrário. Consegui contribuir na vida das pessoas que eu auxilio com minha paixão pelo cinema e pela arte. Além de participar em filmes criados pelos próprios moradores da comunidade, fui contratada para a cobertura de eventos e celebrações. Construí uma segunda casa aqui — diz.
Em busca da graduação em NY
Apesar de já trabalhar com cinema mesmo não tendo formação superior na área, Maria entendeu que a graduação é muito importante para sua trajetória profissional. Como ela já gostava do ambiente universitário, uniu o útil ao agradável. Em suas pesquisas, descobriu que a NYU “é uma das melhores do mundo, e pensei, ‘se já estou aqui disposta a mudar pra valer, porque não tentar em uma das melhores?'”
O processo de inscrição não foi fácil, cheio de altos e baixos e muitas noites em claro, segundo Maria. Ela conta que as inscrições nas faculdades americanas são diferentes das brasileiras e que precisou ser avaliada em critérios desde notas da faculdade e rigor acadêmico até atividades extracurriculares e portfólio artístico.
Em 2022, ela aplicou para a mesma universidade, mas não passou. Apesar de ter ficado triste, a estudante resolveu analisar seus erros e acertos e aplicar novamente no final de 2024, “com muito mais confiança nos materiais que eu estava enviando”. No final de abril de 2025, a tão esperada carta de aceitação chegou.
— Demorei muito pra acreditar, e acho que até agora ainda não acredito muito que fui aprovada depois de anos de dedicação pra isso. Essas últimas semanas têm sido um sonho — destaca.
Veja fotos de Maria Júlia
“A França me presenteia mais uma vez”
Para o jornalista Lucas Ortiz, que foi aceito em três programas de pós-graduação na França, com isenção parcial das anuidades, o processo também não foi e não está sendo fácil, mas o dinheiro já arrecadado na vaquinha online lhe dá forças para seguir em busca do sonho.
Aos 23 anos, Lucas veio de Quatá, no interior de São Paulo, para Florianópolis, em 2019 para cursar jornalismo na UFSC. Amante de português, história, geografia e artes na escola, o jornalista não teve dúvidas quando precisou escolher um curso de graduação.
— Acabei vindo parar em Florianópolis porque, quando pesquisava sobre as melhores faculdades públicas da área, o curso de Jornalismo da UFSC aparecia sempre entre os primeiros. Além disso, me apaixonei pelo currículo, que tinha uma grande carga horária de disciplinas práticas, e a ideia de morar pertinho da praia me atraía bastante — explica.
Antes disso, no segundo ano do Ensino Médio, em 2017, Lucas teve a oportunidade de fazer um intercâmbio em Lille, no Norte da França. Para isso, ele usou o dinheiro que começou a juntar quando tinha apenas 10 anos, acumulando moedinhas que sobravam do supermercado e dando aulas de reforço particulares para outras crianças.
— Não consegui arrecadar muito, é claro, mas foi o suficiente pra pagar todas as taxas à vista. Nas parceláveis, contei com a ajuda da minha mãe, do meu padrasto e da minha avó — conta.
Ele morou na casa de cinco famílias locais e teve experiências “que mudaram completamente a minha forma de ver o mundo”.
Ao voltar de Lille, Lucas se via como uma pessoa muito mais autoconfiante, independente e falando francês fluente. Quando chegou, ele conta que só sabia falar algumas palavras e frases básicas, e que foi “aprendendo por osmose”.
O intercâmbio ainda influenciou o tema do Trabalho de Conclusão de Curso em Jornalismo, com uma série de reportagens especiais para TV sobre a história da francofonia de Florianópolis. Lucas a intitulou de “Bonjour Istepô”.
— A França abriu portas pra mim em diversos âmbitos. Pude imergir em uma cultura extremamente rica e ensinar um pouco da nossa para as pessoas que encontrei lá. […] Além disso, o país me fez crescer enquanto pessoa, me oferecendo a habilidade de falar um idioma amplamente difundido pelo mundo e expandindo meus horizontes — aponta.
Agora, ele conta que a França o presenteia mais uma vez, com a oportunidade de um mestrado internacional, que sempre esteve nos planos dele. Dos três programas em que foi aceito, Lucas escolheu estudar História, Civilizações e Patrimônio na Université Paris Cité.
O mestrado fora do país
A inscrição para a graduação e mestrado na França é feita através de um dossiê de candidatura, segundo Lucas. As universidades avaliam se os perfis dos estudantes estão de acordo com o que eles procuram. No Brasil, o procedimento é intermediado pelo Campus France, a agência oficial do governo francês responsável pela promoção do ensino superior na França.
Lucas precisou enviar uma série de documentos, como o passaporte, currículo profissional em francês, e o certificado de proficiência na língua, por exemplo. Depois, passou por uma entrevista pré-consular na Aliança Francesa de Florianópolis.
Com tudo pronto, Lucas agora enfrenta a parte mais difícil. Ele pretende viajar em setembro mas, para isso, resolveu criar uma vaquinha online para pedir ajuda de outras pessoas. Com a anuidade saindo mais em conta por se tratar de uma universidade pública, Lucas estima que gastará em torno de R$ 70 mil a R$ 100 mil por ano com moradia, alimentação e transporte.
— Tenho consciência de que muitas vaquinhas são feitas para atender demandas de vulnerabilidade social e que, felizmente, minha causa não se enquadra nesse contexto. Não estou arrecadando dinheiro para tratar uma doença, ou para lidar com algo mais grave. Mesmo assim, estou de coração aberto, pedindo ajuda para esse sonho, porque sei que muitos como eu acreditam no potencial transformador da educação. E oportunidades assim não batem na nossa porta todos os dias — explica.
Lucas está divulgando a vaquinha nas redes sociais, por meio de vídeos em uma conta criada para esse objetivo. Diferentemente de Maria, o estudante preferiu não utilizar plataformas intermediárias para arrecadação do dinheiro, e divulga sua conta bancária para depósitos.
Para ele, o mestrado é uma “oportunidade de buscar uma vida melhor para a minha família e de trazer novos conhecimentos aqui pro Brasil, que possam contribuir com o desenvolvimento do nosso país”.
Veja fotos de Lucas
Vaquinhas online
Lucas aceita doações de qualquer valor pela chave Pix luscainparis@gmail.com.
- Banco do Brasil
- Agência 6619-2
- Conta poupança 5435-6
Maria arrecada dinheiro para os estudos por meio de duas vaquinhas, uma feita na Escócia, por este link, e outra feita para que as pessoas do Brasil também possam colaborar, neste link.
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