Há quatro anos, sair do quarto era um desafio para Renata Silveira. Hoje, parte de sua rotina acontece entre os pés de café da Fazenda São João, em Passos, no sudoeste de Minas Gerais. A mudança começou com um convite do pai, em uma época em que a enfermeira enfrentava depressão e crises de pânico.
Até então, sua vida havia seguido um caminho bastante diferente. Com mestrado, doutorado e dois pós-doutorados, Renata construiu uma trajetória acadêmica sólida e chegou a conquistar o primeiro lugar em um concurso público federal. Mesmo tendo crescido próxima ao ambiente rural, não pretendia trabalhar com agricultura.
O café era um investimento do marido, que havia começado a cultivar a planta cerca de oito anos antes, enquanto ela permanecia distante das atividades da propriedade.
Segundo reportagem do Canal Rural, a aproximação com a lavoura aconteceu em um dos períodos mais difíceis da vida da produtora. Sem conseguir ficar sozinha, Renata voltou a morar com os pais.
Foi nessa fase que encontrou no campo uma atividade que passou a fazer parte de sua recuperação emocional e, mais tarde, também de sua vida profissional.
Um convite inesperado
A sugestão partiu do pai, que percebeu as dificuldades enfrentadas pela filha e tentou aproximá-la da plantação. “Por que você não vem cuidar do seu café?”, perguntou. A proposta parecia improvável para alguém que havia dedicado tantos anos aos estudos e pouco conhecia sobre a produção cafeeira.
Renata aceitou acompanhá-lo pela propriedade. Durante as caminhadas, o pai mostrava as plantas, explicava os cuidados necessários com o cultivo e compartilhava conhecimentos que havia adquirido com a experiência.
Aos poucos, ela começou a prestar atenção em detalhes que antes passavam despercebidos, desde o desenvolvimento dos pés de café até as mudanças observadas na lavoura. O contato com a terra passou a despertar um interesse que não existia quando o marido iniciou o investimento.
“Ele foi me mostrando as plantas, explicando do jeito dele. E aquilo foi me trazendo uma paz… parecia que aqueles pés de café estavam me esperando há muito tempo”, relatou Renata ao Canal Rural.
As visitas se tornaram frequentes, e o aprendizado passou a ocupar parte de seus dias. Sem abandonar a importância da família em sua recuperação, ela encontrou na atividade rural uma maneira de reorganizar a rotina e se envolver com algo novo.
Uma descoberta na xícara
A relação com o café mudou novamente quando Renata começou a prestar atenção na bebida produzida pela própria fazenda.
Durante uma degustação, percebeu características diferentes no sabor e comentou com o marido. “Eu disse para o meu marido: esse café tem um gosto diferente na xícara”, relembrou. A observação despertou a curiosidade do casal, que decidiu procurar uma avaliação sensorial para entender melhor a qualidade dos grãos cultivados na propriedade.
O resultado surpreendeu os dois: 87,75 pontos. A pontuação colocava o produto acima dos 80 pontos normalmente utilizados como referência para classificar cafés especiais, segmento que valoriza atributos como aroma, sabor e equilíbrio da bebida.
Até aquele momento, Renata e o marido não tinham experiência na comercialização desse tipo de café. Por isso, começaram a buscar informações sobre os processos de avaliação, beneficiamento e venda, tentando compreender quais características poderiam diferenciar a produção da Fazenda São João no mercado.
O interesse também levou a família a procurar orientação técnica e conhecer melhor as exigências de compradores especializados.
Conforme o relato divulgado pelo Canal Rural, toda a primeira safra analisada foi exportada para o Japão. O resultado abriu uma perspectiva comercial que o casal não havia considerado quando começou a investir na cultura.
No ciclo seguinte, uma nova avaliação trouxe outro incentivo. Desta vez, os grãos vieram de um talhão diferente da propriedade e alcançaram 86,5 pontos, reforçando o potencial da produção.
