Filha de zelador perde o pai na metade do curso de Medicina e promete realizar sonho dos dois

Aos 21 anos, Thainá enfrenta o luto enquanto cumpre a promessa construída com o pai durante toda a infância

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Vestida com o jaleco de Medicina, Thainá Barros segura um retrato de Raimundo Carrilho durante ensaio em homenagem ao pai de criação (Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

Vestida com o jaleco de Medicina, Thainá Barros segura um retrato de Raimundo Carrilho durante ensaio em homenagem ao pai de criação (Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

Quando Thainá Araújo Barros entrou no curso de Medicina, em 2023, Raimundo Carrilho começou a contar o tempo até a formatura. Queria acompanhar cada etapa, participar das fotografias e ver a filha de criação receber o diploma que os dois haviam sonhado juntos.

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Raimundo, no entanto, não estará fisicamente na cerimônia. Ele morreu em 2 de setembro de 2026, aos 80 anos, após complicações provocadas por uma pneumonia. Aos 21 anos e no sexto período de Medicina da Universidade Federal do Acre (Ufac), Thainá precisa agora atravessar a segunda metade da graduação sem seu principal incentivador.

“Meu coração está muito doído. Mas eu sei que lá de cima ele vai estar me acompanhando espiritualmente. E a gente vai chegar até a formatura daqui a três anos”, afirmou a estudante.

A perda interrompeu os planos de uma família, mas não o sonho que começou a ser construído muito antes da aprovação no vestibular. Para Thainá, concluir o curso passou a representar também uma forma de honrar o homem que, mesmo sem ter tido acesso aos estudos, fez da educação da filha uma prioridade.

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O apoio começou na infância

Raimundo conheceu o trabalho ainda menino. Começou a trabalhar na roça aos oito anos e frequentou a escola por apenas quatro. Mais tarde, já em Rio Branco, tornou-se zelador do Mercado do bairro Seis de Agosto, onde permaneceu até a aposentadoria.

A pouca escolaridade não o afastou dos livros. Pelo contrário. Quando Thainá ainda era criança, ele buscava exemplares na biblioteca da escola, acompanhava a rotina de estudos e fazia o possível para que ela encontrasse oportunidades diferentes das que ele havia recebido.

“Ele sempre foi um grande apoio, sempre acreditou em mim desde criança”, recordou Thainá.

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Um livro de astronomia permanece como uma das lembranças mais marcantes daquele período. Fascinada por ciências, a menina pediu ao pai uma obra sobre o assunto. Raimundo não conhecia o tema, mas procurou o livro e pagou cerca de R$ 60 pelo exemplar, um valor significativo diante das condições da família.

Thainá leu a obra diversas vezes e a conservou ao longo dos anos. Depois da morte do pai, o livro deixou de ser apenas uma recordação da infância. Tornou-se o retrato de um homem que talvez não compreendesse os mistérios do universo, mas entendia perfeitamente o poder da educação.

Da escola pública ao curso de Medicina

A trajetória até a universidade exigiu persistência. Thainá estudou na rede pública, passou pelo Instituto Federal do Acre (Ifac) e chegou a cursar Direito antes de conquistar uma vaga em Medicina pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

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Na preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio, participou de um curso gratuito oferecido por estudantes de Medicina da própria Ufac. A rotina era cansativa e também exigia sacrifícios da família.

Raimundo fazia parte desse esforço cotidiano. Acordava cedo para acompanhar a filha até a parada de ônibus, celebrava cada avanço e oferecia apoio nos momentos em que o caminho parecia mais difícil.

Quando o resultado da aprovação saiu, em 2023, a conquista pertencia aos dois. Thainá havia garantido uma vaga em um dos cursos mais concorridos do país. Raimundo, por sua vez, via a filha chegar a um lugar que durante muito tempo pareceu distante da realidade da família.

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Um sonho maior do que o diploma

Raimundo nunca escolheu uma profissão para a filha. Também não condicionou seu apoio a uma carreira específica. Queria apenas que ela estudasse, conquistasse autonomia e tivesse liberdade para decidir o próprio futuro.

O diploma de Medicina representava mais do que uma profissão. Para a família, significava a possibilidade de interromper um ciclo de desigualdade, deixar para trás o medo das enchentes e conquistar condições melhores de moradia e alimentação.

“Eu acredito que o principal sonho dele era a quebra de um ciclo da nossa desigualdade social, morar em um bairro onde não precisássemos ficar com medo de enchentes, ter uma habitação melhor, alimentação de qualidade e uma vida digna com o básico”, contou Thainá.

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Mesmo diante das dificuldades financeiras e acadêmicas, Raimundo acompanhava o avanço da estudante com entusiasmo. Antes de morrer, ele chegou a conversar sobre a roupa que usaria em um ensaio fotográfico para celebrar a metade do curso.

As fotografias aconteceram sem a presença dele. Ao lado da mãe e da avó, Thainá transformou o ensaio em uma homenagem. Nas imagens, carregou a memória de quem deveria estar ali e reafirmou o compromisso de seguir adiante.

A formatura como homenagem

Ainda faltam aproximadamente três anos para o fim da graduação. Thainá sabe que enfrentará etapas exigentes e que a ausência do pai aparecerá nos momentos que ele tanto desejava acompanhar.

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A dor, porém, divide espaço com a gratidão. Ela reconhece que Raimundo pôde acompanhar sua aprovação, o início das aulas e metade da caminhada até o diploma. Também acredita que lhe deu orgulho enquanto ele estava vivo.

Agora, a estudante encontra na história dos dois a força necessária para continuar. Cada prova, estágio e semestre concluído a aproxima da profissão e da promessa feita ao homem que buscava livros, caminhava até a parada de ônibus e nunca deixou que as próprias limitações diminuíssem os sonhos da filha.

A formatura já não será como os dois imaginaram. Ainda assim, quando Thainá receber o diploma, Raimundo estará presente na história escrita até ali. Não apenas como lembrança, mas como parte essencial de uma conquista que começou muito antes da universidade.

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