Prêmio trouxe reconhecimento
O interesse em aprimorar o café aproximou Renata e o marido da Associação de Cafeicultores do Sudoeste de Minas Gerais. A partir do contato com outros produtores, começaram a conhecer melhor o funcionamento do setor, trocar experiências e compreender as oportunidades oferecidas pelo mercado de cafés especiais.
Foi durante essa fase que surgiu a possibilidade de participar de um concurso regional de qualidade. O casal inscreveu uma amostra sem grandes expectativas, apesar das avaliações positivas que havia recebido anteriormente.
Na cerimônia de premiação, os participantes aguardavam o anúncio das propriedades classificadas.
Os nomes eram apresentados um a um, e Renata acompanhava a divulgação sem saber se a fazenda apareceria entre os destaques.
A surpresa veio quando os organizadores anunciaram o terceiro lugar na categoria de café natural. “Quando ouvimos ‘Fazenda São João’, nem acreditamos que era a nossa”, contou a produtora ao Canal Rural.
A conquista representou mais do que uma colocação no concurso. Pela primeira vez, o trabalho desenvolvido pela família recebia reconhecimento em uma competição de qualidade, o que incentivou novos investimentos e uma mudança na maneira de apresentar o produto aos consumidores.
Dessa experiência nasceu a marca Café Grão Negro, criada para dar identidade comercial à produção. O casal passou a buscar novas oportunidades de negócio, sem deixar de lado os cuidados com os grãos que haviam garantido as primeiras avaliações positivas.
Café chegou ao exterior
A visibilidade conquistada pela propriedade abriu espaço para participação em encontros de negócios e eventos internacionais, incluindo ações realizadas em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
As apresentações permitiram divulgar o café produzido em Passos e ampliar o contato com representantes do setor.
Paralelamente, a Fazenda São João continuou investindo em novos plantios e no aperfeiçoamento da qualidade, buscando manter as características que haviam chamado atenção desde a primeira degustação.
O segmento de cafés especiais oferece oportunidades de diferenciação para produtores que conseguem atingir padrões elevados de qualidade.
Diferentemente de uma comercialização baseada apenas no volume, esse mercado considera também as características sensoriais dos grãos, a regularidade dos lotes e as preferências dos compradores.
Para propriedades como a Fazenda São João, boas avaliações podem abrir caminhos para negociações com consumidores e empresas interessadas em bebidas de perfis específicos.
A transformação comercial, entretanto, não foi a única mudança na vida de Renata. Antes distante das decisões sobre a lavoura, ela passou a acompanhar a produção, participar do desenvolvimento da marca e construir uma relação diferente com o trabalho rural.
Recomeço entre os cafezais
Quatro anos depois do período em que enfrentava dificuldades para sair do quarto, Renata divide a rotina entre a maternidade, a família e o cultivo de café. A carreira acadêmica, que durante muito tempo ocupou o centro de seus planos, deu lugar a uma atividade que surgiu de maneira inesperada.
A experiência no campo teve importância em sua trajetória pessoal de recuperação, mas não significa que o trabalho rural substitua acompanhamento profissional ou tratamentos indicados para depressão e crises de pânico.
Quando relembra as dificuldades que enfrentou e os resultados alcançados pela fazenda, Renata não coloca as premiações em primeiro lugar. “Eu encontrei a minha paz ali, na terra”, afirmou ao Canal Rural, ao explicar o significado que a lavoura ganhou em sua vida.
Hoje, a Fazenda São João segue com novos plantios e planos para a marca Café Grão Negro. Os grãos que conquistaram boas pontuações e chegaram ao mercado internacional continuam sendo parte importante do negócio familiar, mas, para Renata, também representam uma mudança que começou antes das avaliações e dos prêmios.
Tudo teve início em uma caminhada com o pai, quando ela ainda tentava encontrar forças para retomar a própria rotina.



